Desumanizados



DESUMANIZADOS

Um time de futebol foi alvo de um atentado a bomba a caminho do estádio, e teve de disputar um jogo da Liga dos Campeões vinte e quatro horas depois. O que aconteceu com o Borussia Dortmund é uma propaganda da insensibilidade disseminada no mundo de hoje, e mais um sinal da redução de futebolistas a seres inanimados, responsáveis pelo entretenimento alheio sem que se deva considerar nenhuma outra circunstância.

“Todo jogador, todo ser humano, e este foi um ataque a nós como humanos, pode ficar paralisado por isso”, disse o técnico Thomas Tuchel após a derrota de ontem para o Monaco, como crítica ao tratamento que seu time recebeu da Uefa. “Fomos tratados como se tivessem jogado uma lata de cerveja no ônibus”, prosseguiu. Tuchel informou que não foi consultado sobre as condições de seus jogadores para entrar em campo, revelando desconforto com a decisão tomada, à distância, de adiar a partida para o dia seguinte.

Eram três os explosivos colocados em uma esquina do trajeto do ônibus do Dortmund, logo após a saída do hotel em que o time se concentra, no caminho para o Signal Iduna Park. Havia pregos nas bombas que estilhaçaram os vidros do veículo, uma clara intenção de matar. Um dos pregos foi encontrado encravado em um encosto de cabeça, prova de que o ataque poderia ter produzido mais vítimas e casos mais graves que o do zagueiro Marc Bartra. Uma fratura na mão direita e pedaços de vidro retirados cirurgicamente do braço são ferimentos leves diante do risco envolvido.

“Não vou esquecer as expressões nos rostos [dos companheiros] por toda a minha vida”, declarou o meiocampista Nuri Sahin, mencionando o que se passou no ônibus após as explosões. O fato de o atentado não ter atingido seu objetivo mais cruel provavelmente foi levado em conta para que a roda continuasse em movimento após um breve intervalo. Não há manuais para esse tipo de situação, mas é infantil imaginar que um dia é suficiente para que pessoas processem uma tentativa de assassinato e estejam aptas a fazer seu trabalho.

Mas a desumanização de atletas é uma faceta do esporte visto apenas como espetáculo, em que interesses, prejuízos, cláusulas e logísticas falam mais alto. O bestialógico – repetido por ignorantes com microfones – que despreza a ciência ao sugerir que jogadores de futebol podem atuar mais de uma vez por semana, sem queda de desempenho ou risco de lesão, simboliza essa visão desrespeitosa. Daí a se achar normal que uma mensagem enviada da Suíça determine que vítimas de um atentado a bomba estejam em campo após uma noite mal dormida. 



  • Muito bonita sua visão André, boa reflexão!

  • Pingback: Desumanizados  | Dono da Bola 1903()

  • Alisson Sbrana

    Outro texto bom de guardar como dos mais bem escritos sobre um tema.

    E sinto até vergonha de não ter pensado nisso enquanto assistia ao jogo da Juventos contra o Barcelona (tive que ver pela globo/ sobre o “outro” jogo ser no dia seguinte). Talvez o fato de apenas um jogador (como se fosse pouco) tenha tido ferimentos leves (como se fossem leves) tenha feito a questão entrar naquele território mental em que qualificamos “tragédias inomináveis” como “coisas do dia-a-dia”.

    Como aquela parábola do tigre que escapou do zológico no domingo, invadiu uma mesquita na hora do ritual da segunda, matando dezenas de pessoas. Invadiu novamente na mesma hora terça, matando outra dezena. Na quarta, novamente, na mesma hora do ritual, outra dezena de mortes. Na quinta o tigre foi incorporado ao ritual. (Está contada como me lembro, mas não sei se é bem assim essa parábola, porém funciona muito bem para metáfora de como é possível nos acostumar com as desgraças que nós mesmos produzimos).

    Uma estudante morrer executada dentro de uma escola. Um homem ser abusivo contra uma mulher em rede nacional de televisão. Um país usar uma bomba gigantesta em outro país. Mais uma trans assassinada em algum lugar apenas por ser trans. Uma criança com fome pedindo esmolas para drogas ali na esquina. Mas, hoje temos futebol. Dane-se.

    Obrigado pela reflexão.

    • André Kfouri

      Eu que agradeço pela leitura e pela conversa. Um abraço.

    • J.H

      Parabéns pelo seu texto também Alisson,

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