Viralizando



Um fato da maior importância aconteceu ontem na Arena da Baixada, em Curitiba: Atlético Paranaense e Coritiba não jogaram pela quinta rodada do Campeonato Paranaense. Não jogaram porque o cartório do futebol daquele estado não soube como agir diante de um movimento inevitável e escolheu, em uma colossal confissão de burrice e incompetência, o pior caminho possível. Ao final de um jogo que não começou, os tradicionalíssimos rivais, entrelaçados em torno do que os une, venceram o clássico que sempre os teve em lados opostos.

Não se trata de figura de linguagem. Quando o atraso do início da partida já passava dos quarenta minutos, os jogadores dos dois times subiram ao gramado juntos, deram as mãos no círculo central e aplaudiram a presença dos torcedores, que retribuíram com apoio ao que (não) viam em um domingo de futebol. No acesso ao campo, dirigentes dos dois clubes cumprimentaram os atletas, e os técnicos Paulo Autuori e Paulo César Carpegiani se abraçaram como é comum ver antes dos jogos. Só não havia bola ou trio de arbitragem, pois o destino do clássico estava decidido nos bastidores.

O episódio pode ser considerado uma aula gratuita de marketing suicida ministrada pela cartolagem paranaense. Ao não permitir a realização do jogo com transmissão pela internet, iniciativa dos clubes envolvidos após não chegarem a um acordo para que o encontro fosse mostrado pela televisão, o que a federação local conseguiu foi multiplicar o alcance do evento e sua repercussão. Nem em um hipotético esquema conspiratório confeccionado pelos clubes a FPF seria tão útil para divulgar a ocasião e atrair pessoas que provavelmente não tinham conhecimento.

A lição prosseguiu no pós-não-jogo, quando o presidente Helio Cury fez circular a versão “oficial” de que o Atletiba não aconteceu porque havia repórteres sem credenciais dentro do campo, que se recusaram a sair mesmo quando policiais foram chamados. Só pode ser a contribuição do mandatário da Federação Paranaense à era das “fake news”, recurso desesperado de um político do futebol diante da ameaça ao feudo que ele protege com unhas, dentes, canetas, telefones e poucos neurônios. Até os tabeliões da bola deveriam se atualizar para evitar fins tristes como o da FPF.

Atlético Paranaense e Coritiba poderiam ter se submetido e aceitado jogar sob as condições impostas de última hora. Seria contraditório em relação à posição que assumiram nos útimos dias e mais um caso de recuo de clubes brasileiros no momento de agir. Recusando-se a cancelar a transmissão que decidiram fazer em seus canais na internet, deram um passo que provavelmente não tem volta e foram ajudados pelo brilhantismo estratégico da federação. Enquanto um jogo transmitido pelo YouTube seria um marco no futebol do país, um jogo impedido pelo anacronismo é um símbolo ainda mais vistoso.

Valorizar o produto que lhes pertence não é apenas uma prerrogativa dos clubes, é seu dever. E a maneira mais apropriada de fazê-lo é exercendo a relação que os torna sócios na mesa de negociações, mesmo que sejam os mais sanguíneos adversários no campo. A união dos dois lados do Atletiba é algo que parecia inviável no ambiente dos clubes do Brasil, coniventes com o estado de coisas do qual vivem se queixando, inertes. A Federação Paranaense se encarregou de propagá-la, garantindo a viralização do clássico que não aconteceu, ainda que não entenda como isso funciona.

ZICO

Fantástica homenagem feita pela Udinese a Zico, mais de trinta anos depois de sua passagem pelo clube italiano que ele ajudou tornar conhecido. Zico faz parte de uma geração de formidáveis jogadores que talvez sejam mais admirados fora do Brasil do que em seu próprio país, por causa do clubismo que cega e porque deles se cobra uma Copa do Mundo não vencida, como se isso fosse pré-requisito de grandeza.

(publicada em 20/2/2017, no LANCE!)



  • Paulo Pinheiro

    Até que enfim um comentário sobre a homenagem ao Zico. Parabéns NOVAMENTE, André. Tem que ser sempre seu brilhantismo pra elevar o que outros ignoram.
    Sobre o “não Atletiba”, nada mais a dizer. Não acredito que de repente os velhos cartolas dessas equipes tenham se tornado profissionais e ótimos dirigentes.
    Mas certamente neste episódio em particular acertaram em cheio.

  • Edouard

    O que mais irrita é o cinismo da cartolagem. O cumprimento seletivo da norma que, segundo se alega, obriga o credenciamento, e que somente é invocada quando interessa. É a novidade por estas bandas: a legalidade de algibeira. Um abraço.

  • Nicolau

    Tratar esse episódio somente como uma disputa entre os clubes e a Federação Paraneaense esconde o maior interessado em boicotar a iniciativa de transmissão independente pela internet: a rede Globo, maior financiadora do estado de coisas que vemos no futebol brasileiro, da CBF aos clubes, passando pelas federações. Não é o primeiro nem será o último movimento da emissora da família mais rica do país para manter o monopólio da transmissão que detém há décadas.

MaisRecentes

Em frente 



Continue Lendo

Acordo



Continue Lendo

Futilidade



Continue Lendo