Imposição



No intervalo do espetacular 3 x 3 da última quarta-feira, o vestiário do Palmeiras não podia fugir de uma verdade desconfortável: se quisesse prosseguir na chave da Copa do Brasil, o time estava obrigado a marcar ao menos quatro gols, sem sofrer mais nenhum, em cento e trinta e cinco minutos de futebol. Os primeiros quarenta e cinco desses minutos traziam o bônus de transcorrer nas condições mais favoráveis, com o Allianz Parque lotado e – como tem sido notável – disposto a apenas ajudar.

Neste cenário, as providências que se impõem a um time que pretende continuar competindo passam longe de conjecturas posteriores como “fizemos um segundo tempo digno” ou “suavizamos o vexame”, pois imagem tem pouco valor na autópsia de uma campanha. O sistema de dupla eliminatória considera o frio cálculo de gols marcados e sofridos (no caso da Copa do Brasil, onde esses gols aconteceram também importa) para determinar quem permanece em pé, de modo que essa matemática é o único aspecto do confronto que pode ser controlado. O Palmeiras tinha de fazer gols, e tinha de começar logo.

A vantagem parcial também significava uma tarefa para os jogadores dentro do outro vestiário do estádio. Defender-se por três quartos de hora é uma proposta pouco inteligente até para times que se especializam em fingir que o campo de ataque não existe. A manutenção de um 3 x 0 construído pela ótima interpretação do futebol reativo dependia de seguir jogando, ameaçando, valorizando o percentual da bola que fosse possível extrair da inevitável pressão do Palmeiras. Porque até alguém que estivesse assistindo ao primeiro jogo de futebol de sua vida sabia que o Cruzeiro seria acossado por algo como vinte minutos de terror.

Apontar as falhas defensivas do time mineiro nos três gols sofridos é um exercício de obviedade que gera a mais equivocada das conclusões sobre o jogo: a de que, para o Cruzeiro, o resultado dependia da própria capacidade de se defender. Como se fosse possível imaginar que Mano Menezes ordenou um recuo profundo a partir do primeiro minuto do segundo tempo, com o propósito de fazer o tempo passar aguentando a tempestade. Ou que, como zumbis caminhando em fila para o abismo, os jogadores tomaram essa decisão por vontade própria. O Cruzeiro simplesmente não encontrou as saídas que utilizou no primeiro tempo, porque o Palmeiras não permitiu.

O futebol é um jogo de imposição de uma equipe sobre outra. Por intervalos de tempo variáveis, é perfeitamente razoável que um time exerça absoluto controle sobre o oponente, de forma a fazer parecer que se trata de um encontro entre categorias desiguais. Foi o que se deu durante dezenove minutos, em um vendaval físico-técnico-mental que produziu o empate. “Recuar” e “não conseguir sair” são duas coisas distintas. A primeira, um equívoco; a segunda, um problema. O grande drama do Cruzeiro no segundo tempo foi não ser capaz de retirar a bola de seu campo e mantê-la distante, o que, evidentemente, não constitui uma falha defensiva e não é uma questão de escolha.

Ademais, se fosse simples ir ao estádio de um dos melhores times brasileiros, estabelecer um placar de 3 x 0 e sustentá-lo até o final, episódios semelhantes aconteceriam com frequência. Especialmente em torneios como a Copa do Brasil, em que a diferença de gols orienta comportamentos, cada jogo pode ser vários em um. Falta um gol para a conta do Palmeiras fechar, desde que não sofra nenhum no Mineirão, onde o Cruzeiro terá apoio popular e todos os motivos do mundo para alcançar uma classificação que continua mais próxima dele, apenas não tão próxima quanto no intervalo da partida de ida.

COMOVENTE

Um aplauso ao caráter de Walter Montillo, que se recusou a roubar o futebol. E uma lágrima por sua tristeza, que demonstrou tanto amor pelo jogo.



  • Klaus P.

    Definitivamente, Palmeiras vs Cruzeiro foi um jogaço!

    Quando Willian empatou a partida, vibrei surpreso e satisfeito. Ouvi a voz da minha esposa: “Gol de quem?”. Quando repondo “Palmeiras”, ela fez questão de aparecer para me mostrar a fisionomia de “como assim?!”.

    Como bom são-paulino, tratei de esclarecer: “Estava 3:0 pro Cruzeiro e o Palmeiras empatou em 20 minutos”. Como o semblante não mudou, acrescentei: “Teria vibrado da mesma forma se fosse o contrário”.

    Ela pareceu mais satisfeita quando se virou e retornou às suas distrações.

    Jogaço do qual todos saíram vencedores! Que a volta seja igualmente emocionante!

    Um abraço!
    Klaus

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