Sem casca



Não é raro ver bananas nos campos de futebol da Europa. Com certa frequência, a fruta conhecida por ser rica em potássio é arremessada na direção de jogadores negros, carregando ofensas primitivas com as quais ainda somos obrigados a conviver. Daniel Alves até deu uma mordida em uma antes de bater um escanteio em um jogo do Barcelona no estádio do Villarreal, em abril de 2014. Anteontem, porém, a banana que surgiu em Old Trafford fez uma aparição incomum, e, mais importante, totalmente benigna.

Durante o segundo tempo do encontro da Liga Europa da Uefa contra o Rostov, o defensor Marcos Rojo, do Manchester United, aproximou-se do banco de reservas e pediu uma banana. Foi a maneira que o jogador argentino encontrou para recuperar seus níveis de energia em plena competição. Diferentemente do que acontece no tênis, por exemplo, em que o hábito de comer nas interrupções entre games é prevalente, jogadores de futebol costumam se preocupar mais com a hidratação. É normal se alimentar no intervalo, no vestiário, mas não em ação.

A rápida refeição de Rojo foi uma solução de emergência. E de acordo com o técnico José Mourinho, um reflexo direto do sacrifício físico a que seu time tem sido submetido em competições do futebol inglês concomitantes com a Liga Europa. Rojo estava exausto porque o United jogou na noite de segunda-feira contra o Chelsea, pela Copa da Inglaterra, e recebeu o Rostov três dias depois. O treinador português – que também associou a lesão muscular de Paul Pogba ao excesso de jogos – tem reclamado ostensivamente do calendário, sinal de que nem tudo é perfeito na elite organizacional do futebol.

E não é mesmo. Além do escasso tempo de descanso por imposição da programação de jogos, a semana do Manchester United foi ainda mais desgastante do que deveria, e por culpa do clube. O motivo é embaraçoso: após a derrota para o Chelsea, o ônibus do United levou os jogadores para o aeroporto Heathrow, onde um avião fretado deveria aguardá-los para a viagem de volta a Manchester. Ao chegar, eles receberam a notícia de que o avião estava fora do país e pousaria em Londres às duas e meia da manhã. Mourinho determinou que pegassem a estrada durante a madrugada.

O United é um dos clubes mais importantes do mundo e vive em um ambiente considerado exemplar no aspecto estrutural do futebol, razões pelas quais notícias como essas são constrangedoras. O risco moral é avalizar problemas de organização em outras partes, como o Brasil, ou, pior, alimentar as teses de quem diz que “futebol é quarta e domingo”, que técnicos reclamam demais e que “se eu ganhasse o que esses jogadores ganham, correria o dobro”. Como se as comissões técnicas de clubes desse nível, incluindo as brasileiras, fossem formadas por curiosos sem embasamento científico para o que fazem e dizem.

O calendário na Inglaterra é reconhecidamente exigente, influenciado por duas copas nacionais e o sagrado festival de jogos na virada do ano. Os clubes envolvidos em torneios europeus obviamente sofrem ainda mais. Nada disso é novidade para Mourinho, que tantas vezes elogiou o futebol inglês. Ele certamente sabe que, se o Manchester United alcançar a final da Liga Europa, jogará uma vez a cada três dias até o final da temporada. Um estoque de bananas ao lado do banco de reservas pode ajudar, assim como reservar o avião para a hora certa.

MISTÉRIO

Dos times brasileiros que atuaram pela Copa Libertadores nesta semana, o que jogou melhor foi o Flamengo, derrotado pela Universidad Católica. Se o futebol fosse um jogo em que o desempenho garantisse o resultado em qualquer ocasião, o time de Zé Ricardo teria somado três pontos no Chile e seria líder de seu grupo. Mas uma parte da fantasia desse esporte está na possibilidade de vitória de quem joga menos, o que pode ser tão difícil de entender quanto o fato de uma escalação “defensiva” produzir mais finalizações do que o adversário.

(publicada em 18/3/2017, no LANCE!)
 
 



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