Equação



A negociação de Maicon com o futebol turco impulsionará o São Paulo para além do patamar de quinhentos milhões de reais em vendas de jogadores nesta década. O levantamento foi feito por Diego Garcia, repórter do espn.com.br, de acordo com o estudo econômico-financeiro realizado pelo banco Itaú BBA. A cifra não traduz o total do montante gerado pelas transações, mas o que o clube embolsou, descontadas as comissões de agentes e demais envolvidos nas operações. No período em questão, a partir de janeiro de 2010, o São Paulo conquistou apenas um título: a Copa Sul-Americana de 2012.

O zagueiro que está a caminho do Galatasaray é mais um a acionar a porta giratória pela qual entrou há apenas um ano (esteve emprestado entre fevereiro e junho de 2016), quando o clube adquiriu seus direitos econômicos do Porto, por vinte e dois milhões de reais. A saída de Maicon gerará um lucro de quatro milhões, em um caso que resume os problemas de uma política de negociação de jogadores que não é exclusiva do São Paulo no Brasil, mas colabora para a compreensão do estado disfuncional em que o departamento de futebol do clube se encontra.

O empréstimo de Maicon terminaria às vésperas das semifinais da Copa Libertadores de 2016. O compromisso obedecia a um contrato em que não havia garantia da permanência do zagueiro caso o São Paulo estivesse disputando o torneio. O acordo com o Porto foi fechado dias antes do jogo de ida contra o Atlético Nacional, sob tremenda pressão externa por causa da expectativa da torcida. Como o pior negócio é aquele que você não pode deixar de fazer, o Porto se viu em uma posição extremamente favorável para apertar a corda e só levantar da cadeira quando estivesse satisfeito. O clube português recusou novo empréstimo e várias ofertas de compra antes do aperto de mãos.

No livro “El Método Monchi”, o ex-goleiro que se converteu em uma espécie de Rei Midas do comércio internacional de jogadores explica que as vontades do torcedor não podem exercer tamanha influência. Em dezesseis anos como diretor esportivo do Sevilla, Monchi desenvolveu uma conduta de trabalho que levou o clube espanhol a resultados de campo inéditos por intermédio do refinamento de um perfil vendedor, o que só é possível quando se está disposto a tomar decisões impopulares sobre quais jogadores serão negociados ou adquiridos. Uma de suas premissas é a de que o êxito coletivo faz com que a nostalgia da arquibancada se evapore.

Um trecho do livro: “As vendas são parte do jogo do mercado de jogadores e é preciso saber interpretá-las como uma ferramenta chave para crescer. Saber vender é um sintoma de habilidade, de clube com dimensão ampla. (…) Vender serve para manter um nível superior às suas possibilidades. Sim, somos um clube vendedor porque, com nossas receitas habituais, não poderíamos chegar até onde chegamos”. O lucro nas operações é utilizado para formar equipes mais fortes do que o orçamento do clube permite, um conceito que poderia ser aplicado no futebol brasileiro, em que a norma é vender jogadores para pagar salários.

Embora os clubes brasileiros operem em um ambiente muito diferente em relação ao Sevilla, há aspectos de capacidade de competição que os aproximam. O Sevilla não pode medir forças econômicas com Barcelona, Real Madrid e demais gigantes de seu continente, enquanto entidades como o São Paulo sofrem de inferioridade semelhante diante de praticamente qualquer clube europeu. No Brasil, todos são vendedores e, em tese, poderiam se valer dessa posição não para sobreviver, mas para se manter continuamente acima de suas possibilidades orçamentárias. Claro, não é uma visão possível sem planejamento competente de longo prazo e uma “linha de produção” com substitutos avaliados e escolhidos com muita antecedência.

Quinhentos milhões de reais por um título é uma equação indefensável.



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