Lava esporte



A tempestade de lama das delações da Odebrecht atingiu de novo o esporte, para a surpresa de exatamente ninguém. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, aparece nas planilhas da empresa sendo pago para facilitar contratos relacionados aos Jogos Olímpicos de 2016. O deputado federal Vicente Cândido, diretor da CBF, é acusado de receber dinheiro para colaborar com o financiamento da Arena de Itaquera. O colossal rolo do estádio corintiano também fez surgirem verbas “não contabilizadas” para a campanha do deputado federal Andrés Sanchez (ex-presidente do clube e responsável pela obra), com envolvimento de André Negão, seu assessor e atual vice-presidente do Corinthians.

É desgraçadamente lógico que o ambiente esportivo brasileiro seja tão sujo quanto qualquer outra área de atividade no país, sem a necessidade de qualquer estímulo. Ou mais. O que se assiste agora foi cortesia da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016, quando os políticos profissionais, os políticos do esporte e as empreiteiras se reuniram para aproveitar duas oportunidades que não se repetirão. A festa da corrupção exposta é um recado especial para quem, durante tanto tempo, destilou ignorância opinativa contra as vozes que alertavam para os esquemas que enriqueceriam ladrões de terno em nome do “legado”. É seu caso? Boa Páscoa.

Metade dos estádios utilizados na Copa do Mundo do Brasil será investigada por irregularidades relatadas pelos delatores: Maracanã, Mané Garrincha, Arena Pernambuco, Arena Castelão, Arena da Amazônia e Arena Corinthians. E é obrigatório frisar que esse é o saldo de momento dos depoimentos de executivos e ex-executivos de apenas uma das empresas que mandam no país há décadas. O legado da Copa das Copas? Em seis arenas do Mundial, o público médio não chega a cinco mil pessoas, conforme levantamento feito na semana passada pelo jornal O Globo. Avisos neste sentido foram tratados como “vira-latismo” de pessimistas incorrigíveis ou preconceito da “imprensa do Sul”.

Um dos efeitos práticos da enormidade da Operação Lava Jato é o redirecionamento de recursos e membros do Ministério Público que estavam envolvidos em outras investigações. A colaboração da Justiça brasileira com autoridades americanas e suíças, a propósito do escândalo na Fifa, por exemplo, se desacelerou. Enquanto os donos do futebol no país saboreiam um período de calmaria – a ponto de executarem um plano de permanência no poder à custa da covardia dos clubes – , imagina-se o que poderia acontecer com os monarcas olímpicos se as apurações pós-Rio 2016 estivessem com o pé embaixo. Quantas confederações estariam na pele da CBDA? Quantos cartolas, na de Coaracy Nunes?

Por ora, a podridão do esporte chega à superfície como efeito colateral de exames que tinham propósitos distintos. Ou, em outros casos, mais lentamente do que se pretendia. Faz todo o sentido calcular o que resultaria de uma versão esportiva da Lava Jato, uma vez que o dinheiro que circula nesta indústria só aumenta e os mecanismos de regulamentação e fiscalização são, com gentileza, tímidos. Empresas estatais investem verbas públicas no esporte de alto rendimento há vários ciclos olímpicos, em montantes na casa dos bilhões de reais. Considerando apenas o que se sabe hoje, seria “pessimismo” (ou vira-latismo?) duvidar que a gestão desses recursos é honesta?

CRUEL

Se o árbitro que apitou Vitória x Paraná Clube tivesse personalidade, não mostraria cartão amarelo a um jogador que tirou a camisa para homenagear um irmão morto no acidente da Chapecoense. Se a CBF estivesse preocupada com o futebol, anularia o cartão aplicado a Guilherme Biteco. Todas as características de um caso excepcional estão presentes, até como prestação de solidariedade às vítimas – que não são apenas as pessoas que perderam a vida – de uma tragédia do futebol.

(publicada em 15/4/2017, no LANCE!)



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