Falso exame



Uma das armadilhas dos campeonatos estaduais, do ponto de vista dos clubes grandes, é a leitura equivocada do potencial de cada um. Uma das armadilhas dos clássicos nos campeonatos estaduais, por vezes mais interessantes do que a própria competição, é a leitura equivocada do que significam. A possibilidade de um jogo isolado expor verdades a respeito de um time de futebol é mínima, ainda que esse jogo tenha grande transcendência. No caso de um encontro no segundo mês da temporada, a procura de respostas e a confecção de teses são exercícios fúteis, gerados pela incompreensão do funcionamento de equipes e pela urgência de apresentar explicações temporárias para tudo. Mesmo que seja necessário negá-las poucos dias depois.

A vitória do Palmeiras sobre o São Paulo, anteontem, foi mais uma dessas ocasiões. O jogo de extensa tradição e enorme rivalidade sempre é observado com olhares mais atentos e analisado como se fosse um exame. Por algum motivo, considera-se obrigatória uma avaliação definitiva sobre o resultado, o desempenho dos times e suas causas, como se, no dia seguinte, houvesse um recesso no qual cada comissão técnica se debruçará sobre essas informações e preparará seus jogadores para o próximo confronto. Ocorre que essa dinâmica é alheia ao dia a dia dos clubes, porque a montagem e os ajustes na formação de equipes não se dão como se os clássicos fossem eventos especiais, nos quais virtudes e defeitos são exibidos para oráculos distribuírem notas.

Supõe-se que esse tipo de encontro submete os times a níveis mais exigentes de competição, e muitas vezes é verdade. Mas tal contexto não pode significar que o que se passa em campo seja explicado apenas por isso, ou que conclusões sejam indiscutíveis. O Palmeiras se propôs a marcar o início da construção de jogo do São Paulo, e o fez com eficiência. O que não quer dizer que o time de Ceni se veja obrigado a buscar uma maneira diferente de atuar, pois essa é uma questão de convicções e treinamento. A tarefa são-paulina é seguir trabalhando naquilo que sua comissão técnica pretende, buscando uma execução cada vez melhor. Porque se a cada insucesso for conferido um caráter definitivo, não há projeto que tenha alguma chance de vingar.

O mesmo vale para o acompanhamento do time de Eduardo Baptista, que certamente não recebeu nenhum pedido de desculpas dos experts que clamaram por sua demissão há alguns dias. A forma como o placar de 3 x 0 foi obtido não impõe, sob nenhum aspecto, uma mudança de trajetória em relação ao jogo que Baptista procura implantar. O que se viu foi um time capaz de responder às necessidades estratégicas de uma ocasião específica, experiência que colaborará nas campanhas do Palmeiras durante o ano. Por causa da confusão sobre o que é modelo (conceitos que compõem uma maneira de atuar), plano (aspectos de atuação em determinada partida) e sistema (distribuição dos jogadores em campo) de jogo, a análise permanece condicionada pelo resultado.

A precipitação e a superficialidade dos julgamentos estimulam noções equivocadas sobre a capacidade de treinadores e o patamar de futebol que suas equipes podem alcançar. No caso de trabalhos novos, como os de Ceni e Baptista, os processos que o jogo exige devem ser observados de forma respeitosa, sem veredictos após um clássico em março que não estava marcado com caneta vermelha na agenda de nenhum deles. Enquanto o imediatismo se alimenta de problemas fabricados e soluções que não existem, um gol maravilhoso como o de Dudu é tratado como um episódio menor. Um desses vídeos que desaparecem após alguns segundos, em vez de um quadro emoldurado e exposto a admiradores encantados.

(publicada em 13/3/2017, no LANCE!)

 



  • Klaus P.

    A primeira vez que tive essa sensação foi assistindo às atuações da Seleção sob o comando do Tite: há uma diferença tão gritante de conceitos em relação a modelo, plano e sistema da “moderna Seleção”, quando comparada aos demais adversários sul-americanos, que parece pouco provável que o Brasil deixe de encerrar as Eliminatórias na liderança.
    Então, lendo as últimas colunas, percebi que me ocorre o mesmo em relação aos textos do André: alguns conceitos nos tocam de forma tão inesperada e desconcertante, que atingem um nível de discussão muito acima do que se vê comumente no Brasil.
    Fazia tempo que não contribuía com um comentário, mas suas colunas continuam sendo leitura obrigatória.

    Um abraço.

    • André Kfouri

      Muitíssimo obrigado. Um abraço.

    • nilton

      Uma dica, intercala uma coluna do André com a do Tostão e as leituras ficaram muito mais agradável.

      • Klaus P.

        Obrigado pela sugestão! Li e leio muito o Tostão também. Inclusive, uma dezena de colunas dele e do caro Juca Kfouri (o pai mesmo, sem confusão) integraram a análise do meu TCC sobre Jornalismo Esportivo X Jornalismo Opinativo (11 anos atrás).
        Todavia, não enxergo, hoje, texto jornalístico opinativo mais informativo, analítico é agradável de ler, do que o do André.

        Desculpe a demora em responder, só vi seu comentário hoje.

        Um abraço!

  • J.H

    Concordo com tudo. Um dos treinadores que foi destruído pelo imediatismo das críticas por praticar um futebol ofensivo foi Adilson Batista, por ironia do destino com o mesmo sobrenome do Batista hoje citado neste comentário. Outro que está sendo demolido é Oswaldo de Oliveira também treinador que gosta de futebol ofensivo. Ceni terá muita sorte se vencer jogando assim. No futebol moderno a ofensividade começa com jogadores de defesa com habilidades de meias, que são craques um poco abaixo apenas dos Neymares e Messis da vida. Barcelona por exemplo, Piquet, Mascherano, e mesmo Daniel Alves que saiu, enfim todos são excelentes jogadores e armadores. Aí dá né André?

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