Modelos



Roger Machado ofereceu um presente a quem prestou atenção à entrevista coletiva após a vitória do Atlético Mineiro sobre o Godoy Cruz, na terça-feira: “Construir um modelo de jogo demanda mais tempo do que construir um time”, disse o técnico, ao ser questionado a respeito do momento de sua equipe. Talvez seja o maior dilema do futebol no país.

Ele prosseguiu explicando a importância de estabelecer esse modelo (o conjunto de comportamentos individuais e coletivos com os quais um time de futebol compõe sua maneira de atuar), um trabalho quase artesanal que não tem prazo mínimo ou máximo para frutificar: é essa construção que possibilita a manutenção do caráter de jogo com peças diferentes.

A compreensão da dinâmica de formação de equipes é um dos temas mais complexos do futebol. O assunto é ainda mais relevante em países como o Brasil, em que treinadores trabalham com a corda no pescoço, do que em centros onde a convicção e a paciência têm sobrevidas um pouco maiores. Um paradoxo alimentado por defeitos estruturais e equívocos na tomada de decisão.

É raro ver um clube brasileiro manter seu elenco de um ano para outro, ou até dentro da mesma temporada. Aquele que “ousar” dar à comissão técnica o tempo necessário para a confecção de um modelo de jogo estará preparado para seguir competindo – e evoluindo – a partir de uma ideia instalada, que terá maiores possibilidades de gerar um período sustentável de bons resultados, em vez de conquistas esporádicas.

Roger, ao que parece, está no processo de superar as dificuldades iniciais que tantas vezes condenaram trabalhos promissores, em meio ao falso debate sobre “jovens estudiosos” versus “experientes preguiçosos” que se tenta criar no âmbito dos técnicos. Como disse Pep Guardiola, em entrevista a João Castelo Branco, na ESPN Brasil, dirigentes precisam entender e avaliar o que os futebolistas comentam sobre quem os comanda.

No caso do Atlético Mineiro, a atuação sem a bola de jogadores consagrados, como Robinho, vem dizendo o suficiente. Embora o crescimento ofensivo seja mais fácil de perceber, a alteração radical em curso é em relação à forma como o time se defende com movimentos sincronizados, algo inalcançável sem o envolvimento de todos. Essas características sugerem uma placa de “técnico trabalhando” ao lado do campo de treinos.

Há modelos de jogo em construção em vários clubes brasileiros. O que os diferencia não é o nível de sucesso apresentado até agora, mas o nível de respeito com que são tratados, abaixo e acima de quem os propõe.



  • Lucas Dias

    Muito boa essa leitura das palavras do Roger. Espero por mais técnicos como ele e não dirigentes imediatistas! Com o tempo virão os bons frutos.

    • Antonio Carlos Syqueira

      Caro André

      Você não acha que alguns comentaristas é tão imediatista como os dirigentes?

      Podem se contar nos dedos quantos comentaristas diretamente ou indiretamente pediram a cabeça do Zé Ricardo, tanto na televisão como nas rádios.

      Estes comentaristas não deveriam, mas não podem acabar influenciando na decisão de um dirigente que na pressão acaba demitindo o técnico?

      Se falam tanto em tempo para trabalhar que os treinadores não tem porque os dirigentes são imediatistas. Entretanto, na primeira derrota, a principal pergunta é se o treinador pode cair ou não.

      O Zé Ricardo em 63 jogos São 36V 18E 9D, 66,66% de aproveitamento
      Em 2017 28 jogos São 17V 8E 3D, 70,23% de aproveitamento

      O Zé Ricardo tem o melhor aproveitamento entre todos os treinadores da Serie A

  • Antonio Carlos Syqueira

    Se o Guardiola fosse treinador no Brasil, a campanha dele no Manchester seria motivo de demissão?

    Guardiola ficou 3 anos no Bayern e não ganhou a Champions e também não ganhou a Liga Inglesa e foi desclassificado da Champions com o Manchester City, então o Guardiola é um mal treinador para?

    O Guardiola é um excelente treinador, mas com Messi, Iniesta, Xavi, Piquet no elenco não fica mais fácil?

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