A opção pelo erro 



É provável que o exemplo mais significativo da utilização do árbitro de vídeo no futebol tenha sido o encontro entre França e Espanha, em março, em Paris. Na ocasião, o recurso resgatou o trio de arbitragem em duas situações cruciais: a validação de um gol irregular de Griezmann e a anulação de um gol legítimo de Deulofeu. Um jogo que, sem o auxílio eletrônico, terminaria em 1 x 1, teve o placar corrigido para 2 x 0 a favor dos espanhóis. Cada intervenção levou menos do que um minuto.

Foi apenas um amistoso, mas a simples transferência desse cenário para, por exemplo, uma partida de eliminatórias para a Copa do Mundo deveria ser suficiente para constranger os enamorados pelo “charme da falha humana como fator tradicional do futebol”. Preferir o erro ao acerto por intransigência quanto aos ajustes necessários para acomodá-lo é uma postura retrógrada, hipócrita, danosa ao jogo como o conhecemos há muito tempo, pois a arbitragem é o único pilar desse esporte que não avançou.

O árbitro assistente de vídeo está em testes na Copa das Confederações, como estava na última edição do Mundial de Clubes e no mencionado amistoso no Stade de France. Há quem prefira apontar o dedo para atrasos nas tomadas de decisão, como se os mandamentos sagrados do futebol estivessem sendo profanados por infiéis, um comportamento que se aproxima do tipo mais ignorante de fundamentalismo. Os exercícios em andamento servem para refinar um sistema que precisa ser objetivo e provocar o menor impacto possível no fluxo do jogo, mas é evidente que haverá mudanças.

O futebol nunca pôde ser devidamente mediado, no aspecto da confiabilidade das decisões, por um árbitro e seus assistentes. Nunca. Sempre foi um jogo muito mais dinâmico do que três pares de olhos – ou mais, de acordo com os adicionais posicionados ao lado dos gols em determinadas competições – são capazes de acompanhar. Ocorre que a evolução das transmissões de televisão revelou o tamanho da distância entre o que a arbitragem aponta e o que realmente acontece, e o jogo é importante demais para que esse defeito tão determinante não seja corrigido.

O apelo ao tradicionalismo é perigoso até mesmo quando as coisas vão bem. Quando não vão, como é escandalosamente óbvio no caso da arbitragem de futebol, é ainda mais grave, por falso. A credibilidade que o esporte pode alcançar com a implantação do apito eletrônico foi comprovada no amistoso entre França e Espanha, um modelo que deve nortear o período de experimentações até a Copa do Mundo do ano que vem, na Rússia.



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