Jogarás



A Seleção Brasileira passou em duas provas em Montevidéu: a do ambiente intimidador e a da desvantagem no placar contra um adversário temido. Ambas foram apresentadas simultaneamente, e da maneira mais problemática, pois o gol de Cavani saiu antes dos dez minutos, configurando a clássica situação usada como desculpa por tantos treinadores: “sofremos o gol cedo e tudo ficou mais complicado… não é fácil jogar aqui, ainda mais saindo perdendo… tivemos de nos abrir um pouco e o/a (nome do adversário) se aproveitou…”.

Sim, o Brasil sofreu um gol precoce e a tarefa ficou mais difícil do que era até o sétimo minuto, mas o recurso utilizado – coletivamente – em um momento de pressão foi jogar. Aí está a principal distinção entre o time atual e as últimas versões da Seleção, independentemente dos resultados que obtiveram: o jogo é o fundamento de onde tudo emana, em qualquer lugar, contra qualquer oponente, pois só ele traz a convicção sobre qual caminho seguir e até onde esse caminho irá. Nada, além do jogo, oferece segurança diante da dificuldade.

Vitórias fora de casa em clássicos sul-americanos, algumas com placares semelhantes ao de 4 x 1 sobre o Uruguai, não são raridades na história recente. O que diferencia a noite de anteontem é a forma, o como. A questão, portanto, não é vencer. Para um time com o universo de talento da Seleção Brasileira, os pontos ao final de um jogo jamais podem ser o único fim. Dunga disse que não queria “ter razão, apenas ganhar”, esquecendo-se, entre tantas e tantas coisas, de que é necessário ter razão futebolística para reunir maiores chances de alcançar o resultado. As sete vitórias de Tite exemplificam essa ideia.

No Centenário, o Brasil trocou 573 passes, mais do que o dobro do Uruguai, embora a diferença de intenções deva ser considerada. Apenas doze por cento desses passes foram longos, evidenciando o futebol associado que tem sido o padrão do time desde a vitória sobre o Equador, em setembro do ano passado. Além da fluidez para sair do próprio campo nos poucos minutos em que o placar lhe foi desfavorável, a atuação da Seleção foi caracterizada pelo controle que a posse (76% no primeiro tempo, 69% ao final) oferece, mesmo correndo riscos a cada vez que a bola visitou a área de Alisson pelo alto.

E em lugar de uma postura cautelosa – tradução: medrosa – no retorno para o segundo tempo, utilizando o empate parcial como justificativa para especular, a Seleção Brasileira atuou para decidir o encontro. A jogada do segundo gol teve origem em uma cobrança de lateral, de Marcelo, na esquerda. A bola foi levada ao lado oposto, entrou pelo centro, voltou a sair para a direita até o Coutinho acionar Firmino para a finalização. Lance construído com claro propósito de desordenar a defesa adversária e preparar o passe incisivo, típico de times que preferem determinar a própria sorte.

A ótima nota nas provas simultâneas é mais uma etapa da formação, que está longe de ser concluída. Vitórias em sequência na América do Sul causam boas impressões e sensações ainda melhores, mas a missão é chegar à Rússia com uma equipe amadurecida em todos os aspectos. Ainda há experiências a acumular, erros a cometer e, muito provavelmente, derrotas a absorver. Em qualquer caso, parece cada vez mais claro que este é um Brasil que decidiu se reencontrar com o jogo. Quem faz essa escolha nunca se arrepende.

TRAMOIA

Nada é mais próximo do político brasileiro médio do que o dirigente de futebol. Em estética, em discurso, em ideias e na maneira como operam. Nada é mais próximo do que há de pior na política brasileira do que a CBF. A tramoia perpetrada nesta semana, diminuindo a voz dos clubes e fortalecendo as federações-cartórios, tem todas as impressões digitais do que se faz em Brasília à meia-luz. As questões que se apresentam são as de sempre: os clubes estão preocupados? Continuarão em silêncio e imóveis?

(publicada em 25/3/2017, no LANCE!)
 



  • nilton

    Abertura da Coluna do Tostão:
    “A seleção brasileira já está pronta. O perigo é ter ficado pronta antes da Copa.”
    Conseguiu tirar um pouco da minha felicidade a atual fase da seleção.rss

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