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O campeão brasileiro perdeu oito vezes em vinte e sete jogos oficiais em 2017, números incompatíveis com qualquer perspectiva de objetivos para a temporada. Mas antes de oficializar a narrativa “pelo investimento feito, deveria estar jogando mais”, é preciso que se chegue a um acordo a respeito de quem se fala. É o Palmeiras confeccionado para ser dirigido por Eduardo Baptista ou o time que voltou para as mãos de Cuca, após uma mudança de rumo em menos de seis meses?

Ponderar essa questão é importante para compreender o que Cuca quis dizer ao afirmar, após a derrota para o Internacional, que “o elenco melhorou, mas o time piorou do ano passado para este”. Não se trata de uma comparação direta entre os nomes disponíveis, mas de uma contextualização que leva em conta a maneira de atuar que Cuca prefere e o trabalho que está diante dele. É como o casal que decide retomar o relacionamento após meses de separação, mas a mulher pintou o cabelo, passou a usar um piercing no nariz e incorporou termos ao vocabulário.

O Palmeiras de 2017 foi pensado para ser um time de mais posse e menos pressa do que o do ano anterior. Também foi feito para se defender sem os encaixes individuais que compõem o ideário de Cuca, pois o treinador contratado para a temporada trabalha com ideias distintas. Trocado o comando, a reconversão do comportamento da equipe não é um processo simples, entre outros motivos porque alguns jogadores que se destacaram em 2016 não mantiveram seus níveis de atuação. Cuca adoraria que tudo dependesse de decisões como a mudança da tintura e o abandono do adereço.

Ao voltar, ele obviamente sabia que não seria fácil. A declaração sobre a necessidade de “se adaptar e respeitar as características de certos jogadores” foi um sinal evidente de um problema a ser resolvido. Não que seja impossível convencer Felipe Melo a marcar individualmente ou Alejandro Guerra a reduzir seu tempo de posse, é apenas muito trabalhoso e, talvez, contraproducente. Não é o equivalente a obrigá-los a aprender um novo idioma, mas pedir a eles que esqueçam as três línguas em que são fluentes. A alternativa – radical, por isso indesejável – é deixar de utilizá-los.

É exagero concluir que o Palmeiras é pior do que era há um ano. A demissão de Baptista em um estágio precoce da temporada conduziu a uma sessão de terapia com competições em andamento e jogos decisivos da Copa Libertadores à vista. Supor que a simples aparição de Cuca faria ressurgir o jogo frenético e os antigos comportamentos defensivos é desrespeitar o funcionamento do futebol. Embora o tempo não seja generoso, Cuca precisará redesenhar o Palmeiras, provavelmente com uma combinação do que entende ser a melhor ideia de jogo com as virtudes dos futebolistas à mão.

O futebol caminha para premiar as equipes que dominam distintas facetas do jogo e são capazes de se modificar não só de uma partida para outra, mas dentro de um mesmo encontro. Apesar de a leitura momentânea ser preocupante, é possível que se descubra que o elenco do Palmeiras oferece diferentes versões para um mesmo time, um luxo para qualquer técnico. O que significa que a tarefa de Cuca, que se inicia agora, é mais complexa do que a da temporada passada.

O “COMO”…

Cortesia de Léo Bertozzi, parceiro na ESPN. Um trecho do artigo de Arrigo Sacchi sobre o Napoli: “O Napoli chega em terceiro no campeonato e é exaltado pelos próprios torcedores como se tivesse vencido o scudetto; Sarri tem a honra de receber no salão do Coni (Comitê Olímpico Italiano) o prestigioso prêmio Bearzot, pelo estilo e pela beleza de seu futebol. Mas esta não é a Itália onde importa apenas vencer, mesmo sem mérito? O país onde se glorificam mais os resultados do que a maneira com que são alcançados? Os torcedores do Napoli dão a todos um sinal importante de crescimento cultural e esportivo, que valoriza o empenho e a beleza, independentemente do resultado final.” 



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