A morte da idade da razão



“Vocês me acusam de quebrar as regras, e eu digo a vocês que estou jogando conforme as regras. As mesmas regras sobre as quais vocês e eu concordamos. As mesmas regras que vocês e eu escrevemos juntos. Então, sim, eu sou culpado, mas todos vocês também são. Sim, o sistema é corrupto, mas vocês queriam um guardião como eu no portão, e por quê? Porque vocês sabem que eu vou fazer o que for necessário, e vocês todos gostam de ser parte disso, e beneficiados por isso.”

Este é Francis Underwood, no décimo-segundo episódio da quinta temporada de “House of Cards” (sincero perdão se aqui a surpresa se vai repentinamente), em testemunho diante de uma comissão do Congresso que investiga alguns de seus crimes. É parte da abertura de um depoimento que terminará com o anúncio de sua renúncia (ôps, de novo…) ao cargo de presidente dos Estados Unidos. Frank decidiu que não irá embora quieto, e resolveu esfregar na cara de políticos tão inescrupulosos quanto ele – ok, nem tanto, o sujeito merece o crédito – as entranhas da realidade que os faz, todos, irmãos.

Poucos ambientes são tão parecidos com o dos partidos políticos quanto o composto pelos clubes de futebol. É verdadeiramente mórbida a semelhança entre ideias, práticas, métodos, figuras e posturas. A disputa pelo poder e sua manutenção despertam o pior, com o agravante, no caso do futebol, do envolvimento do que se venha a chamar de “paixão” e a participação da massa de pessoas que deseja se ver representada por onze jogadores. Não por acaso, o protótipo do dirigente de clube brasileiro merece ser chamado de político do esporte, tal a proximidade em termos de atuação com aqueles que pedem votos a cada eleição.

Até na relação com o público as dinâmicas estão entrelaçadas, visto que eleitores assumiram o comportamento de torcedores – assim como no futebol, há os comuns, os organizados, os mercenários que apoiam quem os paga, os alienados e, claro, os bandidos infiltrados – e torcedores cada vez mais agem como cheerleaders de cartolas, defendendo com o fígado e a baba (na ausência de outras capacidades) o manda-chuva que trata o clube como se fosse dele, e com frequência o prejudica em nome do próprio benefício. A falta de visão crítica enaltece o dirigente como se ele fizesse gols, pois só o que importa é a vitória no domingo.

Mas há uma grande diferença entre as rotinas do político profissional e do político do esporte: o último precisa assumir responsabilidades sobre o que se passa no clube que comanda, tarefa que se torna mais custosa quando as coisas não andam bem com o time. Transferir o peso de resultados decepcionantes para árbitros e técnicos é a configuração padrão, que conquista porções variadas de tempo e momentaneamente desvia a atenção. Por vezes se oferece o sacrifício de um jogador específico ao público que pede cabeças, embora seja incomum por causa do prejuízo ao patrimônio. Modesto Roma Júnior pode reivindicar para si uma inovação: culpou um repórter que trabalhava na lateral do campo pela eliminação do Santos na Copa do Brasil.

Provas? Nenhuma. Vídeo? O dirigente santista, em viagem, diz que ainda não viu. Mas não se opôs ao envio à CBF de um ofício em que uma pessoa é acusada nominalmente de interferir na decisão da arbitragem de mudar a marcação de um pênalti.

De volta às palavras de Frank: “Não importa o que eu digo, não importa o que eu faço, desde que eu faça alguma coisa. Vocês ficarão felizes por estar a bordo. E, francamente, eu não os culpo. Com toda a idiotice e indecisão em suas vidas, por que não um homem como eu? Eu não me desculpo. Ao final, não me importo se vocês gostam de mim ou me odeiam, desde que eu vença. As cartas estão marcadas, as regras estão manipuladas. Bem-vindos à morte da idade da razão. Não existe certo ou errado, não mais. Existe apenas estar dentro ou estar fora.”

Underwood, ao menos, renunciou. 



  • Bruno

    muito bom!

    • Ailton Souza

      Muito bom

      É como o dialogo entre Tom Cruise e Jack Nicholson no filme Questão de Honra)
      “Filho, o mundo tem muros que precisam de sentinelas armadas.
      E minha existência, embora lhes pareça grotesca e inexplicável…
      salva vidas!
      quer que eu vigie aquele muro, precisa que eu vigie aquele muro!
      Eu não tenho tempo nem disposição para me explicar…
      para alguém que vive sob o manto da liberdade que eu proporciono…
      e questiona a maneira pela qual a proporciono!
      Eu preferia que você agradecesse e se retirasse!
      Senão, sugiro que pegue uma arma e fique de guarda!”
      É a atitude querendo justificar o fato
      Não preciso de provas, só preciso dizer que elas existem.
      Abraços

  • Julia Posey

    Olha, André …. que texto….um nocaute! Sem mais…..

  • Edouard

    Lemos referências a Sartre aqui, amigo. Não é brincadeira, hein… no fim das contas, o ofício enviado à CBF é o filho de Marcelle que Mathieu não queria ter… um abraço.

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