Incultura



Galeão, manhã de quinta-feira. À porta do ônibus que os esperava, jogadores do Flamengo são alvejados por trogloditas em pregação motivacional: “vocês merecem tapa na cara, cambada de filha da puta (sic), todo mundo subindo com cara de cu…”, bradam. No instante da sensível descrição das expressões faciais, é o menino de 164 milhões de reais quem olha para os ocupados analistas de desempenho do rubro-negro. No futuro próximo, do outro lado do oceano, Vinícius Junior certamente lembrará com nostalgia dessa interação com o “aqui é Flamengo, caralho!”.

Segure seu julgamento, pois também houve conteúdo no protesto de torcedores zelosos após a derrota para o Sport. Em contato com os meios de comunicação interessados em saber de suas demandas, eles exibiram conhecimento próprio de portadores da licença Pro da Uefa: “muito time para pouco técnico”, declarou um dos mais sóbrios, com invejável poder de síntese. Nada como uma bronca conceitual para reativar o melhor futebol de uma equipe em declínio, a dose certa de pressão e aconselhamento que time nenhum pode ignorar.

O equívoco de transformar situações transitórias em conclusões definitivas – produto de absoluta ignorância – leva a situações como essa, ou, como se sabe, a exemplos ainda mais extremos em que violência física é usada contra futebolistas que cometem o crime de não vencer jogos. Algo que se tolera em nome da “paixão do torcedor”, entre outras razões, porque nos clubes e na chamada “mídia especializada” há quem entenda que esse tipo de encontro é necessário para manter os jovens milionários na linha.

Uma das explicações é a tendência a imaginar times de futebol como estruturas mecanizadas e jogadores como meras peças, esquecendo que são organismos formados por pessoas, cuja dinâmica está muito distante de unidades militarizadas em que basta cumprir as ordens de quem tem a autoridade. O jogo seria incrivelmente simples se fosse assim. Como não se pretende conhecer o funcionamento desses organismos, não existe a menor possibilidade de entender as forças que agem dentro deles, ou os motivos pelos quais as coisas vão bem ou mal.

Essa incompreensão inviabiliza a avaliação correta de todos os processos, desde a formação de equipes até as transformações que acontecem em trabalhos que são mantidos de uma temporada para outra, com elencos praticamente iguais. A visão do futebol como uma atividade mecânica não admite as oscilações, as tentativas e os erros inerentes a um jogo em que não há garantias, de modo que a única conclusão possível é a da “obrigação de vitória”, que conduz à criminalização do treinador e do jogador que não vencem. Como agravante, os políticos do futebol costumam sucumbir a essa distorção.

Lionel Messi, o melhor exemplo de desempenho automático que o jogo conhece, já passou metade de uma temporada em segunda marcha, contrariado por sua situação contratual e ofertas de renovação feitas a companheiros. Em certos aspectos, times de futebol são muito parecidos com equipes de trabalho em qualquer setor profissional, sempre sujeitas a posturas ou problemas de ambiente que interferem no rendimento. A diferença crucial é que, no esporte, a capacidade de competição é colocada à prova em público toda semana, e julgada sem o devido conhecimento.

Dois dos três primeiros colocados do último campeonato brasileiro já demitiram seus técnicos em seis meses de 2017. O treinador que resiste, Zé Ricardo, provavelmente está a uma derrota neste domingo do mesmo destino. Se esse é um quadro que retrata a “cultura do futebol brasileiro”, estamos diante de uma situação em que é melhor ser inculto, o que talvez explique por que as informações que emanam diretamente do futebol real sejam rejeitadas – e até ridicularizadas – por quem acha que sabe do que fala. 



  • munaiert

    Preciso e pontual, não mudaria uma vírgula. Mas vale lembrar também que seu canal, a ESPN, tem intensificado suas pautas “fofoca”, levando a polêmica ao horário nobre e colocando treinadores “no bico do corvo”. Se tem uma coisa que o torcedor troglodita utiliza como combustível de suas angustiadas demonstrações de paixão pelo clube, é a validação desse pensamento, principalmente quando estas vem de canais com tamanha credibilidade.

  • Alisson Sbrana

    Sem querer alimentar a fúria de alguns comentaristas em post anterior, um futuro se vislumbra numa eventual demissão do técnico flamenguista: Dorival Jr. enfrentaria o Santos na Copa do Brasil. Na minha humilde opinião, seria uma vantagem enorme para o Flamengo. Acho o Zé Ricardo das boas surpresas dos jovens treinadores brasileiros, mas ainda um passo atrás ao ex-santista. Embora num confronto de mata-mata qualquer coisa possa acontecer, se conseguir implantar seu modelo de futebol em pouco tempo, o Dorival ultrapassaria o Cuca nas apostas para o campeonato brasileiro. Tudo, óbvio, futuroligia, ciência que nossos cartolas são têm pós-doc.

    Ah, não resisto a comentar que o palmeiras só demitiu um para recontratar o técnico campeão. Duas voltas na ciranda dos treinadores!!!

  • Paulo Pinheiro

    Sem dúvida, André, que não se espera que a chegada de jogadores mais talentosos já faça efeito imediato (embora esse parece ter sido o caso do Diego ano passado).
    Eu tenho minhas diferenças com relação a certos aspectos da forma do Zé Ricardo trabalhar. Mas reconheço – claro – que o profissional preparado e pago pra fazer o trabalho é ele. Eu só dou pitaco. Não acho que sua demissão seja a solução e torço pra que não aconteça.

    Agora, em uma coisa o torcedor tem o direito de reclamar: da atitude dos jogadores em campo. Com todo respeito às opiniões contrárias, um time que tem elenco superior pode até ser vencido taticamente pelo de elenco inferior. Mas perder quase todas as divididas e disputas aéreas no meio campo contra Sport e Avaí denota muito mais a falta de vontade em campo. E esse é apenas UM dos sintomas. Tem mais: Lateral que vai até a linha de fundo e tem que voltar porque está cercado por 3 ou 4 adversários e NENHUM companheiro aproximou pra ao menos uma tabela. E tome-lhe bola pro Réver começar tudo de novo!
    Diego recebendo uma bola cercado por vários e olhar e não ver um único companheiro sem marcação. Jogadores perdendo a bola e não voltando pra ajudar a defesa.
    Este ano eu vi um Flamengo jogando com raça somente no empate em 3×3 contra o Fluminense, após o terceiro gol, que empatou a partida. Jogaram com amor à camisa, correndo, dando carrinho, chegando junto (às vezes antes) nas divididas. Pena que foram só uns 5 minutos. De resto foi um ano de muitos bons resultados garantidos apenas pelo talento de seus jogadores mesmo no estilo “paciência” do Zé Ricardo. Funcionou no Estadual e quase funcionou na Libertadores. Mas não funciona no Brasileirão.

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