Mestrado



A menção ao nome de Marcelo Bielsa em qualquer rede antissocial costuma gerar o equivalente ao relincho quando o assunto são os técnicos de futebol. “Ganhou o quê?”, proclamam os especialistas, analisando o jogo de trás para frente e assim determinando quem tem mérito e quem não tem. É só mais um sinal de que vivemos uma realidade de cabeça para baixo, em que, por exemplo, se aceita que um ex-jogador conhecido pela baixa contagem neuronal excrete opiniões sobre jornalismo e temas que desconhece. E a vida segue.

O pecado de Bielsa não são os títulos que ele não conquistou, mas viver o futebol com as emoções de um apaixonado e não se dobrar a todos os mecanismos que repelem esse tipo de relação com o jogo. Fundamentalmente, Bielsa faz pensar, um estímulo cada vez menos reconhecido – não apenas no sentido da valorização, mas da mínima percepção – em sociedades nas quais o símbolo do sucesso é o rei do camarote. A inversão é compatível com a crítica do treinador argentino aos meios de comunicação, que “pervertem o ser humano de acordo com a vitória e a derrota”.

O grande Ezequiel Fernández Moores escreveu ontem, no diário La Nación, a propósito da palestra de Bielsa no evento organizado pela CBF: “Além de conhecimento, Bielsa é paixão pura. Esse é seu modo de entender o futebol. Sua credibilidade é à prova de balas. Não há outra personalidade como a sua na elite superprofissionalizada do futebol mundial”. Não há mesmo, e essa personalidade tem se mantido intacta em um ambiente que a rejeita justamente pelos princípios que ele não negocia, um dos motivos que o converteram em uma espécie de oráculo para técnicos que se orientam pelos valores do esporte.

Na segunda-feira, Bielsa se pôs a analisar a Seleção Brasileira conforme todos os sistemas táticos que existem (são dez, segundo ele), mas não sem antes pedir licença a Tite – sentado na primeira fila – e se desculpar de antemão por algum equívoco de observação. Na era da ofensa compulsória, passou despercebida a extrema generosidade de preparar uma palestra com este tema para ser apresentada no Rio de Janeiro, provavelmente porque é necessário cultivar certos valores para detectá-los. A autenticidade de Bielsa também o impediu de posar para fotos com uma camisa do Brasil, após uma explanação de mais de uma hora em que sua admiração pelo futebol brasileiro ficou evidente.

O pecado de Bielsa, de fato, é falar pouco. Entrevistas não fazem parte de sua rotina e aparições em congressos não são frequentes. Ele vive muito ocupado assistindo a jogos, pensando e rindo dos que relincham.



  • Marcus Cerqueira

    A palestra de Bielsa foi um verdadeiro bálsamo aos amantes do futebol.

    Para ver, rever e rever!

  • Gustavo Favaro

    Texto sensacional, um dos melhores que você já escreveu. Aposto que você recebe forte influência da imprensa esportiva estrangeira, porque esse tipo de articulista quase não existe aqui. Destaco as alusões à “baixa contagem neuronal” de um ex-jogador (impagável), ao rei do camarote como modelo de sucesso e à era da ofensa compulsória. Para reler várias vezes. Abraço.

  • Bruno Fernandes

    Quando se discute um treinador, uma forma de pensar futebol e se ouve ou lê “ganhou o quê?”, a gente entende o quanto o sujeito não gosta de futebol. No geral, aqui no Brasil pelo menos, as pessoas em geral torcem por vitórias e não por um time, as pessoas gostam de vitórias e não de um esporte. Diria mais: as pessoas gostam de se apropriar das vitórias dos outros como suas (fulano ganhou medalha de ouro para o Brasil, ou para nós). Daí, como esperar que estes entendam e/ou admirem a visão e paixão pelo futebol cultivada pelo técnico argentino? O chamam de “El Loco”, e me pergunto se, na real, os loucos são os que acham que ele é somente um cara maluco.

  • Julia Posey

    Belo tributo ao grande Bielsa. Mais um grande texto, uma aula de jornalismo e conteúdo que mereceriam o registro em livro. Será que teremos esse privilégio, André? Abraço.

  • Cassio Moura

    Eu até vejo de maneira positiva o trabalho do Bielsa, mas não podemos jogar na vala os que jogam para o resultado. Nem todos nascem Pelé mas pra se jogar é necessário 22, e se um treinador joga por resultado tem suas razões e não se pode descartá-las, quanto aos jornalistas eu acho incrível que muitos jornalistas que vemos na TV, criticam jogadores até tecnicamente sem nenhum pudor, mas quando é questionado por qualquer vírgula que escreve simplesmente dá Piti, bloqueia no twitter ou escreve uma coluna inteira pra criticar quem o criticou. Eu acho uma falta de respeito achar que, por que fez um estudo detalhado sobre o assunto sabe muito mais do que quem já conduziu uma bola e por prática sabe o que está falando.

  • J.H

    Os que relincham foi ótimo! kkkkkkk

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