Cotação



Mino Raiola, o agente que alguém urgentemente deveria converter em personagem de um filme, foi quem definiu com mais precisão: “O mercado, como tal, não existe mais. Agora são países que contratam jogadores, e isso não é futebol”, disse ao diário espanhol Marca. É exatamente isso. Em Paris, Neymar veste a camisa de um time cujo proprietário não é um magnata à procura de status ou um grupo de acionistas milionários, mas um estado, uma nação. Para clubes de futebol, pagar duzentos milhões de euros por um jogador é um investimento ousado, algo que a imensa maioria não pode nem mesmo cogitar. Para um país como o Catar, é o equivalente à compra de um avião de caça. Não apenas faz sentido, como, de fato, é barato.

O mais “romântico” dos treinadores de futebol também qualificou a chegada de Neymar ao PSG como um dinheiro bem empregado. Marcelo Bielsa, hoje no comando do Lille, tinha todos os motivos para condenar o gesto de força desproporcional feito por um competidor doméstico, mas sua leitura considera o que o astro brasileiro significará para o ambiente do futebol francês nos próximos anos. Bielsa é um conhecido crítico do impacto da escalada da remuneração de futebolistas no distanciamento do que é a razão de ser – o torcedor – do jogo, o que não o impede de avaliar que “para o que agrega ou produz, o que foi pago não é exagerado. Segundo essa lógica, Neymar não é caro”, declarou o argentino.

O que Raiola, Bielsa, a diretoria do Barcelona e todas as pessoas que trabalham no futebol ou o acompanham de perto sabem é que os parâmetros do que se chama de mercado, na Europa, foram reajustados. Após Paul Pogba quebrar a marca dos cem milhões de euros na transferência da Juventus para o Manchester United, no ano passado, esperava-se que este patamar perdurasse por algum tempo. Neymar o dobrou e Ousmane Dembélé será seu substituto no Camp Nou, concluindo a segunda transação mais cara da história (105 milhões de euros, com mais 40 milhões variáveis). Não se pode ignorar a posição desconfortável em que os dirigentes catalães se colocaram, obrigados pelas circunstâncias a negociar em ampla desvantagem, mas o atacante francês tem apenas vinte anos e dez gols marcados na Bundesliga.

Dembélé também tem controle e chute com os dois pés, habilidade rara, e o atrevimento que normalmente caracteriza quem sabe que é bom desde cedo. Falta-lhe a compreensão de jogo que só se adquire com tempo, além de ajustes de comportamento que o vestiário do Barcelona deve proporcionar. A principal explicação de sua estratosférica valorização (o Borussia Dortmund o adquiriu em maio de 2016 por 15 milhões de euros) é a capacidade de desequilibrar jogos na região do campo em que o espaço tem mais valor. O drible próximo à área é o bem de consumo mais procurado do futebol, um prenúncio de ocasiões de gol diante de organizações defensivas competentes e linhas situadas de forma a negar profundidade.

Não é coincidência, portanto, que parte substancial do dinheiro que Neymar gerou tenha sido utilizada para contratar características similares. O mercado pode estar em um momento de insanidade nos valores, mas não nas tendências. A mágica que cria um gol importante seguirá produzindo emoções que não podem ser calculadas em numerários ou em retorno de imagem, como o Maracanã pôde constatar na noite de quarta-feira.

EM GRUPO

Escala de prioridades da temporada do Grêmio: 1) título da Copa Libertadores, 2) título da Copa do Brasil, 3) vaga na Libertadores de 2018, 4) título do Campeonato Brasileiro. Hoje: 1) possível, 2) impossível, 3) muito provável, 4) improvável. Não é uma posição ruim a esta altura. Se há um equívoco na ideia, é o nível de importância dado ao Brasileirão. Supõe-se que esse tipo de decisão é tomado em conjunto no clube, motivo pelo qual é injusto responsabilizar apenas Renato Gaúcho se as coisas não andarem bem.



MaisRecentes

Dilema



Continue Lendo

No banco



Continue Lendo

É do Carille



Continue Lendo