Assim foi



Há um aspecto interessante na demissão de Eduardo Baptista, dispensado do Atlético Paranaense após dirigir o time por apenas treze jogos: o presidente do conselho deliberativo do clube, Mário Celso Petraglia, afirmou que os resultados (46% de aproveitamento nessa mínima amostra) não foram o motivo da decisão. De acordo com Petraglia, o Atlético pediu divórcio de Baptista por um caso de incompatibilidade de ideias e práticas, o que não é comum e, claro, gera um questionamento óbvio: como o clube mais organizado do Brasil cometeu esse equívoco?

A resposta é um surreal emaranhado de eventos. Paulo Autuori corria risco de demissão em maio, quando a classificação na fase de grupos da Copa Libertadores estava por um fio. A corajosa virada sobre a Universidad Católica em Santiago, com o gol da vitória aos 37 minutos do segundo tempo, levou o time às oitavas de final e a um pedido de Autuori para mudar de cargo. Uma semana depois, Eduardo Baptista estava contratado de forma apressada, fruto da disponibilidade do ex-técnico do Palmeiras e da ansiedade de Petraglia para solucionar o problema.

Autuori tinha consciência de que havia sido salvo pela classificação inesperada, mas, seríssimo que é, foi a Campinas e conversou com Eduardo para acertar os parâmetros da contratação. Apesar de não concordar com a celeridade do processo, assumiu na coletiva de apresentação de Baptista, já como diretor de futebol, a posição de deixar o Atlético caso o trabalho do novo técnico fosse interrompido. As vitórias iniciais sugeriram uma transição suave, mas internamente o cenário não era tão simples.

As diferenças entre a maneira como Baptista conduzia o dia a dia e o sistema de trabalho multidisciplinar implantado no Atlético logo ficaram claras, e os resultados ruins – especialmente no jogo de ida da Libertadores, derrota para o Santos na Vila Capanema – fizeram com que Petraglia acionasse novamente o botão em que está escrito “trocar técnico”. O dirigente sabia que a substituição de Baptista (Fabiano Soares foi apresentado ontem) resultaria na saída do diretor, como se deu na tarde de segunda-feira.

A correção do erro no processo de escolha por Baptista cobrou seu preço com a perda de Autuori, algo que o clube tenta reverter com manifestações de funcionários. Ele também coordenava a formação de jogadores no Atlético e não pretende trabalhar novamente como técnico no Brasil. Paulo Autuori contempla seu futuro considerando diversas opções.



  • Samuel Lima

    André, mas o clube esclareceu o que seria essa “incompatibilidade de ideias”? Usado assim, sem maiores explicações, me parece uma bengala para preservar a imagem de clube que não queima treinador… Abraço, sempre um prazer ler suas colunas.

    • André Kfouri

      O Atlético, de fato, tem trabalhado para estabelecer um sistema multidisciplinar no time de futebol. É um processo para criar e sustentar um modo de jogar próprio, em que o técnico não toma todas as decisões. Um abraço.

  • Edouard

    Acho que temos uma pergunta nova a ser respondida aqui. No país do troca-troca de técnicos, a possibilidade de que um profissional tenha sido demitido porque não vê o futebol do mesmo modo que o seu empregador espera, conferindo ares institucionais ao modelo de jogo, parece ser uma novidade.
    Não tem muito tempo você comentou sobre as escolhas feitas pelo Corinthians para assumir a DT, e o tempo mostrou que opções incompatíveis com a visão de jogo com a qual o Clube tem funcionado desde 2008 resultaram em fracassos. Talvez o mesmo acontecesse com o CAP. Não sei.
    Mas se de um lado a percepção geral sugere que o melhor momento para a troca de treinadores é aquele que permita iniciar um projeto do zero (então, em dezembro), de outro lado como reagir quando se percebe que a escolha foi errada, não porque os resultados não vêm, mas porque a filosofia não casa direito?
    Tenho essa dúvida deixando de lado as implicações éticas envolvidas em mandar embora um profissional após apenas 13 jogos no comando.
    Um abraço.

    • André Kfouri

      Sim, sem dúvida. Petraglia montou o que talvez seja a estrutura de trabalho mais inteligente do futebol brasileiro em um clube que tem pouca pressão externa. Mas, algo contraditório, ele próprio é a influência impaciente. Tem a visão, mas não o temperamento. Um abraço.

  • Julia Posey

    Trapalhadas e precipitações à parte do Atletico Paranaense e de Paulo Autuori, acho que ele poderia ser gerente de futebol do Fogão. É identificado com o clube e trabalharia com o Jair Ventura que é, para mim, a maior revelação entre os técnicos brasileiros junto com o Carille!!

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