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O gesto do Cruzeiro na semana do Dia Internacional da Mulher teve menos repercussão, e recebeu menos aplausos, do que merecia. Uma das mais apropriadas iniciativas de um clube brasileiro a respeito de um assunto de extrema relevância, a ideia foi, infelizmente, percebida de maneira geral como mais uma “ação de camisa”, como se fosse um anúncio de programa de sócio-torcedor ou um incremento da poluição visual que caracteriza os uniformes atuais. A pouca atenção à necessidade de conscientização sobre o tema, claro, é reflexo direto do problema em si.

Se você não viu, ou não soube: as camisas usadas no jogo da última quarta-feira, contra o Murici, estamparam informações estatísticas sobre o cotidiano das mulheres no Brasil e no mundo. O número de cada jogador foi utilizado para ilustrar as informações, assim: “a cada 2 horas, uma é morta”, “a cada 11 minutos, um estupro”. Não eram apenas mensagens relacionadas à violência contra as mulheres: “apenas 9 em cada 100 deputados” ou “apenas 22% dos parlamentares no mundo”. O Cruzeiro jogou pela Copa do Brasil expondo dados sobre discriminação, preconceito e aspectos do universo feminino como “25% têm depressão pós-parto”. Conteúdo para ler, absorver, refletir.

Nas redes antissociais, especialmente no Twitter, a lembrança do que se costumava ler em portas de banheiro de rodoviárias foi imediata. Como é quase obrigatório quando temas dessa natureza são divulgados, mesmo que seja apenas com a simples intenção de comunicá-los, a “diversidade de opiniões” termina se convertendo em deprimentes exibições de ignorância, ou, para usar termos mais direitos, de burrice irremediável. E mesmo os questionamentos necessários a qualquer debate que pretenda ir a algum lugar – pois a ausência do debate implica na perpetuação do problema – perdem o ponto quando a presença de um time de futebol invoca a rivalidade tola: “legal, mas o que o Cruzeiro faz pelo futebol feminino?”.

Os dados expostos pelas camisas do Cruzeiro são importantes e precisam ser discutidos, mas, primeiro, devem ser conhecidos. A iniciativa não deixa de ser uma obrigação de todos os clubes de grande torcida no Brasil, pela representatividade da audiência que são capazes de atingir sem fazer nada além de entrar em campo com letras e números específicos em seus uniformes. A forma como essas ideias são recebidas é que deve mudar e, nesse contexto, o futebol brasileiro, como indústria, pode fazer muito mais. Assim como a sociedade brasileira deve fazer mais. A questão é a escala de prioridades, sempre invertida, e escolhas que atualizam a capacidade de causar surpresa.

A ação de conscientização dos direitos da mulher promovida pelo Cruzeiro aconteceu na noite de oito de março. Dois dias depois, o futebol recebeu de volta um homem condenado a vinte e dois anos de prisão pelo assassinato da mãe de seu único filho. O goleiro Bruno, tratado como uma celebridade egressa de um reality show desde que deixou a cadeia por um habeas corpus, assinou contrato com o Boa Esporte, da cidade de Varginha.

SOCORRO

Quando o futebol der aos árbitros e assistentes os mesmos recursos tecnológicos usados para julgá-los, seremos capazes de determinar, precisamente, o que é “interferência no resultado” e o que é a distância entre a realidade do campo e a da televisão. Para jornalistas, comentaristas de arbitragem e público em geral, é absolutamente impossível detectar o que um árbitro viu ou não viu em determinado lance. A comparação com o que os diversos ângulos das câmeras de televisão oferecem é de uma covardia brutal. Sem dizer que árbitros têm pouquíssimo tempo para processar lances que testemunham apenas uma vez, em velocidades muito superiores à própria capacidade de avaliação no que diz respeito a contato, força e intenções dos jogadores envolvidos. Que o vídeo possa salvá-los.

(publicada em 11/3/2017, no LANCE!)



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