Futebol de ataque 



Há uma confusão conceitual em curso quando se pede maior atenção à defesa a times treinados para atacar. A ideia com que se trabalha na vanguarda da metodologia do futebol é a de que não existe separação entre defesa e ataque, porque o que se busca é a capacidade – individual e coletiva – de fazer as duas coisas simultaneamente. Um dos sinais mais evidentes da evolução do jogo é o impacto que futebolistas que atuam nos dois lados da bola têm em suas equipes e nos adversários.

A observação sobre “a defesa” é imediata quando se vê um encontro espetacular como o Manchester City x Monaco (5 x 3) desta semana, ou quando um conjunto se mostra “desequilibrado” como, até agora, o São Paulo dirigido por Rogério Ceni. A esse tipo de time, solicitar ênfase na proteção do próprio gol é como sugerir mudança de nome. Dentro da extrema complexidade do futebol, existe uma escolha relativamente simples a fazer: qual é seu principal objetivo?

É impossível ocupar o campo inteiro. Times que acreditam em passe, posição e pressão assumem que, para atuar assim, é necessário conviver com os riscos que acompanham a inversão do que a maioria faz. Foi Marcelo Bielsa quem disse, em conversa com Pep Guardiola, que enquanto outros treinadores pensam em defender espaços pequenos e atacar espaços grandes, ele opta por defender espaços grandes e atacar espaços pequenos.

Tal plano deriva da preferência por ter a posse, mover o time como uma unidade até o campo do oponente e ali se instalar. Por isso a recuperação após a perda é crucial para manter a bola distante da própria área e evitar que o adversário explore a vastidão de gramado atrás da linha de defensores. A questão – e aí está o ajuste defensivo em que se deve trabalhar – é que o “perde, pressiona” é apenas um dos aspectos de uma estrutura de proteção que precisa funcionar bem.

Guardiola utiliza os laterais por dentro para fechar corredores de fuga da bola; Antonio Conte aproxima os atacantes de lado dos alas para desarmar no campo de ataque; Jorge Sampaoli não teme zagueiros no “um contra um”; há distintas maneiras de orientar a saída do adversário para zonas que facilitem a recuperação. São movimentos organizados que dependem de sincronia e concentração ininterruptas.

Times que praticam futebol de ataque não pensam em “defesa”, mas em “se defender” para reencontrar a bola e seguir atacando. É uma escolha corajosa. A frase de Ceni (“já passei muito tempo da minha vida lá atrás”), dita após a vitória na Vila Belmiro, expressa essa ideia. O São Paulo não precisa “acertar a defesa”, mas executar melhor o jogo a que se propõe.

(publicada em 23/2/2017, no LANCE!)
 



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