Hora de ir



Em 13 de fevereiro, antevéspera da derrota para o São Paulo, na Vila Belmiro, Dorival Júnior chamou os componentes de sua comissão técnica e comunicou: “É hora da gente ir embora”. Dorival estava determinado a pedir demissão por causa dos problemas internos próprios de um clube brasileiro em ano de eleição, agravados por uma decisão do presidente Modesto Roma que até hoje não foi explicada.

Três dias antes, o gerente de futebol Sérgio Dimas tinha sido removido de sua posição, movimento que prejudicou a interlocução entre o time de futebol e a diretoria do Santos, além de afastar os jogadores de uma pessoa em quem confiavam e a quem recorriam em diversos tipos de situações. Como se tornou público, Dorival tentou demover o presidente santista da ideia, dizendo a Roma que a saída de Dimas seria mal recebida pelo grupo.

É preciso conhecer o funcionamento de um time de futebol para compreender as relações que o sustentam. Neste caso específico, Dimas era um eficiente solucionador de problemas – pessoais, inclusive – que protegia a rotina de trabalho da equipe das turbulências políticas que a prejudicavam quase que diariamente. Em um período de atraso de pagamentos, em especial, a demissão do gerente deixou os jogadores indignados e a comissão técnica vulnerável.

“Nós vamos aonde? Vamos tirar o quê dos jogadores?”, Dorival perguntou a seus colaboradores, naquela segunda-feira pré-clássico. “Está na hora da gente ir embora”, concluiu. Convencido a não procurar Modesto Roma e pedir a rescisão de seu contrato, Dorival seguiu convivendo com a ameaça permanente de uma demissão repentina, enquanto lidava com problemas internos que não são atribuições de um técnico, tal a medida da disfunção do departamento de futebol.

Em campo, o time que praticou o jogo mais moderno do país em 2016 não retomou o nível que o levou ao vice-campeonato brasileiro, pois, diferentemente do que pensam aqueles que observam à distância, a sequência de um trabalho não é garantia automática de bom desempenho. Há dificuldades desafiadoras, como, por exemplo, a noção inconsciente de que o que importa realmente é a Copa Libertadores. As lesões de jogadores fundamentais também contribuíram para um 2017 irregular, até o momento.

Naquele dia, em fevereiro, as pessoas que trabalham com Dorival argumentaram que sair àquela altura significava entregar um time “pronto” para que outro treinador colhesse os frutos. Quase quatro meses depois, o cenário é o mesmo, mas com uma diferença: ao ser demitido, o ex-técnico do Santos estava convicto de que a parte mais turbulenta da temporada tinha passado.



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