A notícia de conforto



O grito de independência de Eduardo Baptista cometeu um deslize de interpretação da realidade que não pode passar despercebido. Certamente foi resultado do nível de transtorno exibido na noite de quarta-feira, após um episódio assustador tanto no aspecto esportivo – o péssimo desempenho no primeiro tempo diante do Peñarol – quanto no humano – a possibilidade de uma absurda agressão coletiva depois de um jogo da Copa Libertadores. Mesmo assim, é preciso esclarecer, pois as manifestações de profissionais desse gabarito devem sempre ser examinadas de acordo com a natural repercussão que geram.

Não é verdade que a última eleição presidencial nos Estados Unidos foi decidida por notícias mentirosas publicadas “pela imprensa”. É possível, sim, que o processo tenha sido afetado por inverdades disseminadas em redes sociais e grupos de discussão na internet, elevando o fenômeno da informação seletiva a um novo patamar. O hábito de só ler, ver e ouvir aquilo que agrada fez com que pessoas com acesso a qualquer meio de comunicação e mecanismos de busca acreditassem, por exemplo, que o Papa Francisco escolheu um determinado candidato no pleito.

“Informações” como essa, e similares em total ausência de sentido, foram compartilhadas milhões de vezes e se converteram em verdade para um número considerável de pessoas que se satisfizeram em repassá-las sem um mínimo de curiosidade. O impacto da “notícia de conforto” – aquela que provoca alguns minutos de boas sensações e faz o recipiente se acreditar parte de algo maior – criou zonas virtuais de visão de mundo em que não há diferença entre fatos e opiniões. Se essa alquimia moderna realmente desequilibrou a escolha do atual residente da Casa Branca, não foi por “culpa da imprensa”, mas, ao contrário, por falta dela.

O interessante é que, mesmo apesar da confusão conceitual, o discurso de Baptista tem uma evidente relação com o ambiente do futebol. A exemplo do que se dá na discussão política, cada vez mais embrutecida e desenganada, a pauta futebolística preferida por certo contingente de torcedores é a da informação/análise amiga, que não argumenta, não oferece contextos, não provoca reflexão e, condição principal para ser escolhida, não incomoda. O leitor/telespectador/ouvinte que prefere não ser informado – em um sentido que provavelmente desconhece – e precisa se sentir ofendido age exatamente como quem acreditou que Barack Obama é um terrorista. Se faz bem, então é verdade.

O problema é agravado pelo dilema para discernir o que é notícia e o que não é, debate que alimenta a indignação sobre o que “a imprensa” deve ou não deve fazer. Se já seria um equívoco esperar que o consumidor de “cobertura amiga” saiba o que é jornalismo, calcule a gravidade da situação a partir do momento em que o próprio jornalismo parece em dúvida. O desabafo de Eduardo Baptista fez surgir nas redes antissociais – habitat fértil para tipos em busca de seguidores como se isso representasse avanço profissional – uma figura formidável: o estagiário travestido de ombudsman autodeclarado. Digno de aplausos.

Não é de hoje que perguntas desagradáveis são recebidas como ataques e opiniões críticas, percebidas como perseguição. Essa é a configuração padrão, sem distinção de lugares ou pessoas. Antes mesmo de catalisar a parcela do público que opta por fantasias que aquecem o coração, a “notícia de conforto” já era a única aceitável para a enorme maioria dos jogadores, treinadores e dirigentes. Não é por outro motivo que os clubes passaram a ser também geradores de conteúdo, competindo com os meios de comunicação ao oferecer – apenas, claro – suas visões oficiais. Não falta quem prefira comprá-las como versões definitivas e indiscutíveis, especialmente quando são embaladas por um tom mais alto e alguns tapas na mesa.



  • Raphael Gustavo

    Prefiro consumir mesmo a mídia do clube, ou a feita por palmeirenses, seja na Facebook, Twitter ou YouTube, ao menos com esses temos menos riscos de inventarem mentiras ou aumentarem ou criarem uma ficção para ganharem clicks em blogs, estes jornalistas cada vez mais denigrem a imagem dos bons jornalistas, que fazem tudo certo mas acabam preteridos por estes que atraem público com mentiras ou meia-verdades

    • André Kfouri

      O risco é bem maior do que esse. Mas essa opção, como está no texto, é típica.

  • Raphael Gustavo

    Assim como na política, temos que fazer uma limpa no jornalismo, principalmente esportivo, que estão bons é em criarem ficções inventando ou distorcendo noticias, por isso vá reclamar com estes amigos seus que fazem isso, pois assim como na política estes denigrem a imagem dos bons jornalistas já que as pessoas acabam generalizando e cada vez mais vão consumir menos, pois a categoria perde a credibilidade por causa de alguns

    • André Kfouri

      De novo: sua forma de ver as coisas está tipificada no texto. É uma ilustração perfeita.

      • Raphael Gustavo

        Desculpe, escrevi de novo, achei que não tinha entrado o comentário anterior

  • Harlan Rodrigo

    Não é uma questão de preferir notícias de conforto, mas apenas se querer jornalismo bem feito para o público que consome informação. Me desculpe, mas a notícia de Juca não chegou nem perto de ser um jornalismo de qualidade, o que é uma pena, pois pode até ser verdade, mas como não há checagem de fatos e uma investigação mais séria, a fala de Eduardo Batista passou muito mais credibilidade. Não é por que é um blog que não se deve ter maia cuidado nas notícias e nas palavras.

    • André Kfouri

      Você acaba de determinar o que é verdade é o que não é, apenas conforme sua própria vontade.

  • Joao Luiz Reis

    O William Bigode ficou sem treinar antes do jogo dá Ponte?? Não vi ninguém desmentindo o Eduardo Batista! Vc sabe? Obrigado.

    • Julia Posey

      Isso já é fofoca. O técnico do Palmeiras disse.

      • Joao Luiz Reis

        Então, estou sem saber, pois ninguem comentou de fato a declaração do Eduardo Batista em relação a este fato!! Os jornalistas ficaram no bla bla bla das fontes e desviaram o assunto como sempre! SE o Batista falou a verdade, infelizmente o Juca e toda sua patota estão errados e de fato são fofoqueiros demais!! Mas gostaria muito de saber!! Ou então é verdade e deixaram esse “detalhe” de lado para enaltecer o trabalho do Juca…. Ainda em dúvida para julgar!!
        Uma pergunta tão simples e ninguém respondeu, nem o senhor filho do Juca!! Respondeu a todos os comentarios menos o meu!! Esquisitoooooooooooo!!

  • Lucas

    Discordo.

    De fato, o jornalismo não deve jamais ser oficial. Mas ele deve ser relevante… sendo a noticia verdadeira, o que deve ser checado ao máximo possível antes de publicada, ela é de interesse público? Interesse no sentido maior, não curiosidade. O próprio Juca contribuiu, e muito, ao jornalismo esportivo com matérias levando luz a casos de corrupção e má conduta no esporte. Nesse caso, reduziu-se ao que não é: colunista de tablóide. Discussão entre jogador e treinador não é interesse público, assim como uma discussão entre você e algum companheiro de trabalho também não será. Como ambos os casos tratam de temas com publicidade, podem levantar curiosidade. Mas apenas isso. (O malabarismo retórico que ouvi na TV, de transformar a coluna sobre a discussão em uma matéria sobre ingerência da diretoria na escalação é prova de um corporativismo esperado, ainda mais entre amigos.)

    Sobre a reação do E. Baptista: imagine agora que a noticia foi mais uma barrigada do Juca (lembram do Valdivia no São Paulo?). Imagine ler uma mentira contada sobre você e que coloque sua imagem em risco, ativo fundamental para trabalhar com o jornalismo (e como técnico de futebol). Qual seria sua reação? Talvez não a mesma, mas satisfeito não estaria com o jornalista que deu a barrigada….

    Dito isso, mantenho-me leitor tanto seu quanto do Juca. Saudações.

    • André Kfouri

      A questão vai bem além de discussão entre técnico e jogador. Bastidor de time de futebol sempre foi, e sempre será, de interesse público. Um abraço.

      • Ailton Souza

        Caro André

        Com todo respeito, você acaba de determinar que os bastidores de time de futebol é de interesse público, torcedor não que sabe se jogadores não se falam, se conselheiros quer cabeça de treinador.
        A mídia esportiva cobra muito profissionalismo, mas ela mesma não é tão profissional assim, muitos fazem comentários acima de achismos, clubismos, com análise fria dos números e com comparativos com clubes europeus com alto poder aquisitivo.
        Poucos comentários se baseiam nas táticas de jogo apresentadas pelos clubes. Não sei se é porque os treinadores e jogadores ganham bem e comentaristas esportivos ganham mal, há uma preocupação maior com os bastidores do que uma análise tática de jogo dos clubes.
        Quando você diz que: “O leitor/telespectador/ouvinte que prefere não ser informado”, mas prefere uma informação não verdadeira, você não está sendo contraditório?
        Alguns comentaristas da FOX SPORTS, ESPN, SPORTV, BAND, GLOBO preferem mais polemizar os bastidores do que informar.
        São jogadores que já foram contratados, treinadores que estão quase caindo.
        E como sempre as fontes são sérias e confiáveis.

        Abraços

  • André Kfouri

    O ponto não é a discussão, que, sim, ocorre com frequência e em todos os lugares. E nem o direito de um técnico manifestar seu descontentamento com a notícia. É a percepção disso. Um abraço.

  • André Kfouri

    O Eduardo não foi “acusado” se nada.

  • André Kfouri

    Nada mais natural do que concordar ou discordar.

    • Rafael Nonato Croce

      Exato, só acho que cabe a crítica ou a discussão se determinada coisa é notícia ou não. Apurar fatos é perfeitamente possível, por isso acredito na 1a parte do post do Juca. Por outro lado, “comprovar” que treinador X escalou jogador Y contra sua vontade por determinação de dirigente Z é algo que faz parte do campo do achismo. A gente vê isso o tempo todo na política e critica, mas a imprensa esportiva não quis ter essa discussão por se tratar de um dos maiores jornalistas da atualidade. Ao mesmo tempo não se debateu o timing do post e a capacidade que determinadas afirmações tem de criar crises inexistentes.

  • Lucas

    A reação explosiva do Eduardo acabou desencadeada pelo artigo do Juca, mas durante todas essas duas últimas semanas cerca de 90% da cobertura dos programas de debate em rádio e TV sobre o Palmeiras, foram baseadas em “fofocas”, como dito pelo Eduardo. Depois do trote no Roger Guedes, os debates com intermináveis fontes internas (que jamais devem ser reveleadas) chegaram a conclusão de que não era nenhum problema de ambiente, apenas uma aposta não paga (o clima na academia era leve, como retratado pelos proprios setoristas). Bastou a derrota atípica e apática para a Ponte Preta para que as ditas “fofocas” surgissem tentando recontar umas história já resolvida dias antes, como uma caça as Bruxas.

    E assim se passou a semana, discutindo-se que o elenco estaria rachado, o treinador teria perdido o comando, o treinador não tem tamanho pra dirigir o Palmeiras, e tudo em cima de especulações em cima de uma brincadeira em grupo e uma derrota totalmente anormal.
    Passada a vitória contra a mesma Ponte, não suficiente para resolver a classificação, as “fofocas” se intensificaram, e pouquissimo se falou de como o comportamento de Mina e Melo como construtores a partir do meio campo, os laterais sempre gerando amplitude, ou trocando com os extremos para jogar por dentro e as raras jogadas dos meias no entelinhas que produziram gigante volume de jogo durante o primeiro tempo. E também pouco se falou do que faltou para que o resultado necessário fosse alcançado. A pauta ainda eram as mesmas “fofocas”, mas com alegações que o treinador teria (teria) “saído na mão com Roger Guedes e Borja”, que não havia comando do grupo, que o treinador estaria (estaria) fadado a demissão caso não vencesse o Peñarol por conselheiros que não comandam o futebol do clube e já se falava qual treinador “medalhão” deveria assumir o clube a partir de quinta caso a derrota acontecesse.
    E menos ainda sobre quais seriam os comportamentos esperados pela equipe e quais as possíveis leituras para o jogo contra o Peñarol, o debate seguiu-se alheio ao campo e a bola.

    Tendo a paciência, calma e articulação que o Eduardo não teve, talvez seja essa impressão que o Eduardo quis deixar registrada, essencialmente. E nela, ele não erra, pra mim. Pouco se analisa o jogo de futebol com a mesma paixão que ele nós proporciona, cada vez mais o futebol se torna um jogo mais complexo, caótica, de multiplas leituras e ainda assim poucos jornalistas se esforçam a evoluir suas análises para o que interessa: o campo e a bola.
    Em tempo, conta-se nos dedos de uma mão quantas análises e debates foram feitas do magistral controle de tempo, espaço e mente feito pela Juventus sobre o Barcelona no Camp Nou. Mas sobraram (e foram muitas) análises prontas e clichês sobre o “catenaccio” Juventino, como Italianos sabem armar retrancas e ferrolhos como ninguém e a “sorte” de Buffon por ainda mão ter sido vazado por Messi.

    Saudações, de um leitor e espectador do Data no Facebook.

    • André Kfouri

      Como sempre digo, é possível procurar e encontrar o tipo de jornalismo esportivo que se prefere. Um abraço.

      • Clayton Di Biaggi

        Mas se apoiar em uma emenda constitucional pra manter “fontes” que pode muito bem não existir transforma o jornalista em fofoqueiro, pois se afirmou tem q provar não basta apenas afirmar q a fonte é boa quando na realidade pode estar usando de má fé pra denegrir a imagem do treinador e do time e ele por ser corintiano masi q ninguem deveria provar pois isso já depõe contra ele no quesito imparcialidade

        • Alisson Sbrana

          Olá Clayton! Não tenho nenhuma procuração para defender o Juca (e a maioria das pessoas que lerá esse comentário sabe que ele nem precisa), mas obviamente você não está familiarizado com os meandros do trabalho de jornalista. Ou talvez seja apenas muito jovem para saber certas coisas da vida, até porque “se apoiar” na constituição ficou um tanto “old fashioned” no nosso país.

          Recentemente um Juiz agiu arbitrariamente (e não será punido por isso) ao quebrar o sigilo telefônico de um blogueiro para descobrir a fonte de uma notícia. Foi no campo da política, onde vivemos tempos difíceis (semelhante à cartolagem?).

          O segredo de fonte é imprescindível.

          Claro que a profissão de jornalista se deteriorou nos últimos anos (vários fenômeno explicam) e que existem péssimos profissionais em todos os seguimentos da profissão. Mas um jornalista constroe sua reputação de acordo com a credibilidade alcançada ao longo de muitas notícias. Talvez seja mais difícil para o AK dizer com todas as palavras pela óbvia relação. Mas são poucos os jornalistas no nosso país que possuem a credibilidade de Juca Kfouri.

          E lembremos: se algum “alvo” de notícia se sentir ofendido por “informações falsas”, pode processar o responsável.

          Abraço e perdoe a intromissão.

  • Julia Posey

    Olha, mais uma vez, sem palavras, André. Você soube captar o momento como poucos. Aliás, lucidez e compromisso com ética e qualidade da informação está no DNA dos Kfouri. Uma pena que a maioria dos que o lêem não consigam entender, afinal, o texto é reflexivo e ‘sofisticado’ para a maioria desse pessoal que vem aqui comentar, pois, pelo jeito, não entenderam uma vírgula do que escreveu.

  • J.H

    Texto que merece ser repassado como tentativa de fazer uma faxina em nossas caixas de mensagens. Infelizmente é lamentável que muitos não consigam nem ouvir o ruído da ficha caindo próximo às suas orelhas. André seu texto deveria ser consagrado como de utilidade pública. Ouvir e ler o que gosta é mais do que evidente hoje em dia. Ótima a referencia com a política. Mal comparando, o candidato da preferência dos “eleitores” pode ser flagrado em delito criminal, e a repercussão é nula aos ouvidos de seus “fãs”. Recebi uma mensagem “denúncia” sobre determinado político, e repliquei após pesquisar que era falsa, e perdi um “amigo”. Melhor mesmo ignorar. É impossível mensurar os reais interesses do que querem ouvir ou ler “mortadelas e coxinhas”, ou entre torcedores de times de futebol. Eu particularmente não repercuto ou repasso notícias que achincalhem meu querido Timão, principalmente aquelas repetidas mil vezes de que o estádio do Corinthians foi doado pelo PT. Vai tentar explicar que isso não é verdade pra ver o que acontece? Kkkkkk(kkk é ótimo para encerrar qualquer comentário).

  • J.H

    Não é o caso deste episódio onde os Palmeirenses manifestaram seu descontentamento, diante da perspectiva de uma crise dentro de seu elenco envolvido com competições importantes, mas talvez seja o efeito de opiniões de alguns jornalistas, como alguém disse, claramente reativas. No meu caso como corinthiano, entendo que muitos corinthianos se comportem com relação a alguns jornalistas esportivos como os palmeirenses fazem aqui. Não se trata de fonte, porém todos sabem que o Corinthians enviou pedidos formais a todas as emissoras e órgãos de imprensa, para que não usassem o apelido Itaquerão, visto que tem ambições de venda possível do NOME do estádio. Nesse caso, fica explicito que todos os jornalistas que não atenderam a esse pedido (é um direito deles) objetivam prejudicar financeiramente o Corinthians. Não se trata de fofoca ou segredo de fonte, mas sim de seletividade de tratamento de acordo com preferências clubísticas ou até politicas. Em resumo, todos os portais e sites de esporte que não atenderam esse pedido, não tem justificativas honestas para justificar o porque desse comportamento. Então o corinthiano tem todo o direito de considerar como explicação do que não tem a coragem de dizer explicitamente “uso porque não gosto do Corinthians”. Em tempo, Juca Kfouri, disse explicitamente que o pedido do Corinthians era absolutamente justo. Só isso já me basta para aceitar as criticas que faz ao Corinthians.

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