Fortalezas



“O Brasil pode fazer muitas coisas no jogo, mas não pode fazer nada contra nossa força psicológica, contra o [sentido de] não nos rendermos e superar as dificuldades”. A frase de Óscar Tabárez ilustra dois aspectos da partida desta noite em Montevidéu, encontro dos dois primeiros colocados nas Eliminatórias da América do Sul para a próxima Copa do Mundo: o que se tem e o que se deseja.

A força mencionada por Tabárez é um dos pilares do time que ele comanda desde 2006, um traço tão conhecido ao redor do mundo do futebol quanto o tom de azul da camisa. O Uruguai não perde para nenhum adversário no quesito da fortaleza mental, fator que já conduziu a seleção a resultados surpreendentes em termos meramente futebolísticos. É algo que supera a confiança.

Essa habilidade é especialmente importante para um time que precisa do máximo de cada um de seus jogadores para ser bem sucedido, sempre, e os une em um “modo gaulês” que, se estivesse presente em equipes privilegiadas com fartura técnica, as tornaria imbatíveis. Mas, ainda nas palavras de Tabárez, “tudo é um respaldo para o [aspecto] futebolístico”, e há ocasiões em que o Uruguai carece do principal. Será possível vencer o Brasil apenas com espírito?

A equipe que visitará o Centenário exibe a invejável combinação de crescimento com resultado, mas ainda não experimentou uma noite como a desta quinta-feira. De certa maneira, e sem minimizar dificuldades reais, a trajetória do Brasil de Tite nas Eliminatórias se deu de acordo com o roteiro que o técnico escreveria. O estádio em que os gauleses se conectam com seu povo não admite esse conforto.

Como Tite disse algumas vezes, ocasiões dessa natureza testam e também preparam, oferecem uma boa amostra de comportamento sob pressão e permitem que um time de futebol se conheça melhor. Por característica, a Seleção Brasileira não possui a força mental dos uruguaios, seu nível de crença em si mesma se alimenta de jogo e, mesmo sem a presença de Luis Suárez, a noite de hoje representa a maior exigência desde o início do trabalho.

O exame seria ainda mais difícil se o Brasil precisasse dos pontos em disputa para cumprir o objetivo de estar no Mundial da Rússia, uma questão matemática que, sabe-se, estará resolvida cedo ou tarde. Mas nunca se deve diminuir a transcendência de um clássico dessas proporções, ainda mais quando uma vitória significa superar o que o rival tem de melhor. O raciocínio vale para os dois lados, que sabem perfeitamente o que têm e o que desejam.

(publicada em 23/3/2017, no LANCE!)



  • Edouard

    “É difícil enfrentar essa gente”.
    Sempre que Brasil e Uruguai se enfrentam, eu procuro o texto do Giorgetti Nesta ocasião, o Google me mandou para uma coluna do Juca Kfouri, de 2013, em que ele simplesmente transcreveu o Giorgetti, e, na edição de hoje na Folha, seu pai (permita-me falar assim) voltou a lembrar do texto. Me agrada pensar que o respeito pela Celeste é cultura desportiva passada de pai para filho.
    Tenho para mim que Brasil x Uruguai é um clássico com camisas mais pesadas do que Brasil x Argentina. É evidente que os hermanos representa uma escola que rivaliza mais, em termos de estilo e em nível mundial, com a brasileira. E odiamos perder para os argentinos mas, me parece, isso é todo o sentimento que há. Contra os uruguaios, arde a cicatriz aberta em 1950 e é sempre uma oportunidade que eles têm de passar na nossa cara aquilo que esperamos do time canarinho (fibra), enquanto que nós temos, para desassossego deles, tradição de futebol vistoso e cinco estrelas na camisa.
    É isso, quando você diz “O raciocínio vale para os dois lados, que sabem perfeitamente o que têm e o que desejam”, penso que o que ambos desejam tende a ser justamente o que o outro lado esbanja.
    Um abraço.

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