Separado



No início da década de 1970, havia na televisão brasileira uma série infantil chamada “O Elo Perdido”, contando a saga de um guarda florestal que saiu para um passeio de barco com seus filhos e, atravessando um portal no tempo, chegou a um mundo pré-histórico em que conviviam seres de diversas eras. Na vitória do Brasil sobre o Equador, anteontem, o comportamento de Neymar fez uma parcela da audiência – a faixa de público que era criança há cerca de cinquenta anos – se lembrar das aventuras da família Marshall naquele ambiente estranho.

Talvez a maior transformação que se deu na Seleção Brasileira desde o jogo contra o mesmo Equador, há um ano, tenha sido a atuação de seu jogador mais famoso e decisivo. Do papel de super-herói a quem o time recorria em situações de desespero sob Dunga, Neymar, com Tite, passou à posição de definidor das diferenças construídas pelo sistema que se desenvolve antes dele. De líder técnico irritadiço e figura a ser contida para fazer o Brasil se desintegrar, o camisa 10 foi convertido no maior causador de danos de um time ordenado e capaz. Até voltar no tempo na Arena do Grêmio.

É curioso, porque esse “antigo” Neymar da Seleção foi visto em campo no ano passado, como astro solitário de um time disfuncional. Não faz tanto tempo assim. A questão é que as distâncias entre aquele jogador e o que se associou aos companheiros – especialmente Gabriel Jesus – a partir de setembro de 2016 são tão dramáticas que causam a impressão de que eles estão separados por épocas. Na noite de quarta-feira, em Porto Alegre, o craque pareceu um enviado do passado na companhia de parceiros que não conseguiram reconhecê-lo ou encontrar uma forma de se comunicar com ele.

Neymar não só se permitiu enervar pela marcação por vezes violenta dos equatorianos, como entrou na perigosa dinâmica de procurar a agressão e a elevação da temperatura do jogo. Ao exagerar nas ações individuais, comprometeu movimentos coletivos que poderiam dar frutos. E quando se deslocou despreocupadamente por todos os setores do ataque, facilitou a vigilância do adversário. Gestões típicas de quem confunde protagonismo – que ele não apenas merece, como precisa exercer para que a maneira de jogar funcione – com a necessidade de estar envolvido em todas as etapas do jogo.

É fácil, até lógico, relacionar a postura personalista à mudança profissional que levou Neymar de Barcelona a Paris. Parece natural que, alçado ao posto de jogador-alfa em seu novo clube, ele tenha intensificado a posição – em termos de categoria, frise-se – que sempre ocupou na Seleção e extrapolado limites, para prejuízo próprio e da equipe. Mas, amostra insuficiente, pode ter sido uma noite equivocada de um futebolista que sempre quer fazer mais. Em qualquer dos casos, Tite providenciou a correção quando injetou Philippe Coutinho em uma linha de três meias e limitou a maior parte das ações de Neymar ao setor do campo em que ele é mais perigoso.

Se Coutinho por dentro provou ser uma alternativa estimulante para solucionar problemas de circulação e contundência (veja nota abaixo), o que conduz ao luxo de tê-lo ao lado de três jogadores ofensivos, a noite de Neymar deve ser compreendida e reajustada para o futuro. A Seleção Brasileira precisa de um Neymar associado, paciente e confortável para ser acionado no momento preciso. Explosões individuais diminuem as possibilidades de sucesso na Rússia no ano que vem, até em relação aos reconhecimentos pessoais que possam fazer parte de seus planos de carreira.

BRILHOU

Questões de transferência à parte, o período em inatividade não pareceu atrapalhar Philippe Coutinho. Sua entrada como distribuidor resolveu a partida para a Seleção Brasileira, acelerando o jogo e envolvendo os companheiros de ataque. A maravilhosa jogada do segundo gol, iniciada e concluída por ele, com formidável colaboração de Gabriel Jesus, foi o ponto alto da noite.



  • Edouard

    É interessante como, diante de defesas fechadas, um movimento coordenado de rompimento da primeira lina de marcação e de projeção do atacante é suficiente para desorganizar tudo e criar espaços. O passe do Coutinho para o Gabriel, e a assistência deste para o primeiro, foram brilhantes. Mas o gol nasceu na ruptura da primeira linha, e é curioso que neste caso tenha acontecido sem drible ou triangulação. Foi só uma arrancada. Um momento de desatenção, talvez? Um abraço.

    • André Kfouri

      Sim. Coutinho recebeu livre e superou dois marcadores sem esforço. O movimento de Gabriel para pedir o passe também não foi vigiado. O resto é a habilidade dos dois. Um abraço.

  • Klaus P.

    Excelente analogia, André!

    Para um fã incondicional do futebol do Neymar, chegava a ser angustiante assistir à sua atuação contra o Equador. Mas acho saudável ele procurar os seus extremos nesse momento, desde que não prejudique o resultado geral da Seleção e guarde a informação obtida na caixinha do “como não fazer”.

    Seguindo a lógica das eras, talvez o ideal seja o Neymar colocar na cabeça que, apesar de ter categoria e habilidade de Ronaldinho Gaúcho, deva entender em quais situações do jogo é melhor ser mais Ronaldo Fenômeno (primeiro, altamente decisivo, depois brilhante – até porque, uma coisa é consequência da outra).

    Sobre Coutinho, é um espécime raríssimo de organizador e articulador com habilidade para infiltrações e dribles em velocidade.

    Tomara que ele não “murche” por não ter ido para o Braça.

    Um abraço.

  • Plínio

    Realmente o Neymar esteve irreconhecível na partida contra o Equador, mas talvez tenha um pouco a ver com o fato da seleção já estar classificada e ele ter resolvido dar uma relaxada na cobrança que vinha se fazendo até então como maestro da equipe. Deveria? Não deveria? Mas acontece.

  • Gustavo Sordi

    É um alívio ler tais palavras, eu acho realmente MUITO sério o que aconteceu no jogo contra o Equador, realmente me lembrou os tempos de Dunga e de Santos. Partindo para os “achismos” ou percepções, o Neymar parece e/ou se porta como um indivíduo muito imaturo e mimado por todos a sua volta, não espero mudança quanto a isso e não é obrigação dele ser algum exemplo de ser humano além de seu desempenho dentro de campo.
    As primeiras coisas que pensei foram sobre o seu entendimento errado sobre ser protagonista (tomara que apenas nesse jogo), será que não aprendeu nada com Messi e com o Barcelona? e sobre se o seu comportamento ser contido apenas por gingantes como Messi, Iniesta, Piquet, Suarez e na seleção não ter ninguém que possa falar algo pra ele (torço que não seja assim).
    A amostra ainda é pequena e torço para essa mudança para o PSG não resulte no velho Neymar, atuações e comportamentos como esse atrapalham muito o time, inúmeras jogadas poderiam ter sido perigosas, o jogo poderia ter fluído mais (obs. Willian sempre foi o que mais sofreu com isso desde os tempos antes de Tite), enfim, esse comportamento é um problema para o time e parece que jamais ele seria substituído mesmo se estivesse causando uma eliminação na copa.
    Bom, tudo isso são apenas possibilidades, torço muito para que as coisas mudem e o jogo se torne ainda mais coletivo do que fora antes da última partida. É assim que o verdadeiro protagonista aparece, é assim o jogo bonito, é assim que o desempenho aumenta e é assim, também, que as chances de conquistas pessoais aumentam.

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