Indesejado



1 – Como se não bastasse, o clássico mais famoso do futebol brasileiro se distingue por reunir duas torcidas numa época em que preferimos – como sociedade – fingir que a violência não existe, enquanto os violentos ficam livres para agir como sempre agiram.

2 – Primeiro Fla-Flu “adulto” de Vinicius Junior, dezesseis anos, a cada jogo mais confiante, mais solto, mais distinto. Sua situação significa também que cada jogo a mais é um jogo a menos, de modo que aproveitar é preciso.

3 – Fluminense e Flamengo se encontram em posições bem diferentes das que ocupavam durante o campeonato estadual. O time de Zé Ricardo dividia energias com a Copa Libertadores e tentava manter todas as opções à mão. O de Abel investia em um início de temporada estimulante. Alguns meses depois, por razões diversas, a confiança de ambos diminuiu.

4 – E o momento se reflete em campo, com os dois times compartilhando o mesmo defeito: o erro de passe. É o sinal mais claro de mau jogo que pode haver. O passe é o equivalente à palavra no futebol. Não saber usar, seja qual for o discurso escolhido, revela um problema básico.

5 – O Fluminense se adianta em uma jogada que começa com Richarlison, na esquerda do ataque. Ele perde ímpeto ao cortar para o meio, o que faz a bola chegar a Scarpa, no lado oposto. Wendel ergue o braço para pedir o passe, enquanto se infiltra, habilitado, pelo meio da defesa, e aproveita o rebote do próprio chute.

6 – Detalhe: com o luxo do tempo para analisar o lance e escolher a melhor ideia, um jogador como Scarpa raramente tomará uma decisão errada.

7 – Outro: Wendel, volante, acionou Richarlison na origem da jogada, recebeu de volta, abriu para Scarpa e finalizou duas vezes.

8 – No intervalo, a diferença no clássico é um contra-ataque bem sucedido, em que a defesa do Flamengo se limitou a observar. Dois times incapazes de mostrar o que pretendiam converteram o primeiro tempo em mais erro do que tentativa.

9 – Na ótica do resultado como a única coisa que importa ao final do dia, a segunda parte do encontro era previsível: o Flamengo – com Berrío no lugar de Vinicius Junior – empurraria o Fluminense em seu próprio campo; o Fluminense aceitaria o risco em troca da possibilidade de um segundo gol no contragolpe.

10 – A pressão surte efeito rápido, com o gol de Diego antes dos dez minutos (a imagem mostra Everton em posição irregular no instante do passe de Willian Arão), na terceira finalização dentro da área. Rara ocasião de jogada bem construída pelo Flamengo.

11 – Iniciativa sem articulação versus espera sem ameaça. Em um jogo tecnicamente pobre, Flamengo e Fluminense caminharam para os minutos finais dependentes de um lance fortuito que pudesse determinar um vencedor.

12 – O passe de Scarpa, com desvio, serviu Richarlison em condição de marcar. Pênalti de Juan, que Henrique Dourado – um Evair canhoto na hora desse tipo de cobrança – transformou em 2 x 1.

13 – Trauco resgatou o Flamengo nos acréscimos, em um chute de fora da área que quicou de um jeito estranho e entrou no canto esquerdo. O empate, indesejado por dois rivais em dívida com o que podem produzir, traduziu com justiça o que o Maracanã viu em mais um Fla-Flu.

VIOLÊNCIA

O “torcedor” que foi dado como morto durante o primeiro tempo de Coritiba x Corinthians surgiu sorridente em fotos após o jogo, horas depois de ser massacrado por “inimigos” em cenas horripilantes disponíveis em vídeo. O fato dele estar vivo e sorrindo não diminui a importância da identificação dos agressores e de sua devida punição, o que está acima de qualquer debate sobre violência relacionada ao futebol. Quem vai a estádios para brigar, assumindo a possibilidade de matar ou morrer, não pode contar com a impunidade. Acompanhemos o que acontecerá com os envolvidos.



  • Paulo Pinheiro

    AK,
    São três lances – no mínimo polêmicos – de pênalti não marcados para o Flamengo. O Fla já passou um campeonato inteiro sem um pênalti a seu favor. O primeiro lance do Rodinei lembra aquele pênalti “desmarcado” para o Avaí da rodada anterior, em que o atacante “prefere cair” ao sentir o toque do adversário, mas pra mim o lance em que o Henrique agarra o Guerrero pelo pescoço é claro demais pra não ter sido marcado. Não cabe a desculpa que sempre dão de “bola alçada na área é assim mesmo” porque àquela altura a bola já havia até sido interceptada em primeiro toque. No segundo tempo achei pênalti também quando o zagueiro abandona a disputa pela bola pra ir só no corpo do Rodinei. Enfim, vale o registro porque só falam do lance de impedimento (o corte do zagueiro do Flu deve ter confundido o bandeira que imaginou toque do Diego – que tiraria o impedimento do Éverton). É bom pra conter as famosas “teorias da conspiração” pelo Flamengo. A vida é dura lá na Gávea também, meu irmão. A arbitragem é que é ruim mesmo.

    • André Kfouri

      Não me ocupo com teorias de conspiração. Entendo que quando um gol irregular, por qualquer motivo, é validado, é obrigatório mencionar. Um abraço.

      • Paulo Pinheiro

        Sim. Que fique claro que não me refiro a você quando falo em teorias de conspiração. Só julguei importante citar que as arbitragens estão ruins pra todos os lados pra que cada comentário de profissionais influentes como você não vire mais munição pra essas pessoas. Abraço.

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