Escolhas



Na história do futebol europeu, em apenas oito ocasiões um time conseguiu o chamado triplete – títulos de liga, copa e copa da Europa, em ambos os formatos, na mesma temporada. Metade se deu entre 1955 e 1999 (Celtic, Ajax, PSV e Manchester United), e metade desde 2009 (Barcelona duas vezes, Internazionale e Bayern). Mesmo num ambiente de futebol organizado, jogo bem compreendido e calendário consciente, um ano dominante tanto em âmbito doméstico quanto continental é um acontecimento raro.

Jamais houve um triplete nesses moldes (Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores) no Brasil, embora seja obrigatório considerar que, entre 2003 e 2012, os clubes que se classificaram para o torneio sul-americano não puderam disputar a copa nacional. Várias equipes já conquistaram três títulos no mesmo ano, mas a “tríplice coroa” que mais se aproxima do modelo europeu é o feito do Cruzeiro, em 2003. Dirigido por Vanderlei Luxemburgo e liderado por Alex, o time venceu o Campeonato Mineiro, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro.

É importante lembrar que a Copa do Brasil era disputada no primeiro semestre, na mesma porção do calendário ocupada pela Libertadores. Em 2003, o Cruzeiro jogou o estadual entre os fins de janeiro e março, a Copa do Brasil de fevereiro a junho, e o Brasileirão entre março e dezembro. Era o melhor time do país com evidente distância, e, após derrotar o Flamengo na decisão do torneio em mata-mata, em 11 de junho, pôde se dedicar a seis meses do campeonato nacional. Neste período, foram realizadas trinta e quatro das quarenta e seis rodadas da competição, vencida pelo Cruzeiro com duas datas de antecedência.

A programação atual ordenou as três principais disputas da temporada, simultaneamente, ao longo do ano. A Copa Libertadores, tratada como prioridade nos primeiros seis meses, passou a ser uma preferência de fevereiro a novembro. E mesmo a Copa do Brasil hoje é vista como uma possibilidade de troféu mais atraente do que o Campeonato Brasileiro, para os clubes que ficaram para trás na classificação e/ou seguem também na Libertadores, casos de Botafogo e Grêmio. O problema não é as competições “concorrerem” entre si, mas a forma como se olha para cada uma delas.

Nenhum time europeu que tem capacidade para ser campeão nacional opta por sua copa local. Enquanto a Liga dos Campeões é tratada com a deferência que merece, os rodízios de escalações são entendidos como parte do planejamento da temporada, de modo a proteger jogadores e manter o nível de competitividade da equipe. E o que é primordial: num calendário em que se joga menos, técnicos podem utilizar seus principais futebolistas nos momentos mais importantes de cada competição. Por aqui, o iluminado vê Messi na televisão duas vezes por semana, nos últimos dois meses do ano, e acha que “futebol é quarta e domingo”.

Essa conduta é impossível no Brasil, onde se joga demais e um técnico como Juan Carlos Osório sofreu pressão para deixar de rodar o elenco do São Paulo, porque “não era necessário”. O resultado é a obrigatoriedade de fazer mais escolhas, mais vezes, para não perder jogadores machucados por longo tempo. Ou será que os profissionais que trabalham nas comissões técnicas dos melhores clubes brasileiros são tolos que não sabem o que estão fazendo? Uma parte fundamental do esporte de alto nível é composta de conhecimento científico, e é preciso respeitar quem o possui.

Atrasos e cuidados à parte, é possível que 2017 seja o início de um aprendizado. Nenhuma competição revela tanto sobre a qualidade de um time quanto o campeonato de pontos corridos. As copas, especialmente a Libertadores, podem desperdiçar meses de priorização em uma semana infeliz. A maior convivência com a realidade atual talvez mostre que o sentido do investimento deve ser para onde há mais controle, o que não diminui a urgência do ajuste do calendário.



  • Paulo Pinheiro

    Nosso péssimo calendário é razão direta do tamanho do nosso país, tentando acompanhar o que se faz na Europa. Se você abandona de vez os estaduais e trabalha como um país como a Espanha, com liga, copa nacional e copa continental, você mata uma quantidade imensa de pequenos clubes que jamais atrairão torcedores o suficiente pra crescer.
    Morrendo os pequenos clubes nossa formação de jogadores dependerá exclusivamente de escolinhas e peneiras de times grandes, que não terão capacidade de absorção de tantos pretendentes. Por isso somamos a essa programação as datas dos Estaduais (sem contar as ligas regionais).
    O Brasil precisa achar a sua própria forma adequada à sua realidade.

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