O paciente rubro-negro



Na conversa com João Castelo Branco, que a ESPN Brasil exibiu em maio, Pep Guardiola disse o que pensa a respeito do tempo de trabalho concedido a treinadores de futebol. A questão é um dos mistérios do jogo e provavelmente não tem resposta, pois mesmo se houvesse um período determinado que oferecesse garantia de sucesso, sua aplicação a grupos de pessoas diferentes mostraria o que já se sabe: o futebol é incontrolável. O próprio Guardiola não acredita somente na continuidade como fórmula, pois “quem te garante que ficando cinco anos [no mesmo clube] você irá bem?”, pergunta.

O problema, claro, é que há trabalhos encerrados em cinco meses no futebol brasileiro, por exemplo, ambiente em que o técnico que completa uma temporada do início ao fim é considerado um sobrevivente. Para responder a pergunta sobre a forma correta de avaliar um treinador, Guardiola preferiu dar menos atenção ao tempo, e mais ao tipo de convívio no clube: “Eles [os dirigentes], quando contratam um treinador, pensam que ele irá bem. Então, neste processo, nos próximos meses, eles têm que ver o que ele diz, como trabalha, e o que seus jogadores dizem. Se a relação dos jogadores com o treinador é boa, têm que dar o tempo máximo. Se a relação é ruim, têm que mudar”.

Zé Ricardo era o técnico há mais tempo no cargo entre os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, assumiu o Flamengo em maio do ano passado. A segunda temporada no comando naturalmente aumentou a exigência e o expôs às subjetividades que compõem as observações distantes: as conclusões de que o elenco deveria mostrar um desempenho melhor e de que o clube está infestado por um nível de conformismo que o impede de avançar. Em termos de resultados, o ano vai tão mal que chegava a surpreender que os responsáveis pela tomada de decisões exibissem tamanha paciência.

Não fosse por qualquer outro motivo, só o fato de não ceder à esquizofrenia de torcedores com tempo livre para ofender Paolo Guerrero no aeroporto já valia um elogio à diretoria do Flamengo. Sim, é arriscado aplaudir dirigentes no futebol brasileiro, mas aqui se trata da postura, não da figura. No país em que a tolerância com treinadores é artigo raro, comete-se o exagero de criticar quem é “tolerante demais”. E como é preciso encontrar uma justiticativa para a crítica, decide-se que esse comportamento diferente só pode resultar de falta de conhecimento. De todos, mas jamais de quem opina.

A pressão sobre Zé Ricardo era tão forte que ele talvez tenha cometido o erro mais grave para quem comanda: negar aquilo em que sempre acreditou na procura por soluções momentâneas que lhe devolvessem um mínimo de tranquilidade. Ao notar o técnico questionar a si mesmo, jogadores claramente sem confiança tentaram acionar o modo invisível em campo e qualquer possibilidade de boa atuação coletiva se perdeu. E quem acha, por lavagem cerebral ou pura preguiça, que os problemas de um time de futebol só são resolvidos com a demissão do técnico se encheu de razão.

Voltando à opinião de Pep Guardiola sobre o assunto, eis o que disse Diego, vaiado após a derrota do Flamengo para o Vitória: “Nós gostaríamos de estar fazendo mais até pelo Zé, que é um cara de um caráter excelente. A verdade é que gostaríamos de estar conquistando a vitória para dar tranquilidade para o trabalho dele”. Quando jogadores expõem preocupação com o técnico que os dirige, existem duas possibilidades: 1) a demagogia de quem já sabe que a mudança acontecerá, e 2) o recado de quem quer evitá-la. Diego nunca foi um demagogo.

ATUALIZANDO

Com o primeiro turno completo, é hora de atualizar as chances de título do Corinthians. A média de pontuação do campeão no Brasileirão com vinte clubes é 76 (corrigida para cima). O líder tem 47 pontos, portanto faltariam 29 em 57 possíveis, ou seja, uma campanha de 50,8% no segundo turno. É o equivalente ao desempenho do Flamengo até agora.



  • Paulo Pinheiro

    Penso que o seu raciocínio é correto, André. Mas tem um elemento faltando aí: a inexperiência do Zé Ricardo combinava com a situação do ano passado, em que assumia como “tampão” e os resultados positivos não eram computados como “não mais que a obrigação”. Havia as viagens desgastantes e outros argumentos a seu favor para relativizar os resultado, o que dava ao treinador tranquilidade pra trabalhar.
    O perfil do time de 2017 mudou muito. Quando se reúne tantos jogadores de renome em um mesmo elenco o perfil do técnico jovem acaba fragilizado pelas cobranças de resultados “pra ontem”.
    Quando o Flamengo foi desclassificado da Libertadores o Zé falava sobre “aprendizado” com a experiência. Essa é a questão. Ele precisa de experiência, e o custo desse aprendizado pra ele foi a desclassificação de um time do qual se esperava muito. Um custo altíssimo para uma torcida que espera por um título desse torneio há mais de 3 décadas e há muito tempo não via um elenco tão qualificado.

    Penso também que a diretoria erra ao tentar trazer o Roger Machado porque parece ter o mesmo perfil do Zé Ricardo. Na minha humilde visão o treinador ideal para o Flamengo neste momento seria o Abel ou o Tite. Mas ambos estão indisponíveis. Então que fique o Jayme mesmo até encerrar um ano pra se esquecer. Jayme já passou por essa fervura antes e é “bom de vestiário”, como se diz na gíria boleira.

    • Antonio Carlos Syqueira

      Caro AK

      O Guardiola ficou 3 temporadas no Bayern ganhou o campeonato nacional, que com as devidas proporções seria os nossos campeonatos estaduais (RJ, SP, MG e RS), devida a distância do Bayern em relação aos outros clubes alemão, se fosse no Brasil teriam a mesma paciência com Pep?
      O chato é ver em alguns programas esportivos e ler em alguns blogs, comentaristas fazendo análise(crítica) como se o ZR tivesse um ano no Flamengo já com Rodolfo, Evérton Ribeiro, Diego Alves entre outros desde início. A base do ano passado caiu de produção (Muralha, Rever, Vaz e Arão), Diego se machucou e novos jogadores foram contratados. O 2° turno que poderia avaliar o trabalho do treinador não será possível, pois a cabeça do treinador foi pedida por algumas centenas de torcedores e por alguns comentaristas.

      • Paulo Pinheiro

        Antônio, Penso que os adversários estudaram e entenderam a forma de marcar as jogadas de ataque do Flamengo e estava na hora de aplicar variações táticas, mas as mãos do ZR estavam vazias. É uma impressão que tenho. Fica sempre a impressão de que se espera um lampejo de Éverton Ribeiro ou Diego pra resolver a bagaça. É muito pouco.

  • Anna Barros

    Boa análise! O Corinthians será o campeão, a menos que haja uma hecatombe no returno, o que não creio. Fui na Arena Corinthians sábado! Amei o estádio, amei o jogo e adorei ver o Corinthians jogar! E se não tivesse time já, ficaria tentada a ser Corinthians! Que torcida maravilhosa, de arrepiar! Abs, Anna.

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