Transparência



O ponto mais importante a respeito do pênalti desmarcado ontem na Vila Belmiro, claro, é que a decisão final foi correta. Réver não fez falta em Bruno Henrique, e teria sido terrível para o jogo – e possivelmente para o resultado final do confronto – se o Santos marcasse um gol fruto de um pênalti que não aconteceu. 

Partimos, portanto, do que está acima de outros aspectos: o acerto da arbitragem em um lance determinante. 

A questão é “como”.

A explicação de Salvio Spínola, comentarista de arbitragem da Espn, esclarece o trabalho da equipe de arbitragem na reforma da marcação de Leandro Vuaden. A informação crucial é a observação do quarto árbitro, Flavio Souza, da mudança de direção da bola, o que indica o toque do defensor. De acordo com a posição de Souza, é perfeitamente aceitável que ele tenha notado a alteração da trajetória. 

Ocorre que a bola pode ter mudado de curso por causa de uma ação faltosa, ao invés de um lance limpo, e para isso o quarto árbitro estava muito distante do lance. Vuaden corria bem próximo e, embora com clara demora para se decidir, viu pênalti. 

O trabalho coletivo da equipe de arbitragem foi preciso, mas, aparentemente, teve ajuda da sorte. A imagem da televisão lhe deu razão. Mesmo assim, a maneira como as coisas são feitas é falha no sentido da informação ao público. 

O gesto de Vuaden após a conversa com seu auxiliar, mostrando “bola”, não explica como se chegou a essa conclusão. E gera o óbvio questionamento que sugere interferência externa: “Como assim, ‘bola’? Você marcou pênalti… e como o quarto árbitro sabe que não foi falta?”.

Quem via o jogo pela televisão sabia que a decisão de mudar a marcação estava correta, mas os jogadores em campo e o público no estádio ficaram entregues às próprias dúvidas. 

Só há uma forma de tornar a arbitragem de futebol mais transparente e dotá-la de credibilidade: adotar o recurso de vídeo, oferecendo aos árbitros a condição de tomar decisões com a maior quantidade possível de informação. 

E esclarecendo ao público o que ele tem o direito de saber. 



  • Paulo Wagner

    O uso de tecnologia para resolver as dúvidas em momentos cruciais do jogo é fundamental. Investe-se muito no futebol, e poderia haver mais investimento ainda, para se deixar que um erro facilmente resolvível pelo uso da tecnologia interfira nos resultados em campo. Porém, enquanto isso não é regra, o que significa que passe a valer para todos, não é aceitável que a tecnologia, e em especial a tv, seja privilégio de alguns, em alguns momentos. Aí reside todo o problema.
    O erro do árbitro, até o momento, faz parte do futebol. Vários times já se beneficiaram dele em decisões de campeonato – vide a final do Carioca de 2014 entre Flamengo e Vasco (aquela do “roubado é mais gostoso”), e foram prejudicados por ele. Indiscriminadamente (ou não).
    As razões que fazem levantar toda essa celeuma agora são duas, a meu ver:
    1. Não é a primeira vez, esse ano, que o mesmo time é beneficiado com “voltadas atrás” do juiz. No jogo do campeonato brasileiro, contra o Avaí, na Ressacada, isso já havia acontecido. Inclusive com uma bela declaração ao vivo do Luis Roberto (“Eles vão consultar a gente de novo”). Mesmo que esse mesmo narrador, pateticamente, tenha tentado desdizer o que havia tão claramente dito;
    2. O quarto-árbitro estava longe e, claramente, a posição dele não ajudava em nada no esclarecimento da jogada. Há uma filmagem da própria Rede Globo, feita da linha de fundo, que mostra o posicionamento do quarto-árbitro no lance. Sinceramente, não acredito que a opinião dele, mesmo que seja um grande “acho que” possa ser levada em consideração quando o próprio Vuaden estava mais bem colocado e perto do lance. E, ao que consta, o Bandeirinha não se manifestou. Vuaden é um árbitro experiente e não acredito que mudasse de opinião baseado apenas em um “acho que” do quarto-árbitro, que ele sabia estar longe lance.
    Junte-se a isso o fato de que existe, sim, uma clara impressão de que alguns times são beneficiados pela televisão (e o Santos vive às turras com a emissora detentora dos direitos televisivos), inclusive na distribuição das cotas, e o resultado é esse. Ainda que não tenha havido nenhuma interferência externa, há um sério risco de perda de credibilidade do torneio pelas razões colocadas acima. E isso afasta torcedores, investidores e patrocinadores.
    Sou totalmente favorável ao uso da tecnologia no futebol. Mas tem que ser para todos, com regras claras e em situações pontuais. O que não vale é o recurso ser privilégio de alguns, que é o que parece ocorrer agora. Mesmo que, de fato, não ocorra, a impressão que fica é a pior possível e o estrago, ou melhor, a dúvida, já está posta na orelha de todos.

    • Bruno

      engraçado, o pênalti anulado do Santos contra o Bahia vc não cita

      • Paulo Wagner

        Nem o primeiro gol do Flamengo, impedido,no fla-flu. Aí é que está o problema: o erro faz parte do jogo; a tv, não. Nem que seja para corrigir marcações equivocadas dos sopradores de apito. Quando fizer parte das regras, e todos puderem usá-la, será um tremendo avanço. Privilegiar poucos, ou usar o vídeo só quando convém, ainda que seja para evitar erros, é que não dá.

        • André Kfouri

          A suposição de que o vídeo foi utilizado é que não dá.

          • Paulo Wagner

            É possível supor, sim, mas não afirmar. Para afirmar, são necessárias provas. Da mesma forma que é possível supor que ele não foi usado, é possível supor que ele foi. O que não dá é para afirmar. Nem uma coisa, nem outra. Por isso vai ficar tudo como está…

            • André Kfouri

              Partindo dessa ideia, então é possível supor tudo. Meu ponto é que se toma como certo que houve auxílio externo, e não se nota que a colaboração do quarto-árbitro é perfeitamente aceitável.

              • Paulo Wagner

                O meu ponto é que a posição do quarto-árbitro não era boa o suficiente para que ele tivesse condições de ter uma opinião a respeito do lance. Vuaden é um árbitro experiente e sabe disso. Por menos convicção que tivesse sobre o pênalti, não mudaria a marcação em função de um “acho que”. Se o vídeo foi usado, e isso é uma suposição, não seria a primeira vez, visto o ato falho do Luís Roberto, ao vivo, ainda que pateticamente tenha tentado se retratar. Mas é uma suposição, reconheço. E, salvo prova em contrário, não há como afirmar nada. Na minha modesta opinião, da mesma forma que é leviano acusar sem provas, não é possível descartar outras hipóteses tão rapidamente. Acredito que esse seja um tema que deva ser discutido e não esquecido. Senão, teremos, novamente, em outro momento, uma nova situação como essa. E, para que o campeonato não perca credibilidade, parceiros e patrocinadores, ele não tem que só ser limpo. Ele tem que parecer limpo aos olhos de todos os interessados.

                • André Kfouri

                  Como está escrito no texto, a posição do quarto-árbitro era boa para notar a mudança de direção da bola. A falta de convicção do árbitro ao marcar o pênalti é clara, motivo pelo qual ele pediu a ajuda do auxiliar.

          • Bruno

            não adianta André. Esse é mais um clubista… ele queria que o Flamengo fosse prejudicado pela arbitragem. Simples assim. Só no Brasil para a imprensa esportiva (em quase maioria) torcer para que um erro prevaleça!

        • Bruno

          se vc provar que foi usado o vídeo… se é tão óbvio pq ninguém prova! é puro clubismo!

  • Edouard

    Podemos partir da premissa segundo a qual efetivamente houve auxílio externo? apenas por hipótese, porque eu não acredito que o repórter da Globo tenha se dado a esse papel.
    Vamos supor que o quarteto de arbitragem efetivamente foi informado de que não houve o pênalti. Usar o recurso externo viola as leis do jogo, mas assinalar um pênalti inexistente também. Assim, qual o fundamento para se sustentar que a regra que proíbe o uso do vídeo importa mais do que a preservação daquilo que efetivamente ocorreu em campo?
    Árbitro de futebol não é juiz de direito e o compromisso dele é, apenas, com o bom andamento da partida, para assegurar que o resultado do jogo reflita aquilo que efetivamente ocorreu no gramado.
    Quando o Min. Herman Benjamin, esse sim magistrado, disse que não faria o papel de coveiro de prova viva, quase todo mundo aplaudiu. Mas o árbitro de futebol não. Esse tem que ser purista e ai dele se voltar atrás em razão de uma “prova ilícita”. Francamente…

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