Frustrante



1 – O Flamengo é o único time brasileiro que tem a intenção – e a capacidade – de controlar todas as partidas negando a bola ao adversário. Uma ideia que deve ser admirada e aplaudida como proposição de futebol, ao invés de ser avaliada impacientemente apenas conforme os resultados que alcança.

2 – A repressão resultadista age contra o crescimento de equipes que optam pelo caminho tortuoso da posse, independentemente do oponente e do local. Os participantes da tomada de decisões no futebol do Flamengo devem ser firmes na continuidade do modo de atuar que pautou os objetivos e a formação do elenco do clube.

3 – É essa maneira de jogar que faz com que o Cruzeiro, em casa, aguarde o Flamengo na linha do meio de campo nos minutos iniciais do jogo. Mas não só isso, é claro. Há também um componente estratégico do time mineiro, configurado para recuperar a bola numa situação em que a defesa adversária tenha boa porção de campo às costas.

4 – Nas ocasiões em que a primeira linha de marcação do Cruzeiro pressionou a origem da saída de bola, o Flamengo não teve nenhuma dificuldade para evoluir até o campo de ataque.

5 – Após duas chances cruzeirenses, uma com exibição dos recursos técnicos de Thiago Neves e outra com um cabeceio de Léo, uma tabela entre Everton e Guerrero ameaçou o gol defendido por Fábio. O que tem separado o Flamengo da validação de seu futebol é a conversão desse tipo de jogada.

6 – Ao final do primeiro tempo no Mineirão, o Cruzeiro foi competente para interromper a circulação do Flamengo nas proximidades da área. A contundência de movimentos ofensivos é crucial ao futebol de posse, algo muito mais complexo de fazer do que de dizer, embora haja quem pense que a capacidade de frequentemente trocar passes até o gol adversário seja uma questão simples.

7 – Essa confusão aparece porque só se enxerga a falta de profundidade e/ou infiltração. Ocorre que outro conceito fundamental do jogo elaborado é a ideia de “viajar junto”, ou seja, quando um time se move e move a bola como um bloco único. Há momentos na maioria das atuações do Flamengo em que a equipe se fragmenta, o que a impede de se impor numericamente e facilita o trabalho de marcação.

8 – Com 32% de posse e razoável presença no ataque, o Cruzeiro jogou como pretendia, pois se defendeu com eficiência e manteve a ameaça que deixou a defesa do Flamengo em alerta constante.

9 – Exemplo: grande passe de Romero para a finalização de Éber na área. Thiago impediu o gol cruzeirense no primeiro ataque da segunda metade, jogada que sugeriu um posicionamento mais avançado do time dirigido por Mano Menezes.

10 – Mas a jogada pelo lado voltou a dar frutos ao Flamengo. Acionado por Guerrero, Rodinei encontrou Everton na segunda trave. O cabeceio raspou no poste e entrou, colocando o Flamengo em vantagem e inaugurando um novo jogo no Mineirão.

11 – O placar durou seis minutos. Outro bom passe, de Diogo Barbosa, criou o empate para Sassá, que tinha acabado de substituir Élber. Com dois lances de infiltração pelo centro da defesa para o passe profundo, o Cruzeiro conseguiu produzir dois gols. Thiago evitou o primeiro.

12 – A chance da virada se materializou no contragolpe em que Sassá ignorou Sóbis, livre, e chutou muito mal. Foi a única oportunidade dessa natureza no trecho final, pois o Cruzeiro se manteve adiantado para tentar ganhar o jogo contra a defesa posicionada.

13 – Empate frustrante para ambos, porém coerente com o que o jogo mostrou. O Cruzeiro soube jogar de duas formas diferentes e ser competitivo com ambas. O Flamengo novamente alternou boas e más versões de seu plano, o que acionará as críticas a Zé Ricardo por parte de quem – às vezes, com claro preconceito por se tratar de um profissional iniciante – acha que a qualidade do elenco exige um técnico “de nome”. Bobagem.



  • Renato Rasiko

    Não se trata de treinador de “nome”, mas com capacidade. E isso o Zé Ricardo claramente não tem. Assistir aos jogos do Flamengo se tornou um martírio pro torcedor. O tédio é absoluto. Não se vê variação de jogadas e os ataques se limitam aos insuportáveis chuveirinhos que, 99% das vezes, resultam em nada – ou nas mãos do goleiro ou na cabeça dos zagueiros adversários. Defender esse técnico medíocre, medroso e nada criativo e ousado, depõe contra vc.

    • André Kfouri

      E fazer “diagnósticos” à distância, com absoluta carência de informação, depõe contra você.

      • Giovane Rodes

        E você faz as suas com base em que? Sou flamenguista e não suporto mais esse chuveirinho na área sem criatividade nenhuma. O Flamengo não é treinado e ponto. é o que se vê nos jogos, e é o que interessa.

        • André Kfouri

          Sua pergunta me faz rir. O restante do seu comentário é constrangedor.

  • Julia Posey

    Vejo com o trabalho do Zé Ricardo o mesmo preconceito e má vontade que existe com o trabalho do Carille no Corinthians. No entanto são os únicos times com reais chances de vencer o brasileiro. Do Flamengo se diz que o time não evoluiu taticamente – o que é um absurdo, só um cego ou mal intencionado não nota o qto o time está jogando bem melhor do que no ano passado, por ex – e que tende a evoluir ainda mais, conforme o time for se entrosando. Do Corinthians, que é time retranqueiro, sem criatividade e que depende de um ou dois jogadores, e que os frutos do trabalho decorrem de sorte e não de trabalho e competência. É por pensamentos pequenos como esses que o nosso futebol não evolui taticamente e tecnicamente. E ainda há quem pense que somos o país do futebol.

  • Mario S Nusbaum

    “– O Flamengo é o único time brasileiro que tem a intenção – e a capacidade – de controlar todas as partidas negando a bola ao adversário.”
    Único? Ah, então é por isso que é líder disparado! Entendi.

    • André Kfouri

      Não. Você não entendeu nada.

  • Daniel Lopes

    Então, o item 06 é um elogio ou uma crítica? Ou uma constatação compreensível? A sensação que eu tenho assistindo os jogos do Flamengo (vejo todos) é a de que o time não sabe (ou não quer) promover as famosas transições com velocidade.

    Não é raro, o Flamengo recuperar a bola, o time se dirigir ao ataque com as linhas do time adversário desmontadas, e, por algum motivo, o time cadenciar o jogo, permitindo que o adversário volte a se posicionar com os jogadores atrás da linha da bola.

    É uma pena não ter o recurso do vídeo aqui, mas só do jogo de ontem lembro de inúmeras situações que aconteceu isso, ainda que o Cruzeiro tenha escolhido jogar atrás, no segundo tempo, em especial, o Flamengo tomou algumas bolas que poderiam ter gerado ataques mais contundentes, no entanto, o time escolhe travar a bola, e começar tudo de novo.

  • Kleber Marcos Mendes

    Legal sua analise Andre, e a respeito porém descordo. Uma coisa esta muito clara eu acho. Os times que vão jogar contra o Flamengo, fecham os espaços do Diego e do Everton Ribeiro, jogares que podem desmontar a marcação com dribles e passe rapido, sempre tem marcação dobrada, pois o volante que esta saindo mais para ajudar na criação, não tem a minima capacidade de fazer isso. O guerreiro sempre marcado pela dupla de zaga o que dificulta e muito as jogadas, pq ele fica na maioria das vezes sozinho na area. O Flamengo hoje é um time previsivel, assim como a maioria dos times brasileiros, mas pro Flamengo é pior, justamente por ter a capacidade ou quase obrigação de propor o jogo. E é ai que entra o trabalho do tecnico. Não que o Flamengo seja o Barcelona, mas no territorio nacional tem o eleco mais estrelado, e o tecnico tem que fazer esse time dominar o adversario e não ter a ilusao da posse de bola.
    Os argumentos são sempre em cima da mesma tecla, que não cabe mais. o investimento é muito maior do que vem sendo apresentado, não pelos resultados mas sim pelas atuações.

    • André Kfouri

      Qual é a base para afirmar que “o argumento não cabe mais”?

      • Kleber Marcos Mendes

        A base é que o treinador esta a mais de um ano no cargo e deveria entregar mais com o que tem na mão, mas ele se mostra sempre satisfeito com o que acontece em campo. Independente do resultado do futebol apresentado, e que é pequeno diante do elenco que ele tem nas mãos, ele sempre acha que o time foi bem e que enfrentou um grande adversário. Eu penso que o time tem que apresentar evolução e surpreender os adversários. Mas isso é apenas minha opinião. O flamengo ao meu ver regrediu se comparado ao ano passado, os resultados na maioria das vezes vem com sorte ou na individualidade do jogador. Teve jogos bons sim, mas a maioria foi fraco, (pelo elenco que o flamengo tem).

        • André Kfouri

          Além da sua opinião, você tem alguma informação sobre montagem de equipes, métodos de treinamento, a dificuldade para alcançar os sincronismos necessários para que comportamentos coletivos sejam levados para o campo? Você tem algo – fora sua opinião – para basear a noção de que o time “deveria entregar mais”?

          • Kleber Marcos Mendes

            Fora minha opinião…não. E você ou alguém tem essa informação? Para justificar que o time esta entregando o que pode, e que as escolhas de algumas peças que sempre erram são justas?Apenas acompanho todos os jogos do Flamengo, como disse no inicio do meu comentário, eu achei legal sua analise, mas discordo, pq eu não estou analisando o resultado e sim a apresentação de um excelente time na mão de um treinador a mais de um ano no cargo, sendo assim não é imediatista, pois desde quando o Zé Ricardo assumiu essa é a proposta de jogo do Flamengo, e ja foi apresentada de forma mais organizada. Se você acha que a analise é imediatista e em cima de resultado, você descorda da maioria de seu companheiros da ESPN, inclusive, segunda o Mauro fez um comentário em cima do item 4 de seu texto. O Flamengo rompe fácil a primeira linha pq a bola esta com MA, que apos avançar não sabe o que fazer com ela.

            • André Kfouri

              Sim, eu tenho as informações, pois esse é meu trabalho. Eu falo com técnicos, auxiliares, jogadores, analistas, dirigentes… todos os dias, várias vezes por dia. Porque não posso apenas escrever ou dizer o que eu “acho”. E, sim, obviamente eu discordo da sua opinião e de outras semelhantes. Não acredito em análises que levem em conta apenas a observação à distância.

              • Kleber Marcos Mendes

                Ótimo André, você é um excelente profissional e por isso te respeito. Eu posso estar errado em não ter as informações, mas não de achar que o Flamengo vai mal. E você, ja que tem , deveria então expor as informações que justifique as atuações abaixo do nível do elenco do Flamengo, para nós que não acompanhamos de perto o dia a dia, que não conversamos com os auxiliares, com os técnicos e os dirigentes, possamos entender o que se passa com o time do Flamengo. Inclusive compartilhe com seus companheiros do mesa redonda e bate bola, assim eles podem parar de criticar as atuações ruins, e dizer que o Flamengo não esta entregando aquilo que deveria. E se você puder falar a respeito no Sportscenter, ficarei feliz em ouvir seu argumento. Parabéns pelo ótimo trabalho.

                • André Kfouri

                  Obrigado. Refiro-me a informação para embasamento de opinião. É o que tenho feito ao escrever colunas e tecer comentários sobre os assuntos que escolho.

                  • Kleber Marcos Mendes

                    Tá certo André, você está correto e eu entendi o que escreveu. Como jornalista está fazendo o correto

  • André Kfouri

    O Corinthians joga com posse em seu estádio, por motivos óbvios, e tem evoluído nessa ideia.

  • Paulo Pinheiro

    De onde a gente enxerga o Flamengo é excelente pra chegar na frente da área. Dali em diante parece depender do improviso.
    Sim, o Flamengo contratou craques pra decidirem com genialidade, mas depender só dos lampejos deles acho que é muito pouco.
    Parece que aos poucos o Geuvânio está ajudando a resolver esse problema. Espero que não demore muito.
    Vejo outros times definirem triangulações próximas da área com tanta facilidade e pra mim – pode ser só visão de torcedor – o Flamengo parece não ter treinado uma jogada sequer pra tentar furar esse bloqueio. Ou tenta girar de um lado pra outro ou tenta chuveirar.
    Lembro de um comentário do André sobre o Flamengo há alguns anos: “o Flamengo empata demais”. E este ano voltou a ser verdade.
    Eu concordo que a postura de manter posse de bola é ousada e merece aplausos. Mas falta definição. E sem ela o resultado não vem.

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