É do Carille



A esmagadora maioria das pessoas que diz gostar de futebol ignora a complexidade do trabalho de treinadores, por dois motivos principais: 1) jamais conversou com um, e 2) mesmo assim, cultiva a presunção de conhecer o funcionamento de um clube, pois julga que o jogo é puramente uma questão de observação. A distância entre o que o futebol é e aquilo que se supõe é brutal, e um dos picos desta curva de desconhecimento é justamente a avaliação do desempenho de técnicos.

Se tudo acontecer normalmente e o Corinthians conquistar mais um título estadual neste domingo, o troféu não só deveria ser erguido por Fábio Carille (sem nenhum dirigente por perto, diga-se), como ele merece receber uma réplica de presente. E mais: caso a Ponte Preta seja corresponsável por uma das maiores surpresas da história do campeonato paulista e comemore uma alegria inédita, Carille deveria ser reconhecido da mesma forma. A conquista é tão somente a validação competitiva de um trabalho, não sua essência.

Lembremos – e isso é algo que precisa ser repetido todos os dias – que Fábio Carille não era o profissional que as pessoas que comandam o Corinthians desejavam ver no comando do time. Negativas de quatro treinadores obrigaram os dirigentes a olhar para alguém que sempre esteve ali, sentado no mesmo lugar, dentro do vestiário. Os sorrisos que hoje aparecem ao lado de Carille nada mais são do que expressões de alívio pelo bom andamento das coisas, próprias de quem sabe que foi agraciado pela sorte ao tomar uma decisão por força da conjuntura. É o tipo de pensamento que, no fundo, faz subir um frio pela espinha.

De modo que, além das dificuldades que acompanham todo técnico de um clube como o Corinthians, Carille ainda precisou administrar os fatos de não ser o escolhido e, obviamente, dar os primeiros passos na carreira. Cenário pronto para que ele fosse visto com desconfiança interna/externa e se convertesse em alvo no primeiro resultado desagradável, como se deu na noite em que o Corinthians foi eliminado da Copa do Brasil pelo Internacional. Na entrevista após a derrota nos pênaltis, Carille foi questionado sobre “o pior momento” de uma trajetória que ainda não completou seis meses.

Se o debate a respeito de times e técnicos precisa passar pelo tipo de futebol praticado, é obrigatório considerar que a situação à qual Carille foi submetido reforçou suas convicções sobre o caráter de equipe que pretendia. O jogo de segurança que conduziu o Corinthians à decisão estadual é a receita de um técnico em modo de sobrevivência e o caminho mais rápido para ser competitivo em um trecho do calendário que oferece treinadores ao sacrifício público. E ele só chegou até aqui porque tem vencido, não porque se compreende que a formação de times demanda tempo.

Após um período em que as ideias eram tão evidentes quanto os defeitos de execução, o Corinthians de Carille foi capaz de superar o estágio do receio e passou a se comportar como um time com objetivos claros em campo. Jogos de ida como visitante contra São Paulo e Ponte Preta foram benefícios estratégicos, por permitirem o encaixe da postura na qual a equipe se sente mais à vontade com o posicionamento do adversário, aproximando o Corinthians de um resultado que poderá adicionar vidas à comissão técnica e proporcionar a evolução da maneira de atuar a um patamar compatível com a exigência do Campeonato Brasileiro.

Independentemente de como o domingo termine, Carille venceu. Ele é aquele atleta que não deveria se posicionar na largada, não deveria suportar o ritmo da prova e muito menos estar em vantagem nos últimos metros. O mínimo que os dirigentes que o expuseram à máquina moedora de técnicos têm de fazer é deixá-lo saborear essa satisfação e pensar no futuro com ambição, jamais com temor. O futebol prossegue ensinando.



  • Blas M. Sanchez

    Parabéns André pelo texto e pela idéia .

  • Foo Fighters Man

    André, seu texto é bom, mas não dá pra esquecer o seguinte: Carille, assim como o demitido Eduardo Baptista (que é muito inferior ao técnico do Corinthians), sabem como funcionam as coisas no Brasil. Sabiam (sabem) que sem resultados claros, a demissão é o estágio seguinte à admissão. No caso de Eduardo Baptista o pior não foram as derrotas, mas a falta de padrão de jogo, um time medíocre, sem visão, que vivia de ligação direta e do talento e voluntarismo de alguns jogadores. Além disso, o técnico agiu de maneira ridícula após a ilusória vitória frente ao fraco Peñarol, batendo na mesa, afirmando ser homem etc. Com tanta desconfiança, a melhor maneira de se afirmar é com trabalho, discrição e resultados. Mostrou desequilíbrio emocional completo, ao contrário de seu colega de profissão alvinegro.

    Carille seguiu o caminho de seu 1o mentor, Mano Menezes, que quando pegou o Corinthians rebaixado em 2008, teve como meta inicial arrumar a defesa. Carille voltou às origens. Ele sabia que teria que enfrentar desconfiança, falta de recursos, falta de tempo etc. Perdeu nos pênaltis para o Internacional -o que é uma disputa pós-jogo. O saldo vem sendo muito positivo. E vale lembrar que quando entregou o Corinthians ao ultrapassado O.O., Carille deixou o time em 5o no Brasileiro e com vantagem sobre o Cruzeiro na Copa do Brasil -que O.O. conseguiu desperdiçar também.

    Em suma, se é verdade que todos colhem o que plantam, Carille começa a colher os frutos de uma conduta correta que começou muito lá atrás. Com um detalhe: ele sabe que o futebol de times grandes é uma matilha de lobos e não resolveu posar nem de cordeiro nem de vítima no meio destes. Vai, Carille! Vai, Corinthians!

    • Bruno Fernandes

      O problema é achar que, por saber que o futebol brasileiro é assim, os técnicos aceitarem treinar e jogar em modo de sobrevivência sempre. O Palmeiras com Eduardo era um time extremamente irregular, mas ele também é um técnico com visão de futebol mais complexa, que demanda tempo de trabalho e boa vontade dos jogadores em entender isso. Não vejo tanta superioridade do Carille, porque o tipo de futebol que ele implantou no Corinthians, como você mesmo se referiu é muito semelhante à base de futebol que o time jogou nos últimos anos: segurança defensiva primeiro e elaboração se possível. É um estilo de futebol que é assimilado e dá um “padrão” de jogo muito mais rápido. Os resultados do Corinthians não mostram que Carille foi melhor ou pior no sentido de desenvolvimento do jeito de jogar do time. O Corinthians será campeão Paulista, mas até onde esse time com jogadores fracos e jogando um estilo de futebol mais simples pode ir? Talvez a máquina de fritar técnicos não permita que muitos times tenham tempo de maturar um modelo de jogo mais complexo que obrigue o Corinthians a mudar seu estilo de jogo. Mas se dizemos que Carille está correto e que Eduardo Batista deveria, assim como ele, jogar em “modo de segurança” é aceitar a manutenção da mediocridade eterna que vive o futebol brasileiro e que causa bizarrices como o 7×1, ou times brasileiros com muito mais dinheiro, estrutura, e jogadores, sofrendo absurdo para ganhar qualquer jogo em Libertadores e ficando tantas edições sem chegar em finais e às vezes nem em semifinais, mesmo com tantos times participando. O que precisa mudar é a mentalidade do nosso futebol, e não os técnicos aceitarem a mediocridade.

      • André Kfouri

        A mentalidade precisa mudar, escrevo há muito tempo sobre isso e nunca sugeri que Eduardo Baptista deveria propor um jogo menos elaborado. Mas há gigantescas – e evidentes – diferenças entre os casos de Carille e Baptista. Além disso, se Carille tiver o tempo que técnicos merecem ter, o trabalho dele será avaliado conforme o desenvolvimento que o time apresentar. Um abraço.

        • Bruno Fernandes

          André, entendo as diferenças das realidades que Carille e Eduardo Baptista enfrentaram, bem como a própria diferença deles como técnicos. Nem sugeri que tenha dito que Eduardo não tenha que propor jogo menos elaborado. Na verdade, meu questionamento refere-se ao primeiro parágrafo do comentário do Foo Fighters Man. Dizer que o futebol brasileiro exige de técnicos resultado e discrição ok, que Carille tenha entendido isso e por isso aplicou o estilo de futebol aplicado pelo Corinthians me parece um equívoco. Primeiro porque com o que ele tinha em mãos não acho que esse time possa fazer muito mais do que fez. Mas não concordaria com Carille se ele se limitasse a este estilo de jogo apenas por questão de sobrevivência. Como disse, se derem o devido tempo a ele, aí sim saberemos o quão bom terá sido seu trabalho. Até por isso também discordo do comentário do amigo quando diz que Eduardo se colocou como vítima, até porque o próprio Carille deu entrevista afirmando estar de acordo com tudo o que foi dito por Eduardo em seu desabafo. Repito, entendi seu texto e concordo. Apenas discordo de alguns pontos do comentário do amigo. Uma das razões que me levam a ler seus textos é justamente a exposição da mediocridade que o futebol brasileiro está inserido, o porque disso, e a exposição de caminhos para se sair disso. Que você siga esta linha que propõe reflexões para além do que é superficial no futebol. É uma enorme contribuição pra que a mentalidade das pessoas que o leem possa ir evoluindo. Como leitor e amante do esporte estou do seu lado nessa. Abraço

  • Anna Barros

    Ótimo texto e ótimo título! Nem os corintianos acreditavam no Corinthians de Carille!

  • J.H

    Com efeito qualquer técnico que se lança nesse cargo, precisa enfrentar desafios monstruosos. O maior deles está na capacidade de obter o respeito dos jogadores que comanda. Se for justo, tem 90% de chance de sucesso. Lembro do Felipão, técnico consagrado que se perdeu no Palmeiras quando reclamou que “não lhe davam camarões” ao ser entrevistado após uma derrota do time, Literalmente estava dizendo que seus comandados eram o que? Lambaris? Ou bagres?. Como encara-los no dia seguinte?. O fato é que pessoas que comandam pessoas têm que ser admiradas pelos comandados e joguem para si, e para ele, de verdade e sinceramente. Quem já foi chefe e comandou pessoas, sabe que se não tiver o respeito das pessoas subordinadas, embora tenha virtudes e capacidade técnica, com certeza só terá sucessos efêmeros. Isso vale para treinadores de futebol também, e melhor, nessa profissão, e nesse mister, cultura e conhecimentos gerais é o que menos importa. Deveria servir de exemplo para muitos esta simples constatação em descobrir o que realmente é fundamental no relacionamento honesto entre pessoas.

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