Um ano



Não faz muito tempo, um treinador da Seleção Brasileira justificava a posição alarmante nas Eliminatórias Sul-Americanas com declarações em série sobre a “histórica dificuldade” de classificar o país para a Copa do Mundo. “Vai ser disputado até a última rodada”, dizia. O discurso lhe servia como o do mecânico que faz cara de preocupação antes mesmo de descobrir qual é o defeito do carro.

O tempo passou, o treinador foi substituído e a viagem à Rússia está assegurada com quatro datas de antecedência. Oito vitórias (em partidas oficiais) seguidas, vinte e quatro gols marcados, dois sofridos, e o resgate de uma forma de atuar que parecia sepultada pela visão entristecida de futebol que corroeu a Seleção e sua relação com o público. O mentiroso conflito entre jogar e vencer novamente exposto para constranger os amantes do futebol vulgar.

É curioso que, agora, o recurso para relativizar o desempenho do time seja apontar para o que ele ainda não fez: medir-se contra seleções europeias de elite. O torneio classificatório da América do Sul subitamente deixou de apresentar a extrema exigência outrora mencionada. Como se golear argentinos e uruguaios com placares que traduziram o domínio completo desses encontros tivesse menor valor, pois, afinal, não se trata da Alemanha.

Uma avaliação bem informada sobre a forma da Seleção Brasileira só poderá ser feita quando tivermos todos os elementos. Eles estarão disponíveis após amistosos contra as melhores adversárias do mundo, um desejo da comissão técnica para que a evolução que começou em setembro de 2016 continue até a Copa. Mas o que está adiante no caminho não pode ser utilizado para desvalorizar o que já se percorreu, porque não é pouco.

Conquistados os pontos necessários para ir ao Mundial, o que o time de Tite apresenta, acima de qualquer outro aspecto, é um permanente desejo de protagonismo coletivo. A intenção de impor sua vontade em campo. E o movimento do terceiro gol contra o Paraguai é o bálsamo de um jogo que, por tanto tempo, a Seleção esqueceu de praticar. Coutinho se aproximou para gerar superioridade numérica do lado esquerdo, na trama com Neymar, Marcelo e Paulinho. Um gol com passaporte.

O Brasil não está pronto para a Copa e nem atingiu seu melhor nível antes da hora. O que desperta elogios fora do país, e talvez até certo temor, é o indubitável diagnóstico de que finalmente existe um time que se veste de amarelo e joga futebol de ataque. Um time que tem um ano para amadurecer. Há duas maneiras de encarar essa oportunidade. Tite já escolheu a dele.

(publicada em 30/3/2017, no LANCE!)

 



  • Francisco Alves de Sousa

    Texto sóbrio no conteúdo e na forma respeitosa aos fatos ocorridos.

  • Pablo Romero

    Soy Argentino y les digo: Brasil es serio candidato a ganar Rusia 2018.
    El gigante volvió.

  • erico Lanza da Silva

    Posso te parafrasear André? E o caminho é mais importante do que a chegada, então não sabemos o que acontecerá, mas temos uma equipe que propõe o jogo e fica vendo o jogo sendo proposto aguardando uma bola.

    Temos uma equipe aguda que pressiona um ferrolho e não uma equipe que fica passando a bola para o lado esperando um chute despretencioso entrar.

    Exigir o hexa não é justo, só ver nesse processo quantas equipes que jogaram o fino do fino da bola ficou para atrás, mas temos uma identidade um estilo que caracterizou o que Guardiola falou na coletiva contra o Santos.

    O caminho sempre será mais importante que a chegada.

    Parabéns pela infinita inspiração. E sorte a nossa.

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