Dupla dinâmica 



Mano Menezes costuma dizer que a posição de técnico de futebol é um cargo de confiança do presidente do clube. A relação entre o principal dirigente e o treinador é permanentemente testada – mesmo quando as coisas vão bem em campo e a aparência externa é de absoluta tranquilidade – e precisa ter solidez para resistir às diferentes forças que agem contra ela, especialmente nos momentos de dúvidas gerados por resultados desagradáveis. Até nos clubes em que o departamento de futebol tem estrutura profissional e rotina organizada, o modelo presidencial é capaz de encontrar rachaduras e causar infiltrações.

A maioria dos clubes do futebol brasileiro é administrada politicamente. A chegada ao poder de determinada pessoa significa a vitória do grupo ao qual pertence, em um movimento caracterizado pelo mesmo tipo de fisiologismo que se nota em qualquer processo eleitoral. Como o discurso predominante está sempre relacionado ao futebol, tem-se a impressão de que esses dirigentes passam seu tempo envolvidos com assuntos do time. Equívoco. A agenda do cartola brasileiro padrão se preocupa, primeiro, com os temas que são importantes para o grupo que ele representa. O principal desses temas é a manutenção do poder.

Não são poucos os treinadores que percebem que a estrutura política dos clubes em que trabalham atua contra eles. O ambiente de vaidade extrema e constante tensão entre os pequenos feudos que constituem essas instituições é capaz de atrapalhar o dia a dia do time de diversas formas. Dentro dos clubes, todas as pessoas julgam compreender a profissão de técnico de futebol e têm opiniões a respeito do desempenho da equipe e do treinador que a dirige. Esse julgamento não cessa nem nas fases boas, e piora muito em épocas eleitorais.

A noção de que uma das funções do presidente é proteger o técnico é verdadeira, mas só revela metade da história. Os políticos do futebol descobriram que também podem ser protegidos pelos treinadores. Ao contratar um profissional renomado, com o chamado “currículo vencedor”, o cartola lava as mãos em relação aos problemas do time e responde a pressões internas com diferentes versões de “o que mais querem que eu faça?”. Com o tempo, os técnicos também passaram ser figuras políticas nos clubes e aprenderam a precificar essa atuação em áreas distantes do campo de treinamento.

Mas essa dinâmica vive sob ataque e a hierarquia não permite dúvidas sobre qual é o lado mais fraco. Quando os conflitos internos chegam ao limite e produzem manifestações de “torcedores” – aqueles sempre dispostos a se prestar a qualquer papel em nome da influência que massageia seus egos ociosos – contra técnicos, é chegado o momento de verificar se a confiança na relação é genuína. Se não for, o cartola sacrificará o treinador para garantir o próprio sono, e procurará um nome que seja capaz de prolongar o descanso. Convicções? Projeto? Filosofia? Palavras vazias, jogadas ao ar para ludibriar quem só está preocupado em vencer o próximo jogo.

SENTIDO CERTO

É começo de temporada, claro, mas o Flamengo se estabelece como exemplo de trabalho competente no futebol. Treinador mantido de um ano para outro, investimento na qualificação do elenco e suporte para a aplicação de novas ideias, algumas das quais já são perceptíveis na variação de maneiras de jogar. Não, campeonato estadual não é termômetro, mas o bom nível demonstrado até agora não pode ser ignorado.

PENSE

O Santos disputou as últimas oito decisões do Campeonato Paulista. Você realmente acredita que a razão da insatisfação “do torcedor” é a qualidade do futebol do time após seis jogos?

FICÇÃO

E continuamos insistindo em teses alheias ao futebol, como a que explica resultados pelo fato de um time “querer mais” do que o outro. O jogo não é uma questão de vontade. Se fosse, tudo seria muito mais simples.

(publicada em 27/2/2017, no LANCE!)

 



  • J.H

    Uma das maiores injustiças em críticas a treinadores, foi sofrida por Mano Menezes, quando sua passagem pelo Corinthians. Sistemática e diariamente eram recorrentes na imprensa acusações de favorecimento ou de esquema junto ao seu empresário Carlos Leite, e também de diversos jogadores. Pagava pelo crime duplo de seu empresário cuidar de jogadores de muita qualidade que não podiam vir para o clube que dirigia. (Que absurdo! podiam ir para qualquer time, menos para o time de Mano) e o crime de estar no Corinthians. Mano um dos melhores treinadores no Brasil, com certeza.

MaisRecentes

Legionário



Continue Lendo

Paraíso



Continue Lendo

Daquele jeito



Continue Lendo