Retroativo



A transferência mais cara da história do futebol impõe a reavaliação da saída de outro jogador brasileiro do Barcelona, história que, quando aconteceu, parecia apenas mais uma entre tantas decisões questionáveis tomadas por um clube. Transformou-se em algo muito maior, com ramificações que serão conhecidas nos próximos anos, conforme o desempenho do que se pode chamar de sucursal da Seleção Brasileira no Paris Saint-Germain. Ao tratar Daniel Alves com o que ele classificou como “falsidade”, as pessoas que dirigem o Barcelona não imaginavam a briga que estavam comprando ou a complexidade dos problemas que teriam de resolver.

O caso é público. Daniel se considerou desrespeitado pela oferta de renovação de seu último contrato no clube em que foi mais feliz, e assinou um novo compromisso sem multa rescisória. Em junho de 2016, comunicou sua mudança para a Juventus quando ainda tinha uma temporada a cumprir na Catalunha, uma “saída com classe”, como ele disse, magoado com os atuais gestores do Barcelona. Quem entendeu a eliminação do Barça para a Juventus na última edição da Liga dos Campeões como a “vingança” de Daniel errou na avaliação. O pior ainda estava por vir, e ninguém nos escritórios do Camp Nou seria capaz de evitá-lo ou estaria preparado para lidar com ele.

Foi um pesadelo em partes, como uma série de suspense com capítulos semanais. A despedida da Juventus após a campanha do vice-campeonato europeu causou certa surpresa, e a carta publicada no site The Player’s Tribune, com lacrimosos elogios a Pep Guardiola, sugeriu um reencontro em Manchester. Em Barcelona, nenhum motivo para estresse, pois a ideia de Daniel era mesmo essa. Até que o Paris surgiu com dinheiro irrecusável. O que parecia uma decisão financeira, coisa comum, mostrou-se algo mais engenhoso: uma página da estratégia para contratar Neymar, desfazendo o tridente catalão e elevando o clube da capital francesa – assim como seus proprietários – de categoria.

Se Daniel foi a última peça do mosaico para convencer Neymar, ou uma exigência do astro para se sentir mais cômodo no novo ambiente, agora é irrelevante. Em retrospecto, o erro do Barcelona ao alienar o atacante disfarçado de lateral-direito adquire proporções estratosféricas. De assistente de Messi em incontáveis gols a agente da dissolução de um trio de ataque fabuloso, Alves só está em Paris porque o clube catalão permitiu. Talvez se possa dizer o mesmo a respeito de Neymar. Entre tantos aspectos – alguns extrapolam o esporte e adentram a geopolítica – que compuseram a decisão do “próximo melhor do mundo” de passar a usar um celular francês, estava o desejo de fazer parte de um vestiário mais brasileiro.

Incapaz de substituir Daniel Alves, o Barcelona se vê diante de uma tarefa mais assustadora: substituir Neymar. Os 222 milhões de euros significam a perigosa capacidade de gastar muito dinheiro sem a devida sabedoria, talvez fazendo uma aquisição glamourosa para equilibrar o placar da percepção pública e da depressão popular. Até neste ponto as coisas se entrelaçam: Daniel é um dos símbolos de uma época em que o clube redesenhava maneiras de praticar o jogo por intermédio da máxima associação, sem fetiches por nomes, manchetes ou seguidores no Instagram. Talvez o movimento mais indicado seja fingir que essa fortuna – significativa para qualquer clube, mas não para um país como o Catar, que é quem controla o PSG – não existe, mesmo porque o mercado não ficou mais racional desde ontem.

Neymar se foi enquanto sua chegada ainda se discute na Justiça. É irônico que Sandro Rosell, sócio de Ricardo Teixeira, o presidente que levou Neymar e o Catar para o Barcelona, veja, da prisão, o Catar levar Neymar embora. É mais irônico que tudo possa ser rastreado ao dia em que, em uma reunião rotineira, ficou decidido que não valia a pena investir em Daniel Alves. Um equívoco que ainda pode doer mais.



  • Alisson Sbrana

    Que perspectiva espetacular. Uma espécie de jogo de xadrez entre os dirigentes.

    Pegando carona na “sucursal”, o técnico espanhol do time francês vai suar a camisa para conseguir o sucesso que uma contratação desse tamanho exige. E uma temporada que termina numa copa pode forçar um técnico brasileiro na cidade luz no meio de 2018.

    • Julia Posey

      Concordo contigo….a depender dos resultados em 2018, tanto do PSG quanto da Seleção Brasileira, pq não pensarmos em Tite dirigindo o time? Seria muito bacana. Ou Guardiola, após encerrar contrato com o Man City, que também não é de se descartar?

  • Julia Posey

    Outro texto sensacional, André. Dadas todas as circunstâncias que mencionou e que culminaram no desfecho das transações recentes do PSG, é de estarrecer que um clube do porte do Barcelona, através de seus dirigentes, tenha agido de maneira tão amadora ou displicente na condução desses dois casos. E por falar em Barça, eles agora devem pensar em Dani Alves como uma versão moderna do Cardeal Richelieu. Allez! rsrs

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