Um reino



Talvez tudo seja a materialização de um plano maior, confeccionado muitos anos atrás e do qual Neymar não consegue se desviar, nem mesmo se quiser. O que se chama de destino pode não ser uma página escrita do início ao fim, sem lacunas ou espaço para novos parágrafos. Mas um texto que cada um escreve sem perceber o que está fazendo, trilhando um caminho que vai surgindo onde antes não havia nada, como passos em uma rota que aparece na tela a cada visualização. 

Ainda menino, nas quadras de futsal, ele ouvia que seria jogador de futebol, e dos bons. Adolescente, já tinha contrato, salário indireto, promessas de um futuro vestindo camisas consagradas fora do Brasil. No Santos, cumpriu a profecia de que se converteria em craque e jogaria na Seleção Brasileira; ganhou títulos, fama e status de jogador-empresa, capaz de mover somas obscenas de dinheiro, dessas que normalmente resultam de fusões e aquisições.

Neymar sonhava em jogar com Lionel Messi, desejo que as pessoas que dirigem os negócios de sua carreira operaram para realizar. Nos gabinetes, não foi bonito. Em campo, as memórias são suficientes para marcar um período icônico na história do Barcelona. Uma história que o plano maior se encarregaria de encerrar abruptamente, mesmo que se pergunte o que mais se pode querer além disso. O que mais? Bem, MAIS. Porque um plano como esse não pode se satisfazer onde tudo funciona e se entende ao redor de outra pessoa.

Ao vencer ao lado de Messi, Neymar também se deu conta do tamanho do império e da sombra do argentino. Percebeu o que é um clube em que o conforto de um futebolista determina como se joga, quem se contrata, quem se dispensa e o que deve ser feito para mantê-lo feliz. A última parte do plano se concretizou ao despertar nele o desejo de ser tudo isso, de ter tudo isso, e quem seria crítico a ponto de censurá-lo pela ambição de construir o próprio reino?

Novamente, a engenharia poderia ter sido melhor, sobretudo a comunicação. E não se pode desconsiderar que a força motriz da aventura não é o coração de Neymar Junior, mas a cabeça de Neymar pai. A questão é que esse grande plano para o estrelato não contempla sócios, seu produto final é a figura maior que Neymar pode ser, e para esse objetivo a Messilândia não serve mais. De fato, Barcelona não só deixou de servir, como se pôs no caminho. Paris é o portão para um mundo em que Neymar não joga com ninguém, os outros é que jogam com ele. É tão sedutor quanto arriscado.

Todos os craques que dominaram o futebol tiveram um time que lhes pertencesse. Neymar está prestes a descobrir se o jogo lhe reservou essa honraria. 



MaisRecentes

Irmãos



Continue Lendo

Na mesa



Continue Lendo

Mudanças



Continue Lendo