Reverência ao jogo



Há um ponto sendo espetacularmente perdido nos debates sobre a atitude de Rodrigo Caio no clássico de domingo: os elogios ao gesto do zagueiro são-paulino procuram ampliar sua relevância para fora do âmbito do futebol, ignorando que a essência do comportamento em questão está diretamente relacionada ao jogo e o que se quer dele.

A conexão que tem sido feita entre o fair play no gramado e o avanço da sociedade está na mão contrária. O futebol é reflexo do mundo, não o inverso. De modo que a multiplicação de posturas como a de Rodrigo provavelmente não teria efeito transformador no Brasil de todos os dias, pois uma das maravilhas – e tragédias – do futebol é justamente distanciar as pessoas de suas rotinas.

No Japão, apenas como exemplo aleatório e sem entrar em pormenores, o que Rodrigo Caio fez não geraria discussão. Não porque o esporte japonês é mais “puro” do que em outros países, mas porque o povo japonês o é. Uma questão de escala de valores e respeito a eles.

O gesto de Rodrigo Caio se deu em campo e deve ser discutido neste ambiente, pois tem um valor brutal para o futebol. É um oferecimento de respeito ao jogo que, isto sim, pode carregar uma esperança de progresso na forma como futebolistas agem quando estão competindo.

Em sua passagem pelo São Paulo, Juan Carlos Osório costumava dizer que Rodrigo tem “caráter de jogador de rúgbi”, em referência à maneira como o zagueiro se conduz em relação aos companheiros, os adversários e à arbitragem.

O rúgbi tem muitas aulas a dar ao futebol nessa área, em particular na dinâmica atleta-árbitro. Embora pratiquem um esporte de contato físico muito mais agressivo, jogadores controlam seus hormônios e nervos em nome de uma conduta respeitosa acima de qualquer circunstância. Brigas são raras e a arbitragem trabalha com total tranquilidade para tomar decisões sem qualquer tipo de pressão.

Rodrigo Caio trata o futebol com essa reverência, essa admiração, essa gentileza. O que ele fez é nobre, é alto, é louvável e é invejável. E infelizmente há muita gente que não consegue conviver com esse tipo de relação com coisa alguma. A repulsa de quem o critica revela a incapacidade de agir como ele.

O aspecto mais importante de ser honesto em um campo de futebol é o impacto no trabalho do trio de arbitragem, que precisa administrar não só a aplicação das regras do jogo, mas também a tendência prevalente de desrespeitar as regras para vencer. A situação, por si só, já é uma covardia. Além de haver pouquíssimos exemplos no futebol brasileiro de qualquer tentativa de colaboração com a arbitragem, o que se vê são atos deliberados para influenciar decisões para um lado ou outro.

Suponha que Rodrigo tivesse ficado em silêncio e o cartão para Jô fosse mantido. A televisão mostraria o erro de Luiz Flávio de Oliveira, que seria responsabilizado pela ausência do atacante do Corinthians no jogo de volta. E teríamos mais um encontro decisivo desequilibrado por um equívoco do apito.

A educação, no sentido mais profundo, de Rodrigo Caio, evitou tal cenário, e é esse o ponto que deve ser amplificado para que se possa imaginar como o futebol seria se a maioria dos jogadores se comportasse assim.

Aplaudir a postura de Rodrigo é necessário, especialmente para quem acredita que o árbitro deve ser menos autoridade e mais condutor do jogo, permitindo que a dinâmica dos jogadores dirija as ações. Na realidade utópica em que todos os futebolistas fossem Rodrigos Caios, árbitros não seriam necessários.

Censurar Rodrigo por ser respeitoso com o futebol é o maior dano que se pode fazer ao jogo. O espírito de competição – evocado por quem o acusa de ser bobo – precisa ser cada vez mais limpo, em nome da própria sobrevivência do futebol como algo que ocupa um lugar especial na vida das pessoas.

O jogo está acima de tudo e de todos.

Valores como classe, honra e coragem não se compram. São adquiridos por formação ou por exemplo, e geralmente causam uma tremenda inveja em quem não os possui.

Por mais jogadores como o zagueiro são-paulino nos campos de futebol do Brasil.



  • Fábio Martins

    Já que o fair play está em evidencia no meio de vocês jornalistas, tenho uma sugestão, porque durante essa semana, vocês não fazem uma campanha para que o corinthians em seu primeiro lance no jogo de itaquera, não faz um gol contra para não se beneficiar do gol irregular que teve a seu favor no Morumbi ??? Ai sim vou acreditar nos discursos dos jogadores e inclusive do treinador do corinthians, caso contrário, terei a certeza de que são apenas discursos politicamente corretos e regados de demagogias baratas!!!

    • André Kfouri

      Nonsense puro. Quanta confusão.

  • J.H

    Grande lição para todos. Desonestos são os que simulam, os que enganam os árbitros, os que discriminam, os radicais, os prepotentes, e os que não aceitam ou não toleram opiniões contrárias às suas. Pobres de espírito os que censuram. Excelente episódio, acho o mais significativo dos últimos tempos, e oportuno. Que aproveite a lição quem quiser. Quem não quiser, durma com sua própria consciência.

  • Julia Posey

    Belíssimo texto! E com a sua lucidez característica, André, o que demonstra que possui os valores que citou acima: classe, honra e coragem, principalmente a coragem para tocar em um ponto central do debate não mencionado por ninguém, mas NINGUÉM, no meio do jornalismo esportivo e do futebol, o que demonstra a pobreza moral e intelectual dessa gente que vive no meio do nosso amado esporte. Abraço.

  • Ivan

    Concordo com tudo, mas essa comparação generalizada com o Japão me incomoda. Eles demoraram 15 dias para informar os habitantes de uma região de Fukushima que a usina atômica tinha vazado, apenas por motivos de $$$. Que educação é essa?

    • André Kfouri

      Está escrito que não quis entrar em pormenores. Que sociedade você entende ser mais avançada, a brasileira ou a japonesa? Um abraço.

      • Ivan

        Nenhuma das duas, cada qual com as suas mazelas. Um abraço também.

        • André Kfouri

          “Nenhuma das duas” não responde. Todas as sociedades têm mazelas.

  • Fred Bauer

    André, algo que ninguém comentou até agora: E o erro absurdo do Luiz Flávio de Oliveira? Diferente de um falta interpretativa, ou de um impedimento milimétrico, nesse caso, não tinha como errar. Se ele realmente tivesse visto o que aconteceu, perceberia que o pisão foi do Rodrigo Caio (de meia branca!) e não apitaria nada. Por que ele deu o cartão pro Jô? Certamente, ouviu o grito do Renan Ribeiro e presumiu que o Jô tivesse acertado o goleiro do SPFC. Agora, dar cartão amarelo para um jogador com base em presunção?! É demais!

    • André Kfouri

      Sempre tomo cuidado para avaliar decisões do árbitro. Analisamos com a imagem da televisão, que é diferente da dele. Abraços.

  • Paulo Pinheiro

    Alguns pontos a respeito desse assunto.
    * Nenhuma dúvida sobre de que lado estar. O Rodrigo Caio devolveu aos torcedores uma esperança por dias melhores. Cada vez que algo assim acontece ficamos um milímetro mais próximos do que é o futebol europeu ou futebol japonês – brilhantemente lembrado pelo André.
    * Neste momento só elogios ao Rodrigo Caio, mas não acho que essa corretíssima atitude apague erros dele do passado, como a bolada covarde e violenta desferida contra o Everton (Flamengo) deitado no chão e depois uma disfarçada que foi “sem querer” ou – pior ainda – “no calor do jogo”. Espero que o gesto deste fim de semana tenha a ver com uma mudança de postura do bom zagueiro Rodrigo Caio.
    * Sobre a afirmação do Maicon, que coisa mais infeliz, hein? Como se pergunta na INTERNET: qual mãe está chorando mais agora? A mãe do Rodrigo Caio ou a do Maicon?
    * Discordo do André que essa atitude tenha efeitos somente dentro do mundo do futebol. Embora não haja uma relação direta e instantânea eu acredito que em algum lugar do Brasil tem um menino são-paulino orgulhoso de seu ídolo e que há de imitá-lo. Também acho que não fará efeito em nenhum adulto, mas penso que fará efeito no futuro do país. Nunca esqueço quando o David Luís disse que estava em um shopping em Portugal e foi abordado por uma senhora que abraçou-o emocionada agradecendo por ele ter dito em uma entrevista que amava seus pais. Ela disse que o filho dela (um torcedor do Benfica), por anos um rebelde e tratando-a com crueldade, passou a mudar o comportamento da água para o vinho. Tornou-se amoroso.
    * Por fim, sugiro que – como não estamos em um país de rodrigos caios – possamos utilizar as câmeras pra punir severamente a malandragem dos jogadores espertalhões. Em nome do bom futebol, em nome da tranquilidade dos árbitros pra trabalhar.

    • J.H

      Paulo. Mas há de se reconhecer que a exploração significativa na mídia esportiva em geral, deste fato, certamente no mínimo envergonhará, daqui para frente, simuladores contumazes. Já irão para as entrevistas após os jogos, cientes de que todos sabem o que fez, ou não fez. Evidente que é nisso que reside o maior ganho do futebol, a meu ver.
      Também inibirá certos comentaristas que até aqui eram condescendentes com atitudes dos “espertos”. Resumindo, hoje todo mundo está de olho em tudo. E está mais difícil enganar sempre, a todos. Todo mundo hoje está ligado até em excesso em alguns casos. Mas, diante de frustrações, nasce o ponderado. Oremos!

      • Paulo Pinheiro

        Ok, J.H. Mas não vejo por que não auxiliar esse processo usando os recursos técnicos que temos. Tem muito jogador – inclusive ÍDOLO – de times que a melhor especialidade é ficar jogando torcida contra o árbitro. Não produz nada além disso. Esse tipo de jogador tem que ser aposentado cedo.

        • J.H

          Concordo integralmente com você. Neste final de semana, tivemos exemplos ridículos. Até treinador simulando agressão.

  • Willian Ifanger

    André, se você pudesse ler alguns comentários de torcedores são paulinos após o gol do Cruzeiro no jogo dessa quarta-feira perceberia o quanto estamos longe de chegar a ver a luz no fim do túnel.

    • André Kfouri

      Eu li alguns em grupos de que participo. Realmente preocupante. Um abraço.

  • Klaus P.

    O mais decepcionante, para mim, foi a reação do Rogério Ceni.

    Parece-me que dois motivos o levaram a ser irônico e, assim, desincentivar a atitude do comandado: o receio de se desgastar com o grupo nessa semana decisiva (visão de curto prazo) e a mania de ser extremamente (cegamente?) competitivo – aqui entra seu ponto sobre o legítimo espírito de competição.

    Em todo caso, nada justifica tamanha negligência perante um gesto tão louvável, especialmente se considerada a envergadura histórica do ex-goleiro.

    Ratificar o gesto, por outro lado, poderia influenciar positivamente seus comandados, em diversos sentidos e, de quebra, beneficiaria o próprio treinador longamente (cursinho express com Tite faria bem).

    As melhores oportunidades quase nunca surgem no momento ideal. Essa semana passará com a, provável, dupla desclassificação e, no fim, restará o sentimento de uma imensa chance desperdiçada.

    Só para não perder o costume, mais uma análise cirúrgica, André!

    Obrigado!

    Um abraço!

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