Na boa…



Algumas perguntas a Rone Moraes, presidente do Boa Esporte, que quis dirigir a entrevista de apresentação de Bruno com interrupções do tipo “isso não está na pauta”: qual era, exatamente, “a pauta”? O clube esperava que todos os questionamentos da sessão fossem agrados sobre segundas chances e oportunidades para que Bruno demonstrasse gratidão? Não teria sido melhor apenas produzir uma declaração e fotos com a camisa?

É inacreditável, mas realmente parece que o plano para a chegada de Bruno era controlar a mensagem, como se fosse possível desligar as reações negativas à ideia – e o que ela significa – de gerar repercussão com a contratação de um homem que cumpre pena por um crime horroroso. A recusa do goleiro a responder cada questão óbvia e obrigatória sobre sua condenação revela a intenção de fingir que Eliza Samúdio não foi assassinada, ou que Bruno não tem nada a ver com o caso.

Os dirigentes do Boa Esporte precisam ser chamados de volta à realidade: isso não tem nada a ver com “segunda chance”. Nada. Essa é a maquiagem que algumas mentes que se consideram espertas tentam aplicar a uma “ação de marketing” que estabelecerá um recorde de infelicidade e já deu errado em pouquíssimo tempo. E se Bruno, por ingenuidade (cenário improvável, claro), foi levado a acreditar que o Boa quer ajudá-lo, que acorde e perceba que está sendo usado por gente que rivaliza com ele em escrúpulos.

O clube que hoje está em Varginha apenas quis gerar atenção com a exploração do mundo cão disfarçada de recuperação de um criminoso. Atenção se converte em interesse, que normalmente se converte em cifrões. Só que o criminoso tem uma noção ficcional de justiça, não compreende o funcionamento das coisas, não passa nem perto de se mostrar arrependido. Bruno age como se tivesse tomado uma multa de trânsito e aguardasse o telefonema do despachante com o resultado do recurso. O Boa age como se a opinião pública não fosse capaz de diferenciar uma multa de um homicídio.

A indignação é automática. A fuga de marcas que estavam associadas ao clube, lógica. E a repercussão – até fora do Brasil – da contratação de Bruno ainda pode acelerar o andamento da Justiça e fazer do que estamos assistindo um breve espetáculo de demagogia e insensibilidade. Já seria péssimo, mas não tanto quanto ver Bruno em campo em jogos nos quais o futebol será um acessório. O Boa Esporte poderia reconhecer que fez tudo errado, pedir desculpas e tentar se distanciar dessa ideia incompreensível. Afinal, tudo tem solução. Menos a morte.

(publicada em 16/3/2017, no LANCE!)



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