Paraíso



Quem acompanha futebol com atenção sempre soube que a Seleção Brasileira era a caixa registradora da CBF. Há muito tempo a exploração mercadológica da camisa, dos jogadores que a vestem e, em certo ponto, do jogo que se pratica no país parece exagerada, com o distanciamento do público brasileiro em nome de uma agenda semelhante à de estrelas pop adolescentes: pouco importa onde se apresentarão, desde que o cachê seja depositado e todos os intermediários estejam satisfeitos.

Não deveria causar surpresa, portanto, que, no país dos esquemas, as aparições da Seleção tenham servido para enriquecer cartolas. Mesmo porque os indícios de que a coisa funcionava assim já tinham sido publicados, e com fartura de detalhes, pelos setores da imprensa esportiva nacional que não acham que futebol é apenas entretenimento. A ação de autoridades espanholas e americanas que colocou Sandro Rosell na cadeia apenas expôs a extensão da “operação”.

Rosell, ex-presidente do Barcelona, ajudou Ricardo Teixeira a fazer a Seleção Brasileira trabalhar para eles, gerando desvios de milhões de euros que os beneficiaram. Isso significa que os jogadores que atuaram pelo time nacional, por anos, remuneraram os espertos que se aproximaram fazendo negócios na CBF. O mesmo se pode dizer do enorme aparato midiático que sempre acompanhou os amistosos da equipe, colaborando para o sucesso do caixa 2 do Dr. Ricarrrrrdo e do amigo que ele chama de “Sandrinho”.

Rosell foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro, após uma investigação que começou com um pedido de colaboração do FBI à justiça espanhola. A polícia federal dos Estados Unidos, responsável pelo famoso “caso Fifa”, encontrou movimentações bancárias suspeitas relacionadas a dirigentes de futebol de diversos países. O ex-presidente do Barcelona era um deles, e sua ligação com a CBF fez parte da “Operação Rimet”, em alusão ao dirigente francês que comandou a Fifa por trinta e três anos. Rosell e Teixeira negociaram e lucraram com os direitos de imagem da Seleção.

A questão agora se apresenta às autoridades brasileiras, que não podem simplesmente acompanhar o noticiário e erguer sobrancelhas como se o conteúdo fosse surpreendente, ou, ainda pior, fazer de conta que não têm providências a tomar. O repórter Martín Fernandez, do globoesporte.com, revelou ontem que o Ministério Público Federal solicitará acesso aos documentos e provas sobre dirigentes brasileiros que constam da investigação espanhola. Mas a falta de uma cooperação produtiva com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos – que mantém José Maria Marin em prisão domiciliar desde novembro de 2015 – não é um sinal animador.

A CBF também deveria estar entre os principais interessados no esclarecimento dos casos. Dirigentes embolsaram recursos de contratos que deveriam beneficiá-la, essencialmente desviando dinheiro do futebol brasileiro. Ou será que o argumento da entidade privada converte em assunto interno o que as justiças da Espanha e dos Estados Unidos chamam de “comissões ilegais”? A prisão de Sandro Rosell em Madri sugere que o Brasil é o paraíso da cartolagem corrupta do futebol mundial.

APITO ELETRÔNICO

A utilização do árbitro assistente de vídeo a partir das quartas de final da Copa Libertadores da América é uma excelente notícia, mas é preciso fazer uma ressalva. Embora a tecnologia para esse tipo de auxílio à arbitragem esteja disponível há muito tempo, os testes para sua correta aplicação ainda não foram concluídos. É preciso minimizar o impacto da tomada de decisões no fluxo do jogo, e nada indica que a Conmebol tenha aperfeiçoado esse aspecto. A pior coisa que pode acontecer para a arbitragem eletrônica, um recurso necessário para a credibilidade do futebol, é a demonstração de que ela mais atrapalha do que ajuda. Como se dá em tantas atividades, fazer direito é mais importante do que fazer primeiro.



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