Máquina 



Um clipe de cinquenta e quatro segundos do amistoso entre Alemanha e Inglaterra, disputado no último dia vinte e dois, circulou online anteontem. É o movimento completo que antecedeu o gol de despedida de Podolski da seleção alemã, um laser de pé esquerdo, de fora da área, contra o qual o goleiro Joe Hart nada pôde fazer. É bem provável que você se lembre do chute, da assistência de Schurrle, talvez até do passe de Kroos. Mas a forma como os alemães criaram o lance que lhes deu a vitória por 1 x 0 é mais importante do que o resultado do jogo ou seu significado (perdão, Lukas) para o autor.

A ação começa com um longo recuo do lado esquerdo para Ter Stegen, que seria acionado outras duas vezes durante o processo de retirada da bola do campo alemão. Até cinco jogadores da Inglaterra aplicam a pressão alta, bem próxima à área, ocupando espaços em posições cada vez mais adiantadas, na medida em que os defensores germânicos oferecem uma clínica de passes “perigosos”. Em três ocasiões, e com a colaboração de três jogadores distintos, Ter Stegen faz a bola sair da área pelo centro da defesa. Na última, Kimmich sai do lado direito para recebê-la no meio e atravessar o campo até entregá-la a Schurrle, dez metros em território inglês, quase colado na linha lateral.

Paciente e com gelo nas veias, a Alemanha esbanja controle na fase mais arriscada do movimento. A cada recuo para o goleiro ou para os zagueiros abertos e profundos, os jogadores ingleses se animam a avançar mais. Imaginam a oportunidade de um desarme fatal, mas, de fato, caem na armadilha que os distancia e produz espaço para a bola sair. Kimmich avança pela fresta que resulta exatamente dessa desordem. Quando a bola atravessa a metade do campo e chega a Schurrle, na direita, não há nenhuma opção de passe para a frente, e ele a retorna a Kroos, no grande círculo. É o instante em que a máquina alemã ativa seu perfil agressivo.

Kroos domina com o pé esquerdo e olha para Hector, do outro lado do campo. O lateral-esquerdo flutuou por seu corredor durante todo o tempo, sem tocar na bola uma vez sequer. Agora, surge na ponta-esquerda, criando um “dois contra um” (com Sané) sobre Walker. Hector ensaia uma corrida em diagonal para receber a bola às costas do lateral inglês, que, atento, se move e estica a linha de quatro defensores. Hector recua, seu trabalho está feito. Pois o melhor passador alemão carrega a bola até a intermediária e tem quatro companheiros intercalados entre os zagueiros da Inglaterra, além de Schurrle, que correu da direita para o meio, entre linhas.

Podolski acompanha o avanço de Kroos, como apoio. De frente para o gol de Hart, ele sabe que é uma opção conforme a escolha de passe do meiocampista do Real Madrid. Kroos ativa Schurrle, que faz um toque de pivô para Podolski ajeitar e disparar. Da saída à conclusão, conceitos do jogo de posição exibidos com todos os requintes técnicos. A bola que sai limpa, com calma, permite que o time se mova de maneira organizada e ocupe o campo ofensivo com superioridade numérica, gerando problemas para o adversário e oportunidades para jogadores talentosos. Ações coordenadas, associações constantes, futebol de ataque em seu nível mais alto.

TEMPO

Joachim Low dirige a Alemanha desde julho de 2006. Tite dirige o Brasil desde setembro de 2016. O crescimento do desempenho da Seleção Brasileira nos últimos seis meses é monstruoso, especialmente se considerarmos as dificuldades para trabalhar com dois treinos “reais” e com jogadores que atravessam o oceano para se apresentar a cada rodada das Eliminatórias. Existem diversas razões para acreditar em um grande time, pois é isso que a Seleção já demonstra ser hoje. Mas daí a ser o melhor, vamos com calma. O período até a Copa do Mundo pode ajudar muito, pois tudo o que técnicos competentes precisam é de tempo.



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