A grande barreira



Prosseguindo com a pregação no deserto de conceitos no qual uma faceta do futebol brasileiro caminha, já cambaleante, tentando alcançar o oásis que jamais chegará: será possível que não se percebe o nonsense que é podar o trabalho de treinadores em início de carreira, especialmente quando propõem um tipo de jogo que vai além do pacote “defesa-transição-bola parada”? Qual é o ponto de criticar a carência de novas ideias e não compreender que todo processo de mudança exige prazo e paciência? Reclamar de jogos desinteressantes e perpetuar o imediatismo de resultados não é um evidente contrassenso?

O encontro entre São Paulo e Cruzeiro, na última quinta-feira, se transformou em uma espécie de simulado de um choque de estilos, como se um jogo fosse capaz de apresentar qualquer tipo de diagnóstico sobre times, sistemas, modelos. Os planos de Rogério Ceni foram criticados pelo pecado da ingenuidade diante de um oponente sagaz, Mano Menezes, que lhe deu corda até que enrolasse o próprio pescoço e amargasse o 0 x 2 no Morumbi. Pergunta: não é obviamente natural que um time que engatinha, dirigido por um técnico novato, seja superado por um adversário mais crescido, comandado por um treinador experiente?

Mano é um ótimo técnico. Vivido, bem formado, atualizado. Seus times costumam marcar muito e ter ideias claras do que pretendem, o que é confundido com defensivismo por quem vê o jogo sem profundidade. O Cruzeiro – que pressiona em posições adiantadas e mantém posse no campo de ataque – e seu excelente elenco caminham para ser um produto bem acabado de ocupação de espaços e alta produtividade ofensiva, um time construído com métodos modernos de treinamento para controlar jogos de diferentes maneiras. A vitória sobre o São Paulo foi fruto de leitura estratégica perfeita, atuação competente e um pouco de sorte.

Sim, porque um gol contra marcado pelo centro-avante adversário é o encontro do acaso com uma defesa propensa a falhar na bola aérea. Uma ocorrência que não tem absolutamente nenhuma relação com sistema de jogo. Mano, que trabalha com análise de desempenho e estudo minucioso do rival, identificou os mecanismos imperfeitos de um time que está longe da sua melhor versão e os explorou de maneira quase cruel. São inúmeros os casos em que times “de posse”, estabelecidos e bem sucedidos, são derrotados pela soma de seus erros e das virtudes do oponente. O São Paulo de Rogério ainda está nos primeiros degraus da escada.

Pedir a Ceni que possua uma “outra forma de atuar” quando ele se dedica, desde a pré-temporada, a desenvolver uma equipe de posse, posição e pressão, é supor que treinadores comandam atletas com controles remotos e o jogo de futebol é uma simples questão de ordens enviadas do banco de reservas. Mesmo se fosse assim, essa opção não estaria disponível com três meses e meio de atividade. É bastante provável que outras derrotas semelhantes aconteçam antes do aperfeiçoamento conduzir o time a uma situação em que todas as condições para vencer estarão presentes. Isto, claro, se o trabalho seguir evoluindo com tempo, peças e confiança.

Usa-se aqui o São Paulo como exemplo porque a intenção de uma nova proposta foi esclarecida desde o início e a trajetória de Ceni começou em janeiro. Mas a resistência a entender circunstâncias e objetivos é do mesmo tipo que ameaça os projetos atuais de Dorival Júnior, Roger Machado, Zé Ricardo e Eduardo Baptista. A ideia de formar equipes com características próprias e permanentes – única forma de garantir possibilidades de sucesso por temporadas em sequência – nunca florescerá nos clubes brasileiros enquanto esta barreira, que é essencialmente de conhecimento, não for superada.

(Esta coluna foi escrita antes dos jogos de domingo. Se pudesse ser escrita depois, os resultados não fariam diferença.)

(publicada em 17/4/2017, no LANCE!)



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