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O encontro entre São Paulo e Avaí, fechamento da segunda rodada do Campeonato Brasileiro, redefine o caráter decisivo de cada jogo em uma competição disputada em pontos corridos. Mesmo em um estágio precoce, em que os resultados influem pouco, a partida desta noite é determinante para que o time comandado por Rogério Ceni volte a gastar energias com o que importa. E para que o próprio Ceni seja visto como um entre tantos treinadores brasileiros, e não como uma figura dividida por duas exigências irreais: o ser que nunca pode errar e o que jamais conseguirá acertar.

Ambos os olhares são dirigidos por quem enxerga Ceni como uma entidade são-paulina e só sabe lidar com as subjetividades que ele gera. Aqueles que se identificam com o ídolo projetam nele a imagem da perfeição. Os que não têm simpatia pelo que ele representa o consideram uma embalagem vazia. Enquanto navegar entre o impecável e o embuste, Ceni não vencerá, pois metade da audiência jamais estará satisfeita, e a outra metade não será convencida a experimentar. Este é um dos aspectos em que ser o “Mito” só o prejudica, pois mitos não treinam times e não precisam apresentar explicações quando as coisas vão mal.

Por baixo da imagem, Ceni é um ex-jogador começando a trajetória como técnico, posição em que um aprendizado se impõe independentemente do nível de sucesso da carreira como futebolista. E diante do que é realmente relevante (todas as facetas do dia a dia e a transição do trabalho para a competição ), sua persona no imaginário são-paulino tem pouca transcendência. O time não jogará bem porque é dirigido por um ícone, e nem jogará mal porque “assim como o goleiro, o técnico Ceni tem dificuldade para fazer autocríticas”. O único cenário em que as percepções se confundem é no ambiente político, conversa diferente.

Na rotina de preparação da equipe, Rogério é parte de uma estrutura que precisa funcionar e a última semana mostrou que há uma distância considerável entre o que se pensa e o que se passa. A entrevista de Lugano – que não tem jogado, não sabe se assinará um novo contrato e se dispôs a diminuir a pressão ao proteger o técnico – foi ilustrativa no sentido de mostrar que a natureza da narrativa do futebol é problematizar toda e qualquer situação quando os resultados são ruins. A história da “prancheta voadora” é um exemplo apropriado: não se trata de fofoca e nem de notícia de bastidor, apenas um evento corriqueiro cuja leitura varia conforme o placar.

É necessário salientar que a análise do futebol apresentado pelo São Paulo vem sendo corrompida, desde o início do ano, por um tipo de resistência que resvala no desconhecimento. As frequentes comparações com os resultados de equipes que praticam um jogo mais conservador sugerem incapacidade de identificar os objetivos de Ceni e como ele pretende alcançá-los. O que não significa, obviamente, que o técnico não se equivoque ou não tenha responsabilidade sobre o desempenho irregular do time. Pedir um retorno no meio da estrada por causa das eliminações no campeonato estadual e na Copa Sul-Americana é próprio da visão curta que o futebol brasileiro precisa expandir.

Desde a queda para o Defensa y Justicia, verdadeiras listas foram elaboradas com tarefas de conduta para Ceni, da forma como escalar o time à postura em entrevistas, passando por relacionamentos internos. Houve até quem recomendasse – e aqui está provavelmente um recorde de nonsense – a contratação de outro profissional para “treinar a defesa”. Os conselhos podem ter sido sinceros, mas pouco ajudam no que é urgente: uma vitória sobre o Avaí, de preferência com a aparição de sinais que indiquem evolução.



  • Paulinho Cunha

    O Mito vai Mitar!

  • J.H

    Olha André. Não dá para não comentar sobre o que Ceni disse: “porque senão daqui a pouco cada um que acusar cartão tem que se convocado”. Depois dessa, não me surpreendo com mais nada do que dizem ou diziam sobre ele.

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