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Tite abriu sua palestra no evento da CBF com os vídeos de dois gols marcados pela Seleção Brasileira na Copa de 1982: Sócrates, contra a Itália, e Júnior, contra a Argentina, ambos com passes de Zico. A narração de Luciano do Valle colaborou para contagiar a plateia com o arrepio de todos os pelos do corpo, o tipo de sensação que faz lembrar por que o futebol existe e do que ele é capaz, apesar dos derrotados que só – dizem que – sabem vencer. Ao prosseguir com a apresentação, com menção à “essência do futebol brasileiro”, o técnico da Seleção chamou a exibição de mais um gol: Marcelo, contra o Paraguai, no último jogo das Eliminatórias Sul-Americanas. Mensagem enviada.

Quando Marcelo Bielsa assumiu o palco e defendeu o futebol de ataque que seu nome representa, os laterais do time de Tite foram citados como exemplos do papel da capacidade ofensiva na construção de equipes. Marcelo e Daniel Alves não se caracterizam pelo desempenho de marcação que se poderia esperar de jogadores da posição, mas se tornaram referências mundiais – há muitos anos – justamente por transcender o manual: são tão formidáveis como atacantes pelos lados que não podem ser ignorados. O benefício dos dilemas que propõem ao adversário supera, com distância, qualquer necessidade de ajuste que tenha de ser feito para acomodá-los.

Mas tudo é uma questão de visão. Bielsa falava sobre a importância da polivalência dos laterais – ele entende que todo jogador deve ser formado para cumprir pelo menos duas funções em campo, pois isso permite ao treinador alterar seu time sem fazer substituições – quando foi interrompido por Fabio Capello, sentado ao lado de Tite. O técnico italiano provavelmente não resistiu aos impulsos da escola em que se formou e manifestou sua discordância. “Você está certo”, disse Bielsa, não no sentido de dar razão a Capello, mas de forma a enfatizar que os técnicos que enxergam o jogo como gerador de emoções compõem uma honrosa, e necessária, minoria.

Eles sempre existirão e serão admirados pela coragem de praticar o tipo de futebol mais sofisticado que se conhece, por causa do período de maturação que exige e o nível de compreensão coletiva do qual depende. Pois quando as forças conspiram e essa classe de jogo triunfa, times se convertem em expoentes, o futebol avança e as pessoas não esquecem. Embora o equívoco de acreditar na eficiência de propostas negativas seja frequente, a bola sempre percorre ciclos de influência determinados pelos treinadores que formulam perguntas e pelos jogadores que são capazes de interpretá-las. Quanto mais castrador for o ambiente, maior é a importância de questionar.

Tite falou sobre o casamento entre a beleza e o sucesso como um objetivo no futebol de hoje, em que o envolvimento permanente de todos os jogadores em campo é uma condição inegociável. Recorreu a ilustrações que voltaram trinta e cinco anos no tempo para oferecer gols que hoje seriam classificados como “modernos” e sentimentos que parecem confinados ao passado. O universo de escolhas faz dele um privilegiado cada vez mais distante da realidade do esporte no Brasil, marcada pela valorização da mediocridade e pelo encerramento precoce de trabalhos que não vencem de imediato.



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