Fluxo



FLUXO

A Copa do Brasil proporciona confrontos entre times de realidades distantes e perguntas de caráter capcioso. Aconteceu com Thiago Mendes, volante são-paulino, e com o zagueiro Henrique, do Fluminense. No começo da semana, ambos foram questionados em entrevistas coletivas sobre o que conheciam dos adversários de seus clubes (PSTC e Sinop, respectivamente) e não ofereceram respostas muito generosas. Para certas análises, agiram como um réu que fornece provas contra si mesmo. Alienados!, bradaram os indignados.

Há quem acredite que jogadores de futebol pensam em futebol vinte e quatro horas por dia. Ou, ao menos, que deveria ser assim. São dois enganos, embora haja futebolistas que tratem sua profissão com impecável dedicação e façam parecer que não há espaço em seus dias e noites para nenhum outro tema. A enorme maioria, principalmente em clubes como os citados, está condicionada pelo fluxo de preparação de jogos determinado pela comissão técnica, que garante que as informações necessárias serão transmitidas da forma e no momento apropriados.

Se não quiserem, jogadores de clubes como São Paulo e Fluminense não precisam nem olhar a agenda de partidas dos campeonatos que disputam. Não precisam se preocupar em saber quando e onde jogam, em que horário e contra qual adversário. A programação diária de times desse nível é tão cuidadosa que basta segui-la para que tudo se encaixe na hora certa. O que significa que as características do oponente estarão presentes em palestras e, claro, em treinamentos específicos. Não deve restar dúvida de que, quando os árbitros apitaram, tanto Thiago Mendes quanto Henrique estavam informados sobre o que iriam enfrentar.

O que não quer dizer que não existam jogadores que já sabem o que os espera muito antes da conversa tática sobre o próximo encontro. Ou que percebem imediatamente que um determinado exercício em treinamento tem o objetivo de prepará-los para uma virtude do adversário. Existem, também, e não são raros, os que contratam analistas de desempenho para receber relatórios sobre as próprias atuações, pois enxergam essa ferramenta como um caminho para o crescimento profissional e a correção de possíveis deficiências. Mas nem estes, por mais diligentes que sejam, pensam em futebol o tempo todo. É necessário que se desliguem.

O nível de alienação de um jogador de futebol em relação ao próprio trabalho não se mede pelo que diz em entrevistas, mas pelo que faz no dia a dia. E mesmo nos casos extremos, a rotina de clubes estruturados é capaz de remediar quase tudo.

(publicada em 2/3/2017, no LANCE!)

 



  • J.H

    Resumo: Alienados são os entrevistadores em coletivas. Se fizerem uma coletânea de pérolas em coletivas com jogadores encontrarão matéria para uma divina comédia.

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