Talento Real



De tudo o que a final da Liga dos Campeões exibiu no sábado, o mais surpreendente foi ver a Juventus fraquejar no aspecto que menos preocupava seus torcedores: a força mental. A crença no funcionamento do sistema que levou o melhor time italiano dos últimos tempos à decisão era tamanha que não se imaginava uma derrota por submissão, como aconteceu. E não se cogitava que esse processo começaria pela cabeça de quem se considerava indestrutível, até que o futebol ofereceu mais uma lição.

Antes, o incrível aconteceu: o gol mais belo já construído em uma final de UCL foi assinado por uma equipe que não investe em estética, embora um jogador brasileiro, um argentino e um croata tenham sido os maiores responsáveis. O movimento ofensivo iniciado com passe longo de Bonucci é uma instituição juventina; Alex Sandro, Higuaín e Mandzukic acrescentaram magia a um lance em que a bola não tocou a grama até entrar no gol do Real Madrid. A obra completa supera o fantástico sem-pulo de Zidane, em 2002.

Aquele instante, o empate, era precisamente quando o time que se entendia mais forte deveria dar o passo definitivo. O que se viu foi o oposto, pois o Real Madrid retornou do vestiário com um ritmo tão intenso que a concentração da Juventus se esvaiu. O gol de Casemiro e o segundo de Cristiano Ronaldo aconteceram em um curto intervalo, efetivamente encerrando a questão em relação ao título, como uma sequência de golpes que não provoca o nocaute, mas determina o vencedor da luta.

Não é incomum, no futebol, que o sistema supere o talento. Nesses casos, costuma-se lembrar que este é um jogo disputado entre equipes e que agrupar jogadores de capacidade superlativa não é suficiente quando não existe organização. Não foi o caso desta final, não apenas porque a quantidade de talento reunida no Real Madrid é algo descomunal, mas também porque o time de Zidane é mais do que uma preguiçosa reunião de craques. Aparentemente a ordem é imposta pelos jogadores, em um ambiente gerenciado com habilidade pelo genial francês.

Ronaldo brilha por sua onipresença decisiva e pela oferta inesgotável de gols, mas este Madrid bicampeão – o primeiro no atual formato do torneio – europeu, como todo time superior, é operado pelo meio de campo. Casemiro, Kroos e Modric formam um trio capaz de desequilibrar partidas em diferentes circunstâncias, com características que se mesclam em uma unidade que limita oponentes e constrói jogo. A atuação do croata em Cardiff foi, com razoável distância, a melhor entre todos os que estavam no gramado.

Se o Real Madrid de Zidane tem um “defeito”, é, felizmente, preocupar-se muito mais em jogar do que não permitir que o adversário o faça. É o oposto do mantra da Juventus, alicerçada na cultura da rigidez defensiva e na disputa ferrenha enquanto houver tempo. O fato de o time italiano ter sofrido mais gols na decisão do que em todo o torneio indica que até os sistemas mais herméticos podem ser desarmados. Quando isso acontece, o talento emerge como o fator decisivo no futebol, e se percebe por que se paga tanto por ele.

ERRO

O Santos erra ao demitir Dorival Júnior sem lhe dar o tempo necessário para acertar uma temporada que vem sendo afetada tanto pelas lesões quanto pelo ambiente político no clube. Dorival é mais um técnico derrotado pela fogueira de vaidades e pela falta de convicção que dominam os clubes de futebol no Brasil, o que só mudará quando o modelo de administração se modernizar e a tomada de decisões for alimentada por conhecimento.

PISO

O gramado do Raulino de Oliveira colaborou para o baixo nível técnico do clássico entre Flamengo e Botafogo, ontem pela manhã. O que contribui para agravar o problema de estádios no Rio de Janeiro, prejudicando os clubes, o campeonato e os torcedores. Pouco adianta montar bons times para jogar em campos tão ruins.



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