Quatro ações



Uma das célebres frases de Johan Cruyff diz que “jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é a coisa mais complicada que existe”. Zidane aplicava essa teoria ao jogo com as decisões mais óbvias possíveis a cada vez que tocava na bola, ensinando que a genialidade está na simplicidade que só os escolhidos podem alcançar. Menotti explica o jogo com a lógica que deveria ser evidente a todos, mas ocorre apenas a quem consegue enxergar.

“O futebol tem quatro ações: defender, recuperar a bola, gerar jogo e definir. Não há mais do que isso. Cada treinador tem uma ideia de como utilizar essas quatro ações e como coordená-las entre si”, escreveu o pensador argentino, em um artigo recente publicado no diário espanhol Sport. É exatamente essa coordenação, dependendo da ênfase em cada ação, que determina a personalidade de uma equipe e a forma como pretende superar as outras.

A cronologia mencionada por Menotti não é um acaso. Até as equipes com intenções mais ofensivas planificam suas atuações escolhendo como se defenderão diante de um adversário. Pode-se dar alguns passos à frente para impedi-lo de jogar em seu campo e tomar a bola perto do gol. Pode-se recuar alguns metros e alternar a maneira de pressionar. Pode-se sentar sobre a linha da própria área para atrair o oponente e explorar a extensão do gramado que ele terá de defender. A maneira como um time se protege indica como procederá quando tiver a bola.

Todas as etapas do processo são complexas e dependentes de treinamento. Mas os modelos em que se utiliza marcação adiantada, recuperação rápida e elaboração são os que exigem mais trabalho, mais sincronia e, claro, mais tempo. O que expõe os treinadores que escolhem atuar com alguma combinação dessas ideias ao constante embate com o imediatismo, quase sempre alimentado por críticas desprovidas de conhecimento. Observação rasa à distância convertida em tese.

Respeitadas as diferenças entre cada caso, Rogério Ceni, Roger e Zé Ricardo têm sofrido as consequências por acreditarem na evolução quase artesanal de suas equipes, enquanto a validação dos resultados – para muitos, o único critério que importa – insiste em uma agenda própria. Quando times custam a atuar em bom nível da forma a que se propõem, a impaciência prevalente questiona convicções e sugere caminhos traiçoeiros.

Voltando a Menotti, o time que melhor coordena as quatro ações do futebol, neste momento, é o Corinthians. A era “Adenor Carille de Menezes” criou um padrão de comportamento defensivo coletivo que confere identidade e confiança. Só parece simples.



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