O fanático precoce 



A perturbação ao trabalho de Eduardo Baptista no primeiro tempo do terceiro jogo do Campeonato Paulista é um caso de insanidade. Um caso que certamente tem suas explicações nos bastidores políticos do Palmeiras, requentados pelo velho poder puxando longas cordas e ameaçando uma época promissora no aspecto esportivo, mas que, sobretudo, revela o desinteresse de um determinado tipo de torcedor por seu próprio time. A loucura se esconde no fato desse torcedor se julgar mais valioso para a causa do que aqueles que estão em campo.

O desejo de pura e simplesmente vencer, a ponto de não se importar com a maneira como a vitória chegará, alastrou-se por quase todas as artérias do futebol profissional. É o raciocínio invertido que precisa do remédio que compra tempo para o treinador, sossego para o dirigente e a mais efêmera satisfação para o torcedor: aquela que sobrevive do instante em que se percebe que o jogo está resolvido até o primeiro movimento da bola no encontro seguinte. É o chiclete cujo sabor dura apenas alguns segundos.

Enquanto a vitória sobre o São Bernardo era um insistente zero a zero, não foram só os apaixonados de aluguel que atrapalharam o técnico e o Palmeiras. Mesmo em meio aos setores do Allianz Parque que rechaçaram as referências a Cuca, houve quem demonstrasse uma inacreditável propensão ao desequilíbrio. Importante frisar: não se tratava de um jogo crucial do segundo turno do Campeonato Brasileiro, ou da semifinal da Copa Libertadores (mesmo nessas situações, claro, jogar contra seria errado). Início de estadual, e o Palmeiras não ganha um título há semanas.

Se a neurose por uma vitória no segundo mês do ano resultasse do diagnóstico de mentes futebolisticamente privilegiadas, seres capazes de visões premonitórias, ok. Sorte do clube que os tem. Mas é o exato oposto. Apupar Baptista, envenenar a atmosfera do estádio e prejudicar a concentração dos jogadores – na TERCEIRA partida da temporada – é próprio de quem não compreende nada sobre o funcionamento do futebol. Uma insensatez que corrompe o processo de formação do time, injetando receio onde é necessário que haja confiança. Uma coisa é analisar um jogo. Outra é julgar um técnico durante um jogo.

Os gritos por Cuca comprovam a falta de noção da realidade. Esquece-se que 1) foi ele quem decidiu deixar o Palmeiras, resolução tomada durante o ano passado e que nem o título brasileiro pôde reformar, e 2) para quem quiser entender: diversos jogadores do elenco atual estão satisfeitos sob um novo comando. Óbvio, gritar o nome de um técnico campeão não significa necessariamente pedir sua volta, é também uma forma de criticar o que se vê. Mas a precocidade da manifestação é uma anomalia até para os padrões nacionais de sabotagem em nome da paixão.

O Palmeiras estreia na Libertadores na noite de oito de março. Qualidade e quantidade à disposição de Baptista permitem competir em todas as frentes, mas nada no futuro próximo é mais relevante do que disputar uma excelente fase de grupos até o final de maio. Julgamentos da comissão técnica a cada semana não só não fazem sentido, como fazem mal ao projeto que deveria ter apoio geral. Equivocado a respeito de si mesmo e de seu papel no espetáculo que trata como parte de sua vida, o fanático evidentemente não é capaz de notar que tudo andaria melhor sem ele.

PÉROLA

O gol de antes da metade do campo de Gustavo Scarpa na Copa do Brasil não foi “apenas” um lance maravilhoso que vemos com raridade. Foi o selo de um jogador diferente, que se relaciona com o jogo e com a bola de maneira peculiar.

ESTRANHO…

Horas depois que o diretor de futebol do Corinthians declarou que “hoje em dia não se fala com o jogador ou o clube, só com o agente”, o Internacional falou com a Ponte Preta e contratou William Pottker. Pois é.

QUATRO JOGOS

Rogério Ceni fala como um técnico experiente. O time dele joga como um time treinado.

(publicada em 18/2/2017, no LANCE!)
 
 



  • mv_vilacarrão

    interessante tem muito comentarista e apresentador que disse que o treinador não tinha estatura pra dirigir o time, mas a organizada não pode dizer isso ,nem vou discutir momento porque se quer cobra tem que ser ali na arena não em ct ,minha opinião não era pra ser ele nunca e nem jogou libertadores,mas já que esta lá vamos torce

  • criscasper

    Discordo em certos pontos, vamos colocar como exemplo o são Paulo, primeira oportunidade do Rogério como técnico e vc não ver o time batendo cabeça como o palmito que o técnico já tem uma certa experiência, por três vezes ou até mais os jogadores do palmeiras se batiam por uma bola que estava com o palmeiras, não vi padrão nenhum no palmeiras, e cedo pra reclamar? De uma Certa forma sim, mas com o cuca no terceiro jogo já sabíamos o que ele queria implementar, infelizmente o que nos resta é torcer pra que não seja uma decepção este ano pq temos dinheiro e time…

  • marco verdi

    Bem, André, imagino que você tenha lido o Cristiano aí de baixo; imagino, também, que ele não lhe soe como um dos fanáticos precoces a que você se refere no texto. Achei-o até bem conservador, se me permite. O problema, André, não é a vitória ou empate ou derrota do Palmeiras, mas o layout do futebol do Baptista, coisa que nos traz recordações terríveis, horrorosas, ainda muito frescas em nossas memórias.A ideia infeliz de 4-4-1 ou o que seja que enceta um futebol burocrático, sem pegada, onde, mais uma vez, retoma-se a criação do “no man´s land”, o espaço entre a intermediária e a linha do meio de campo, imagem que nos espantou durante meses a fio até que foi povoada pelo Cuca (e, por isso, os gritos pedindo sua volta, sei lá). Falta sensibilidade às Diretorias de clubes de futebol para perceberem que tipo de profissional a torcida deseja para dirigir o time. O Baptista claramente NÃO era a opção dos torcedores não por cisma ignorante mas porque claramente o cara tem um perfil muito tímido para tomar à frente de um time tão cheio de planos, alguns até mirabolantes. Para lhe dizer a verdade, se eu torcesse para o São Paulo, eu já estaria pondo a boca no trombone acerca da falta de organização da zaga do Ceni, que é uma vergonha. Se fosse santista, não engoliria a derrota para a Ferroviária de ontem à noite e se corinthiano fosse há mais de um mês estaria na frente do Itaquerão exigindo a saída do Carille. Técnico brasileiro é MUITO ruim e MUITO arrogante. GANHAM muita GRANA para fazer POUCA coisa. Ou me engano?

    • André Kfouri

      Sim, se engana muito. Seu comentário me parece exatamente o tipo de manifestação ao qual me refiro no texto. Um abraço.

    • Julia Posey

      Meu caro, o Tite era a última pessoa que a torcida do Corinthians queria para treinar o time em 2010. Além de perdermos um brasileiro que liderávamos com folga e a desclassificação contra o Tolima, levou um tempo para ele se ajustar. Não fosse a diretoria bancando-o por conhecer o seu trabalho no dia a dia, não dando ouvidos às reclamações de torcedores, não teríamos tido a arrancada que tivemos. E o resto é história. Tenham paciência com o Eduardo Batista, que, é sim, um técnico muito promissor.

  • André Kfouri

    Desculpe, ninguém está vendo o Eduardo Baptista trabalhar. E é ridiculamente cedo para fazer julgamentos. Obrigado. Um abraço.

    • Cristiano Guirado

      Salve André…. esperando um texto seu defendendo o Eduardo Baptista… estou sim, vendo o cara trabalhar desde que ele chegou, a falta de capacidade para treinar o Palmeiras ficou evidente já na pré-temporada quando ele fez o time refém de uma única formação tática… ontem, precisando vencer (quem tem um homem a mais no maior derby brasileiro precisa vencer) ele tira um volante e coloca outro…

      • André Kfouri

        Não, você não está vendo o Eduardo Baptista trabalhar; você está vendo o time jogar. E se por um lado entendo que o técnico deve ser criticado quando seu time cria apenas uma ocasião de gol em 45 minutos com um homem a mais, não vejo como razoável culpá-lo por um contra-ataque após uma cobrança de falta equivocada, seguida por uma falha individual (Guerra) e a falta de atenção que deixou Jô desmarcado sem que ele precisasse correr. De qualquer forma, é preciso ter algum conhecimento sobre montagem de equipes para compreender o tempo que levam para se estabelecer. Um abraço.

        • Cristiano Guirado

          aquele lance não sai da minha cabeça… você acha certo o Guerra ficar de último homem e o Mina no ataque?

  • Renato Damasceno

    Estava no estádio, e me desculpe a expressão, mas ganhamos de 2×0 fazendo um jogo péssimo. Ao meu ver:

    – O técnico, ao invés de ir colocando o esquema dele aos poucos, simplesmente mudou tudo ao mesmo tempo sem necessidade;
    – Conforme um amigo aqui mesmo comentou, ele fala bem, porém parece trabalhar mal;
    – O Eduardo não me parece o tipo de técnico capaz de gerenciar a quantidade de melindre que vai existir neste time do palmeiras;

    Talvez um dos poucos pontos em que concordo no texto é o de a torcida gritar o nome do cuca, isto sim não faz sentido algum!!

    Outra questão, pagamos um dos ingressos mais caros do país, senão o mais caro! Obviamente a cobrança é proporcional ao investimento feito, isso sempre foi o Palmeiras.

    Se o técnico não aguenta tal pressão ou a utiliza para melhorar, que pegue sua viola e saia do time, não podemos ter outra experiência a lá Marcelo oliveira na libertadores deste ano.

    Abs

  • Carlos

    Hoje foi o quarto jogo do EB. Melhorou? Sim. Está perfeito? Graças a Deus não, porque ainda estamos em Fevereiro. O cara pode ganhar até a Champions league, Mas no próximo tropeço (sim, todos tropeçam) vão dizer: “lembra do jogo contra o Ituano?”
    Falam do Cuca aqui como se ele fosse unanimidade quando chegou. Ele conquistou essa unanimidade. Não sou fã do EB, até porque estou conhecendo ele agora, mas entre ele, que não conheço, e os que eu conheço (o Palmeiras já teve todos os técnicos de ponta do BR), eu fico com a renovação. Deixa o cara trabalhar.

  • J.H

    Linda homenagem ao Sócrates pela torcida Corinthiana, sua esposa, Suplicy, na UPA de Itaquera que recebeu o nome do Doutor. Infelizmente poucos divulgaram esse evento na data em que Sócrates faria 63 anos. Mesmo jornalistas Corinthianos que se dizem apaixonados pelo clube, não produziram sequer uma linha sobre o fato. Isso só mostra que o jornalismo reativo continua a todo vapor explorando notas de preferência negativas. Lamentável.

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