Jogo real



Um fetiche da crítica superficial a equipes de futebol é a responsabilização do “sistema” por atuações e resultados frustrantes. Não no sentido utilizado por Capitão Nascimento, como uma força superior contra a qual nada se pode fazer. No jogo, trata-se da forma de atuar escolhida por um técnico ao treinar seu time e determinar como pretende ser bem sucedido. E ao contrário do que sugere o personagem de Wagner Moura em “Tropa de Elite”, culpar o sistema, no futebol, é sintoma de miopia.

O sistema não é o problema nem mesmo quando há total incompatibilidade entre a maneira de jogar e os futebolistas disponíveis. Neste caso, o equívoco está na eleição do modelo, não no modelo em si. E afirmar que um determinado treinador cometeu uma falha tão básica, sem conversar com ele e observar o que faz – e como faz – durante a semana é uma falha ainda pior. Times de futebol em formação têm defeitos de execução, ou seja, estão mais ou menos distantes da aplicação competente do sistema escolhido. A solução é continuar trabalhando, errando e acertando, se permitirem.

Outra reclamação na moda é sobre a insistência em um modelo específico de atuação, como se times de futebol pudessem ser seres camaleônicos, irreconhecíveis de uma semana para outra, ou até dentro do mesmo jogo. Ficção. Nenhuma equipe tem mais de uma personalidade futebolística, e não porque não queira, mas porque não é viável. O que existe são variações e ajustes necessários, com e sem substituição de jogadores, conforme circunstâncias, necessidades e adversários. Alguém já criticou o Atlético de Madrid por ter “apenas uma maneira de jogar”?

A questão, portanto, é a proximidade entre o que se planeja para um determinado encontro e o que se alcança em campo. É como uma nota de saída, a ser confrontada com o desempenho ao final da partida. Não é possível analisar futebol sem essa consideração, embora o jogo seja caracterizado pela imprevisibilidade e pela intervenção, às vezes decisiva, das vontades do acaso. O diagnóstico de que o Corinthians foi eliminado da Copa do Brasil porque não soube variar estilos no jogo contra o Internacional é falso; o que levou a decisão aos pênaltis foi o desempenho ofensivo abaixo do necessário.

Para um time primordialmente defensivo, como o de Fábio Carille, sofrer apenas um gol – em um lance no qual a bola sairia pela linha de fundo, bateu em Fagner e entrou – é um resultado plenamente aceitável. O Corinthians sobreviveria a esse gol se não tivesse falhado em quatro ocasiões cristalinas (duas com Jô, uma com Rodriguinho e uma Clayton) para se colocar em ótima situação. Daí se origina a leitura da comissão técnica de que não foi uma apresentação ruim. Pedir que o time se comporte na maior parte do tempo como fez após o 1 x 1 é uma descaracterização que causaria desequilíbrio e apresentaria mais problemas do que os atuais.

Pode-se gostar ou não da maneira como o Corinthians joga, ainda que seja difícil sustentar que outro modelo deveria ter sido escolhido por Carille diante das pressões com as quais precisa lidar. O que não faz sentido é reclamar a ausência de “outra cara” após uma eliminação, quando a causa foi a execução defeituosa de um aspecto fundamental para o sucesso da ideia. Ainda mais surreal é ouvir Carille falar sobre o “pior momento” de uma carreira que não completou quatro meses, exemplo máximo do desrespeito ao trabalho que marca a realidade do futebol no Brasil.

A pré-temporada é o único período em que um técnico pode transmitir os conceitos de atuação que deseja e, de fato, treiná-los. A partir do início das competições, é possível apenas relembrar o que os jogadores absorveram em maior ou menor extensão. Se já é difícil estabelecer uma ideia de jogo dentro do sistema preferido, estimulando comportamentos individuais e coletivos que não são assimilados da noite para o dia, pensar em outra maneira de atuar é uma missão para o Capitão Nascimento.



  • Gustavo Fávaro

    Excelente texto mais uma vez. Parabéns.

  • J.H

    O Corinthians criou muitas chances mas não teve eficiência nas finalizações. Criticar Carille pela derrota nos pênaltis é patético.

  • nilton

    Na minha opinião o timão tinha de ter sido eliminado pelo Brusque. Em relação ao jogo com o Inter dormir no primeiro tempo, infelizmente era um jogo para quem torcia para um dos dois times.

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