Perfumaria



A rodada treze do Campeonato Brasileiro foi o número da sorte para os times visitantes, que venceram oito dos dez jogos. O recorde anterior era de 2014 (trigésima-quinta rodada), com seis vitórias conquistadas fora de casa. O sucesso dos forasteiros em determinada amostra de partidas obviamente se deve a uma coincidência que não precisa ser explicada, mas o fato de todas essas oito equipes terem vencido com menor percentual de posse de bola despertou a velha – e entediante, pois se trata de um debate que não existe – conversa sobre qual estilo de jogo é “melhor”?

Não há como responder essa questão de maneira direta ou geral, embora existam trabalhos de análise capazes de mostrar ao menos um caminho. Michael Cox, autor e editor do site zonalmarking.net, compilou os números da temporada 2016/17 em sete ligas (Inglaterra, Alemanha, Espanha, França, Itália, Holanda e Portugal) europeias e encontrou uma correlação inegável entre posse de bola e saldo de gols. O gráfico é praticamente uma seta em diagonal, da esquerda para a direita, apontando para cima. O que não significa que a posse seja uma garantia de vitórias, uma fantasia tão maluca quanto afirmar que ter a bola não quer dizer nada.

De qualquer forma, índices registrados nos campeonatos europeus não podem ser transferidos para a realidade brasileira, em que o futebol reativo prevalece disfarçado como preferência, quando, de fato, é uma contingência. Times que se dispõem a controlar jogos por intermédio da posse demoram mais a se sentir confortáveis e se impor coletivamente, estágio que só se alcança com a manutenção de pessoas, métodos e ideias. Mas a curva de sobrevivência de trabalhos no futebol brasileiro é tão curta que esse nível de sofisticação é arriscado demais. Que o diga Zé Ricardo, técnico do Flamengo.

O risco cresce devido à incompreensão do processo de montagem de equipes, que leva entendidos a determinar um prazo para que certo time “jogue bem”, o que, nesse nível de sabedoria, não passa de um eufemismo para “vencer”. Tais conclusões são alcançadas sem que se troque uma palavra com o técnico/jogadores em questão ou se assista a um treino para conhecer o sistema de trabalho. São fruto de observação muitas vezes contaminada pelo que se gostaria que fosse verdade, uma idealização distante do que se passa no mundo real. O futebol é um bem comum, mas o “fazer futebol” é um mistério para a enorme maioria.

A dificuldade para entender o líder do Campeonato Brasileiro comprova o dilema. Há quem consiga ver o Corinthians como um time que espera e especula, um intérprete do pacote “defesa + sofrimento + bola parada” que se praticava no Brasil dez anos atrás. Confusão que ignora a primeira linha de marcação que acompanha a bola, ou os movimentos coordenados da última linha, de forma a restringir as possibilidades do adversário. E quem não é capaz de notar padrões tão claros, evidentemente não identifica os conceitos ofensivos do sistema com dois meias que alternam posições com os laterais para articular, os triângulos pelos lados ou o trabalho dos atacantes fora da área.

Miopias à parte, a questão do estilo é perfumaria em um ambiente no qual técnicos estão a duas derrotas seguidas do “tem a nossa confiança”, três da “obrigação de vitória” e quatro da “a diretoria entendeu que precisava tomar uma providência”. O futebol elaborado só florescerá no Brasil quando clubes decidirem trabalhar para tê-lo como identidade, e os responsáveis pela tomada de decisão se comprometerem com essa visão, sem desvios de rota por aspectos políticos, vaidade ou pressão externa.

APENAS NÚMEROS

A média de pontos do campeão brasileiro desde 2006, no formato com vinte clubes, é 75,6. Ajustando para 76 como meta, faltariam ao Corinthians 41 pontos para o título. Com 75 ainda em disputa, um aproveitamento de 54,6% a partir de agora seria suficiente. É a campanha do Sport até o momento. 



  • Julia Posey

    Análise perfeita e suscinta: alarmante é observar que a miopia a que se refere atinge dirigentes e profissionais técnicos que vivem o esporte diariamente e grande parte dos ‘analistas do futebol’, gente formadora de opinião, mas que estão mais para ‘lançadores de sensos comuns’. Com relação ao Corinthians, a má vontade é tamanha e tão sem precedentes, que, ainda que o time ganhe o brasileiro de forma antecipada, vão continuar com a miopia e incapacidade para enxergar o trabalho sério que a comissão técnica do time faz no dia a dia. E a síntese do seu texto pode ser perfeitamente ilustrada com o comportamento de técnicos razoáveis como Renato Gaúcho – que há 5 rodadas só fala de Corinthians de maneira obssessiva, que o time vai cair e descer ladeira abaixo, que não vai ganhar, não vai manter a vantagem, etc, passando a sensação de inveja e despeito(mas, na vdd, de desrespeito) pelo trabalho do seu colega de profissão, ao invés de tentar corrigir os problemas do time que dirige. É uma mentalidade mesquinha e tacanha a de boa parte das pessoas que trabalha com futebol no Brasil. Uma tristeza!

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