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O atraso do futebol brasileiro é tão dramático que os técnicos ainda são classificados aqui com etiquetas nas quais cabe apenas uma palavra: o “boleiro”, o “disciplinador”, o “estrategista”, o “motivador” e o “estrangeiro”. Em muitos casos, as etiquetas substituem os nomes e as distintas características das maneiras de ser e trabalhar, pois a falta de interesse em conhecer a rotina de quem dirige equipes de futebol facilita a redução desses profissionais a um rótulo. O caso do “estrangeiro” é ainda mais sério, pois a redução coloca histórias, formações e ideias radicalmente diferentes na mesma prateleira. O estrangeiro pode ser boleiro ou estrategista, mas não importa; o que interessa é estabelecer que ele veio de outro lugar, informação suficiente para quem não precisa saber de mais nada.

Nesta ótica, é cômico como são analisadas as passagens recentes de treinadores que nasceram em outros países pelo futebol brasileiro, de forma a responsabilizá-los por insucessos em que os defeitos do ambiente são evidentes. Os males decorrentes do imediatismo – principal causa da morte de trabalhos feitos por técnicos locais, independentemente do perfil – são agravados pela necessidade de adaptação e o final da história é o mesmo de sempre. Conclui-se, brilhantemente, que o “estrangeiro” não era “nada demais”, pois teve o mesmo desempenho dos que o antecederam, tornando-se um investimento desnecessário. “Mais do mesmo”, diz o sábio, incapaz de notar onde estão os verdadeiros problemas.

Em sua apresentação no Flamengo, Reinaldo Rueda foi questionado sobre o “estigma” do técnico estrangeiro no Brasil. Exatamente. Criou-se um estigma, algo como uma maldição, uma profecia. E se decidiu apresentá-lo como um drama cuja resolução é uma tarefa para esses treinadores condenados ao fracasso longe de casa, até o surgimento de um oráculo que supere todas as dificuldades impostas e revolucione um time em três meses. Há até quem veja nessa fábula uma prova da força do futebol brasileiro, o que infelizmente carrega a discussão para o território do complexo do pombo enxadrista. Embora a humanidade atravesse um momento recompensador para ser idiota, é preciso identificar que esse não é o caminho a seguir.

É necessário abolir o uso de “técnico estrangeiro”, preferencialmente junto com as etiquetas mencionadas no início. Além de exalar desconhecimento, a expressão destina um olhar negativo a quem foi chamado para trabalhar no Brasil e, assim como ocorre com os jogadores de outros países contratados por clubes brasileiros, não está ocupando injustamente o lugar de ninguém. E se o Flamengo presentear Rueda com a quantidade de tempo e paciência que ele necessita para instalar sua forma de trabalhar, que a exceção se transforme em norma e seja um agente de avanço nas relações entre clubes e técnicos. A questão é o futebol que se pratica no país e para onde ele vai, não a origem de cada treinador.

Outra discussão relevante é a certificação de técnicos no Brasil, também, naturalmente, atrasada. A categoria parece disposta a se movimentar e solicitar à CBF uma reforma nas condições de trabalho, além de uma solução que permita dirigir na Europa. Mas não há motivo para que não se beneficie da troca de conhecimentos com técnicos que para cá vierem, que, por sua vez, certamente se tornarão profissionais melhores a partir dessa experiência. Aliás, é curioso que o debate tenha sido aceso pela contratação de Rueda, mal digerida em vestiários espalhados pela Série A. Nesse aspecto, já há um motivo para agradecer ao colombiano.

ESPERA

Logo mais, em Itaquera, o líder do Campeonato Brasileiro encontrará mais uma “expectativa” a ser superada: a de que um período de duas semanas sem jogar é capaz de atrapalhar o que, até agora, funcionou quase perfeitamente.



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