Torneios de ensaio



Há um problema mais grave do que o número de datas do calendário reservadas aos torneios estaduais, o impacto negativo dessas competições no planejamento dos principais clubes brasileiros, ou mesmo a longa etapa constituída por jogos irrelevantes – independentemente do nível de ridículo dos formatos de disputa, que acompanha o nível de vergonha dos cartolas – até que o interesse aumente com o inevitável encontro de camisas rivais: a importância que se dá aos resultados obtidos, especialmente daqueles dos quais mais se espera, em um momento do ano que deveria ser dedicado a ensaios.

Já é antigo o raciocínio de que os estaduais servem para envenenar trabalhos muito antes do prazo mínimo de análise. Seja porque a derrota em um “clássico decisivo” se transforma em um motivo para fazer mudanças, seja porque a vitória causa a impressão errada sobre o real potencial de um time. A supervalorização desses torneios é adversária de todas as comissões técnicas, as que começaram seus projetos na pré-temporada e as que conseguiram o feito de permanecer empregadas de um ano para outro. Mas essa realidade tem um aspecto ainda mais cruel.

Os torneios estaduais existem para manter a influência das federações, os cartórios do futebol que sobrevivem nos dias atuais por causa do casamento entre a incapacidade dos clubes e a política imposta pela CBF. Mesmo com o declínio de sua importância esportiva cada vez mais notável, as competições organizadas pelas federações ainda têm valor do ponto de vista orçamentário, no que se apresenta como uma troca de futebol desinteressante por cotas sedutoras. A manutenção do status dessas entidades – e de seus dirigentes – tomou o lugar do jogo, e esse é problema.

Porque o jogo é produto do que se trabalha no dia a dia no campo de treinamentos, com objetivos pré-determinados para todas as vertentes da construção de equipes. Quando resultados alcançados em uma fase tão precoce ganham o peso de avaliações quase que definitivas, a porção do calendário que de fato interessa fica imediatamente comprometida. É inacreditável que, para satisfazer a uma pretensa necessidade de opiniões periódicas a respeito do estado de times de futebol, julgamentos sejam feitos no terceiro mês do ano. E é deprimente que tais julgamentos tenham repercussão no destino de quem faz o esporte diariamente.

Os torneios estaduais devem ser vistos como uma extensão da pré-temporada, o estágio em que ideias são testadas em competição – algo absolutamente necessário – e os diversos relacionamentos que existem dentro das equipes começam a se formar. Dessa maneira, ainda se trata de um período experimental em que a prioridade é observar desempenhos e verificar efetividades. Em outros termos, enxergar os estaduais como laboratórios é a única forma de conferir a eles o papel que merecem na formação de times, evitando que esse processo seja corrompido por resultados que não importam.

ESTÁ BEM

Um exemplo cristalino: o Palmeiras de Eduardo Baptista, criticado ferozmente nas primeiras SEMANAS do ano, e que agora começa a mostrar as associações ofensivas que não podem ser aceleradas conforme a vontade alheia. É necessário que se respeite o trabalho.

FOI MAL

Neymar, elogiado neste espaço há uma semana por seu jogo exuberante e sinais de amadurecimento, teve uma recaída na derrota do Barcelona para o Málaga, no sábado. Expulso por dois cartões amarelos incontestáveis em um encontro que poderia levar seu time à liderança do Campeonato Espanhol, o astro brasileiro passou a um comportamento ainda mais prejudicial ao sair de campo: aplaudiu ironicamente o quarto árbitro. O regulamento disciplinar do futebol espanhol é claro em relação a “atitudes de menosprezo ou de desconsideração”, com previsão de suspensão de dois a três jogos. Neymar pode perder o clássico com o Real Madrid.

(publicada em 10/4/2017, no LANCE!)



  • Paulo Pinheiro

    André, os estaduais também servem pra mais uma coisa: tirar a esperança dos torcedores e clubes de um horizonte com uma arbitragem melhor.
    O que aconteceu no Botafogo x Fluminense foi uma lástima.
    Sim, o Botafogo tinha tudo pra vencer mesmo sem aqueles erros. Não o Fluminense não deu a mínima para a partida (mandou reservas pra preservar a equipe).

    Mas era uma SEMIFINAL de uma disputa de taça. Não é o tipo da partida em que se entra desconcentrado.Pior, o referido assistente é considerado o melhor do Estado do RJ. Lástima.
    Mas se por um lado o nível técnico não ajuda os que dirigem a arbitragem também tem sua parcela de culpa. Veja que após afastarem o árbitro e o auxiliar que cometeram aquela lambança no clássico Vasco 2 x 2 Flamengo (com o pênalti da “mão da barriga”) o auxiliar – o maior responsável pelo erro – já voltou a atuar. Como disse um blogueiro: não foi uma geladeira, foi um frigobar.
    O fato de ele ter voltado e o árbitro continuar fora nos leva a pensar se os motivos do afastamento foram mesmo o pênalti inexistente e o gol legítimo anulado ou se foi porque ele ousou expulsar o Luís Fabiano, “ídolo” do clube amigo da Federação…

  • Ailton Souza

    Caro AK

    Quando será que poderá ser dito com todas as letras que o Neymar já está maduro, sem correr o risco de num momento mais a frente de adversidades ele te uma recaída?

    Abraços

  • Ailton Souza

    Caro AK

    A mídia esportiva pede sempre maturidade e profissionalismo dos dirigentes esportivos, mas quando esta mesma mídia terá um comportamento de não pressionar técnicos sem o devido tempo de se apresentar um trabalho?
    O Guardiola é um excelente treinador, entretanto começar treinando Messi, Iniesta e Xavi, entre outros não facilitou o seu trabalho inicial?

  • nilton

    Continuo achando que há dois nó no nosso calendário, Libertadores/Sul Americana e os
    Estaduais, Se a Libertadores e a Sul Americanas forem disputadas na
    mesma semana e ocupando apenas 20 “datas” 4 na Fase pre, 6 na Frase de
    Grupo, 4 na Oitavas, 2 na Quarta/Semi/Final como é na Europa (com
    exceção da Final) metade dos problemas de data esta resolvido. A outra
    metade chamada de Estadual é meio complicada já que a mesma serve para
    indicar os representantes na Serie-D, minha sugestão seria reduzir o
    Brasileirão A e B de 20 para 16 Times (redução de 8 “datas”) sendo
    jogados ao Fim de Semana entre Fevereiro a Novembro com as paradas para
    atender a Seleção (como é na Europa e não esta farsa que a CBF montou),
    aumentaria a Serie C para 40 times “mantendo” o formato de hoje (4
    grupos de 10 e 26 datas), aumentaria a Serie D para 80 times (8 grupos
    de 10 e 28 datas). E colocaria a Copa do Brasil e Estaduais (no sistema
    mata-mata ou até mesmo no mata-jogo único) nas data que sobrasse.

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