Pequenez



É de Diego Latorre, ex-jogador argentino que hoje trabalha como comentarista e articulista, um raciocínio exemplar sobre a conduta de times de futebol. “Não há risco maior do que não jogar”, disse Latorre, em transmissão pela televisão. “A bola é a ferramenta que te dá esperança”, explicou. Trata-se de uma forma de entender o jogo que se aplica perfeitamente ao que se passou ontem em Barcelona, quando a maior virada da história das competições entre clubes europeus foi construída pelo time de Messi e Neymar, com um placar de 6 x 1.

Após submeter o Barcelona em Paris por 4 x 0, O PSG de Matuidi, Verrati e Cavani, do projeto bilionário para se converter em um clube referente na Europa, do desejo de vencer por intermédio da posse e da superioridade técnica, escolheu defender sua área no Camp Nou e apostar no gol, apenas um gol fora de casa, que congelaria o confronto. O time francês conseguiu esse objetivo, mas terminou no lado humilhante de uma goleada que o perseguirá para sempre, embora seja mais cômodo responsabilizar as decisões controversas do árbitro em lances de pênaltis.

A atuação do PSG foi muito, mas muito pior do que a do trio de arbitragem. Futebol medroso, mesquinho até, na maior parte do tempo. Trinta e cinco por cento de posse de bola, três finalizações no alvo e um terço do número de passes completos do adversário. A jogada do sexto gol nasceu de uma falta cometida no GOLEIRO Ter Stegen, no campo de ATAQUE do Barcelona, aos quarenta e oito minutos do segundo tempo. De certa maneira, o desempenho francês foi até mais censurável após o gol de Cavani, que obrigou o Barcelona a marcar três vezes em cerca de meia hora. Mas existe quem prefira afirmar que o apito decidiu tudo.

Há um tipo de analista que assinala as interferências da arbitragem nos resultados de jogos como ocorrências mais importantes do que a falta de interferência de times em seu próprio destino. Há um tipo de torcedor que acredita que árbitros, pobres deles, devem ter atuações impecáveis, ou, quando muito, distribuir seus equívocos de forma igualitária. E há um tipo de técnico que não só espera que as decisões do apito colaborem com seus planos, como conta com elas para o sucesso de suas “estratégias”. Também há times – poucos – que preferem investir na própria capacidade de decidir jogos, para não se tornar vítimas do acaso, do azar ou de erros que fogem a seu controle.

Enquanto certamente é desagradável observar o impacto da arbitragem em um jogo disputado com equilíbrio, apontar o dedo para qualquer lado após um placar de 1 x 6 parece constrangedor. Só acontece com times que correm o risco de não jogar.

(publicada em 9/3/2017, no LANCE!)



  • Paulo Pinheiro

    Isso me lembra daquela final Flamengo x Vasco, com gol no finzinho do Márcio Araújo. Tem gente que acha que o árbitro foi mais importante do que o desempenho das equipes. Mais do que a decisão errada do zagueiro Rodrigo de fazer cera e ser retirado de maca do campo justamente na hora daquela cobrança de escanteio.
    Eu também concordo que não deveriam acontecer erros, mas acontecem.
    E o vencedor não é o culpado.

    Agora fechamos!

    • André Kfouri

      Há um mundo de distância entre essas duas ocasiões. Um abraço.

      • Paulo Pinheiro

        Não resta dúvida. No primeiro caso uma dúvida em um lance dificílimo em que o assistente confunde se quem bateu na bola foi o jogador impedido ou o que estava em posição legal.
        No outro dois pênaltis altamente duvidosos, um deles gerando uma expulsão, em pleno Camp Nou, fora o pênalti não dado ao PSG.
        Mesmo assim sustento que erros acontecem. Méritos se reconhece.

        • André Kfouri

          Não, não é isso. E não pretendo voltar àquele debate. Apenas frisar a distância entre as duas ocasiões. Um abraço.

  • Rodrigo da Silva

    PSG foi horrível é lógico… atitude de time pequeno
    fez de tudo pra ser eliminado isso é fato…
    mas não teria conseguido se não fosse o árbitro
    o barça foi ótimo, esplendoroso, mas faltavam 5 minutos e dois gols
    sem o pênalti em Suarez não existiria virada, não tem como negar a interferência direto do apitador no classificado… sem falar nos penais a favor do PSG

    • André Kfouri

      Não se trata de negar a interferência, mas de compreender o contexto amplo de um jogo em que as equipes foram responsáveis pelo resultado. Um abraço.

  • Cleibsom Carlos

    Curiosa a atitude de parte da mídia tupiniquim! Enquanto por aqui qualquer erro de arbitragem é ferramenta para nos lembrar do nosso atraso, na Europa um escândalo como o de ontem, para essa mesma mídia, está inserido em um contexto e portanto, sendo justificável, não é escândalo. O que o juiz fez com o PSG, independente da covardia do time francês, foi um roubo! Não há como “relativizar” o que ocorreu no Camp Nou…O Barcelona merece aplausos pelo esforço, mas sem o “auxílio” do juiz, o melhor jogador do time catalão em campo, não teria se classificado! Não ver uma obviedade dessa não é questão de opinião, é má fé mesmo!!!!

    • André Kfouri

      Nonsense, como sempre. Uma espantosa confusão de conceitos.

      • Kauan Garcia

        Então agora as coisas são assim: se um time joga muito mal e perde de goleada para um adversário que se esforçou ao máximo para ganhar, mesmo que esta goleada seja fruto de uma “ajudinha providencial” do juiz, o perdedor não pode reclamar porque fez por merecer! Neste caso os erros do juiz devem ser postos em perspectiva, porque o time vencedor se agigantou e o perdedor se apequenou e este fato, por si só, “justifica” a “ajudinha providencial”. Opinião estapafúrdia (ou seria cínica) como essa diz mais sobre o Brasil atual do que qualquer tratado sociológico…PS.: Esta foi minha última manifestação em seu blog, meu filho me emprestou seu facebook para isso, não precisava me bloquear, bastava você escrever, para que as coisas ficassem claras para seus leitores, que você não me quer neste espaço. Mas tudo bem, o blog é seu e você bloqueia quem você quiser. Abraços!

        • André Kfouri

          ??? Não sei do que você está falando. Seu comentário me parece totalmente sem sentido, e não faria falta… mas aqui só está bloqueado quem escreve palavrão. É seu caso?

  • Gustavo Sordi

    Primeiramente, não achei tão absurda a arbitragem, a fama que existe no senso comum faz tudo ficar muito maior. Concordo plenamente com o texto, além disso, cada marcação diferente muda totalmente as variáveis, é impossível prever o que aconteceria. Por exemplo, pênalti de Mascherano (no lance ao vivo não é tão claro quanto falam, pois bate na axila) e pênalti em Neymar no primeiro tempo, 3 a 1 e ter que fazer 3 gols na etapa complementar, certo? Impossível saber mas poderia ser. O árbitro errou para os dois lados, não só em lances importantes mas também em faltas invertidas, perigo de gols, ataques parados por marcação de falta inexistentes. Lances capitais foram “2×1 para o barcelona”, o pênalti do terceiro gol é claríssimo, quem não vê isso está mal intencionado ou nunca jogou futebol na vida. A tática foi determinante, se propor a marcar e ser sufocado pelo adversário é normal, mas não foi bem feita e só conseguiram aquele gol em uma desatenção do Barça em uma falta no meio campo – as chances após isso vêm do desespero e desânimo do Barça, natural. Soma-se a isso o fato de o Barcelona não ser nem sombra do time que já foi, alguém viu alguma jogada do velho Barça? Era só jogar que o PSG faria 2 ou 3 gols. Tente esquecer todo o contexto e veja o lance do Suarez ao vivo, eu só vi que não foi pênalti no replay (marquinhos tenta puxar e desiste, além disso bate o joelho na perna, não foi mas sem replay pode enganar). O Barça não passaria sem esse pênalti? Provavelmente. Mas como o texto diz, quem se propõe a vencer tende a ser recompensado.

  • tadeu bezerra

    Perfeito André. Interferência significa ato de intervir em algo. Houve interferência sim, mas afirmar que a arbitragem teria sido responsável por um placar de 6 a 1 é querer mascarar os verdadeiros responsáveis pelo resultado final: O medo paralisante do PSG e a vontade de realizar um milagre do Barcelona. A força de vontade venceu o medo. De nada serve a “sorte” se você não souber o que fazer quando ela chegar. Parabéns pela coluna André.

  • Christian Timm

    Recomendo esta leitura: http://blogdobirner.blogosfera.uol.com.br/2017/03/10/barcelona-tem-aval-para-ganhar-no-apito-aplaudiram-o-que-foi-contrangedor/.

    “Sério. É impossível para quem raciocina ao analisar desempenhos, achar que mereceu a classificação porque mostrou grande futebol”

    • André Kfouri
      • Christian Timm

        Concordo com ele que o PSG foi covarde, patético, pequeno, etc, etc. Concordo que o Barcelona jogou para ganhar, “merecia”, fibra, e etc. O resultado continua sendo injusto. Pensa comigo André. Um criminoso é preso. Merece ser preso. As provas foram adquiridas ILEGALMENTE. “Ah, são situações diferentes. Ah, ele merece, ah, etc, etc, etc.” Na minha escola de pensamento, os fins não justificam os meios. Mas, claro, cada um pensa de maneira diferente.

        • André Kfouri

          Nada disso tem a ver com sistema judiciário, e muito menos com fins e meios. Um abraço.

      • Christian Timm

        E daí? Ele tem razão, eu nunca disse que não. Um criminoso é condenado. As provas foram colhidas ilegalmente. Ele deve ser condenado? Os fins justificam os meios? “Casos diferentes, se ele merece tem que ser preso, blablabla”. O resultado foi determinado ilegalmente (as infrações não são neste caso interpretativas, são factuais). Logo, o Barcelona não mereceu passar, mesmo “merecendo” por vontade.

  • Ricardo Gadelha

    Vamo lá…se o PSG mereceu ser eliminado pelo segundo jogo, o Barcelona mereceu pelo primeiro. Se arranjassem dois pênaltis pro PSG no 4×0, no que daria? A diferença foi o juiz.

    • Andre Slompo

      Concordo, colocações perfeitas; André, você teria algum comentário sobre o comentário do Ricardo Gadelha? Gostaria de conhecer, se possível.

    • Gustavo Sordi

      O segundo pênalti em Neymar é claríssimo, não entendo nem porque ele entra em discussão. Não marcado foram 1 no Mascherano e 1 no Neymar, no Suarez foi mal marcado. A forma de tática e comportamento no jogo foi o fator mais decisivo, depois de 1 milhão de replays e slowmotion é óbvio que parece absurdo o erro que proporcionou o quinto gol, mas ao vivo e mais ou menos o mesmo ângulo do árbitro eu achei que tinha sido falta, ele não tem replay. Passaria sem esse pênalti? Provavelmente não, mas não temos como saber, cada lance abre infinitas variáveis e possibilidades. O primeiro tempo poderia ter sido 3×1, ou mais ou menos. No contexto mais amplo o que proporcionou essa classificação foi o futebol.

  • Almir Moura

    O Texto é excelente, André!

    Obrigado!

    É uma pena que comentaristas tão bons como o Mauro Cezar Pereira, por exemplo, não compartilhem da mesma ideia vossa, tão bem explicada no texto.

    Você, assim como eu, compreende que a arbitragem deixou a desejar, ok. De fato, mas resumir a isso e deixar a epopeia em segundo plano (como outros jornalistas o fazem) , ou relevar a atuação extra série de Neymar em 7 minutos que já estão para a posteridade, me deixam de certa forma triste, desapontado.

    Um time quis jogar o tempo todo, o outro, só queria um gol.

    O melhor foi premiado.

    E cá entre nós, se é pra entrar no (tedioso) quesito arbitragem:

    Não custa lembrar, foram ao menos SETE lances polêmicos, envolvendo (eventuais) penalidades máximas.

    5 pró Barça, 2 pró PSG.

    Das do Barça, ao menos 3 lances em Neymar.

    1 falta cobrada na barreira por Messi, que resvalou na mão de Cavani. Involuntariamente, a meu ver.

    Além do lance crucial em Suarez.

    Já que estou entrando neste ponto, gostaria de chamar atenção para o seguinte:

    Se o juizão quisesse mesmo classificar o Barça, como virou chavão, por quê não deu os outros pênaltis?

    Reforço,

    A arbitragem foi de fato ruim, e acabou sendo crucial para a classificação do Barça, mas se até hoje, há quem discuta se foi ou não pênalti nos dois lances marcados, como ter tanta certeza assim que o lance agiu premeditadamente pró Barça, se deixou de marcar outros 3 lances parecidos?

    No primeiro penal marcado em Neymar, o juiz nem marcou de primeiro.

    Apenas , com ajuda do assistente.

    E se for pra olhar em slow motion, notem que no finalzinho da queda do zagueiro do PSG, ela movimenta a cabeça na tentativa de esbarrar a passagem de Neymar.

    Neymar valorizou? Sim, ok. Mas, o zagueirão do PSG fez por onde criar a situação que possibilitasse a marcação.

    O mesmo vale para o pênalti em Suarez, que sim, valorizou descaradamente , mas que sim, também, foi tocado.

    Outro ponto: ninguém cita o erro histórico de Di Maria, que foi fominha, egoísta ao extremo (talvez por querer se consagrar), ao não rolar a bola para Cavani nos minutos finais do jogo, lance que certamente definiria o confronto, o uruguaio teria entrada com a bola e tudo.

    DI Maria foi um personagem e tanto, que praticamente ninguém citou ou cita.

    Por fim, obrigado pelo texto e um grande abraço!

    • nilton

      Uma coisa que não vi ninguém comentar é que o Time do PSG tremeu depois do 4º do Barça, que deu inicio a uma pressão “infernal” da torcida e do time, pressão esta que o PSG não suportou e que o juiz como pouca experiência em jogos importante também não suportou, duvido que houve má fé do juiz.

  • Guilherme Gios

    O PSG, de fato, ao renunciar ao jogo permitiu que o apito decidisse, e esse o fez, como já era de se esperar.

    O pênalti no Suarez (inventado) desestabilizou e gerou pânico no PSG. Da mesma forma que o segundo gol da Alemanha(completamente legal), gerou no time brasileiro no Mineirão – isso é inerente ao ser humano no contexto do jogo, e o componente emocional é um dos principais no futebol.

    Portanto, o PSG foi sim, patético, como o Barcelona também foi em Paris. Ainda assim, o time francês se classificaria, caso a arbitragem fosse justa. Claramente, o ambiente do jogo e a diferença de camisas, influenciaram na arbitragem tendenciosa – como geralmente ocorre no mundo todo, em que os maiores times são favorecidos.

    O que é mais triste, para quem ama o futebol, é que uma vitória dessas, épica, será sempre manchada por uma arbitragem absurdamente tendenciosa – diminuindo o feito por si só. Já àquela do Mineirão, será sempre lembrada como vexatória, com toda a lisura.

  • Ariel Medina

    Andre, parabens! O que tenho visto de gente falando da arbitragem neste jogo…com todo respeito, qualquer pessoa que ja jogou futebol minimamente competitivo na vida sabe que o maior responsavel pela eliminacao do PSG foi o proprio. Os jogadores do time frances tb confirmaram isso apos a prtida, como vc bem observou abaixo.

    Nao tenho qualquer intencao de mudar a opiniao de ninguem e respeito se alguem diminui a classificacao do Barcelona devido a atuacao do arbitro. Mas confesso que sinto uma certa felicidade interna de nao ver o jogo desta maneira. Me aproxima mais do lado humano do futebol.

    Grande abraco e me desculpe pela falta de acentuacao.

    • André Kfouri

      Pois é. Ler o que disse o Verrati e vários ex-jogadores sobre essa partida é bastante educativo. Compreende-se bem como as coisas funcionam. Um abraço.

  • Gustavo Fávaro

    AK, com todo respeito você está se esquivando de uma crítica pertinente. É claro que os times devem gerenciar o risco de erros de arbitragem, mantendo a bola o mais longe possível de sua área e retendo-a o quanto puder. Até aí tudo bem. O problema é peso que você dá para esse gerenciamento de risco, mais importante até que a lisura da arbitragem. A seguir seu raciocínio, qualquer juiz que erre a favor do time com maior posse pode dormir sem peso na consciência. Qualquer time pode ser livremente prejudicado por árbitros, se sua tática for abster-se da bola – quem não quer jogar assume o risco dos erros, não é mesmo? As “falhas” (às vezes propositais) passam a ser mais desculpáveis, se favorecerem o time mais ofensivo. É como no boxe dar a vitória ao lutador que deu um golpe abaixo da cintura só porque ele procurou mais o confronto que o outro. Veja, é apenas uma crítica ao argumento, não a você.

    • André Kfouri

      Creio que você esteja levando o argumento a uma conclusão equivocada e generalizando situações. Meu ponto é relativo a essa partida, em que o PSG decidiu não jogar – apesar de ter uma enorme vantagem e totais condições de aumentá-la. Terminou por se colocar nas mãos da arbitragem, como outros já fizeram e provavelmente farão. Um abraço.

  • J.H

    O que se conclui! Fatos são fatos. O árbitro influenciou no resultado. Isso é pacífico. As análises a partir daí dependem da ótica de cada um. Há os que detestam o Barcelona, como há os que o adoram. Tem aqueles que apenas detestam o sucesso. É preciso “desconstruí-lo”. O Barcelona é um sucesso impossível de ser negado. A propósito, como Corinthiano, outro dia vi um jornalista chamando Fagner de criminoso por uma entrada em jogador do Botafogo, que aliás, “digassi depassage”, se contundiu em outro lance. Pois bem, assistindo um jogo do Bota na Libertadores, uma entrada 10 vezes mais violentas do que a de Fagner dada por um botafoguense recebeu da mesma pessoa o seguinte comentário:”Muito bem, é assim que se joga libertadores”.
    Ora bolas, vão plantar batatas analistas de obra pronta!

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