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Em uma quarta-feira de março de 2014, São Paulo e Audax se enfrentaram pelo Campeonato Paulista. A vitória (4 x 0) são-paulina sobre o time que era chamado de “surpresa do Paulistão” ficou marcada pelas falhas do goleiro Felipe Alves, não em defesas mal executadas, mas em passes equivocados próximos à área que se converteram em gols. Ao final do jogo, parte da torcida do São Paulo sugeria que os jogadores do Audax tocassem a bola para seu goleiro, um pedido irônico que caçoava da intenção do time dirigido por Fernando Diniz de conservar a posse. O Audax não foi apenas goleado por um adversário que explorou seus – muitos – erros, foi tratado como brincadeira infeliz, um desperdício de tempo.

Cerca de um ano depois, também pelo torneio estadual e no mesmo estádio, o segundo encontro entre São Paulo e Audax teve outra coincidência: o placar. Naquele sábado, o time de Osasco já tinha passado de “surpresa” a “projeto de tiki-taka”, mas não foi capaz de executar corretamente uma ideia de futebol que era clara (para os interessados). E diferentemente do encontro anterior, o resultado não se explicou por gols presenteados ao adversário, mas por erros defensivos fatais para times que jogam com zagueiros próximos à linha do meio de campo. Mas o que o Audax se propunha a fazer era tão cristalino, e tão atualizado, que Rogério Ceni até hoje entende que, em jogo, a goleada não refletiu o que se deu em campo.

No terceiro enfrentamento, em abril do ano passado, em Osasco, o Audax não era nem surpresa, nem projeto, e nem, como ainda se dizia, um time “que não dava chutão”. Era um produto finalizado de uma maneira de jogar futebol que estava a caminho da decisão do Campeonato Paulista, superando, coletivamente, oponentes com orçamentos muito maiores e jogadores mais capazes. O desfecho, vitória do conjunto de Diniz, não deixou dúvidas quanto ao time que teve o melhor desempenho numa noite em que o contraste de conceitos de jogo foi tão notável quanto o placar: 4 x 1. Só o Santos, na final, conseguiu solucionar os problemas causados pelo tipo de futebol praticado pelo Audax, e o fez por intermédio de uma proposta reativa que cedia a bola ao adversário em troca do espaço para correr.

O quarto jogo entre São Paulo e Audax aconteceu no último domingo, em Barueri, e terminou com nova demonstração de domínio coletivo do trabalho mais duradouro. Ao assumir o São Paulo, em dezembro passado, Ceni revelou especial preocupação com o fato de não poder estudar o Audax em detalhes, justamente por não saber quais jogadores formariam a equipe de Diniz. O encontro seria a estreia de ambos no estadual, o que logicamente impediria uma análise da atuação do adversário. A aplicação do sistema de Diniz levou seu time ao placar de 4 x 2 com evidente imposição, simbolizada pela construção do segundo gol, um primor de ataque posicional em que duas tabelas eliminaram defensores e permitiram a conclusão de Pedro Carmona, o jogador que iniciou o lance.

As primeiras entrevistas de Ceni como técnico foram generosas em relação ao futebol que ele prefere e as ferramentas com as quais pretende alcançá-lo. As fraquezas que o São Paulo exibe no início da temporada são próprias de um embrião obrigado a competir, um cenário que guarda semelhanças – no aspecto do tempo de implantação do jogo – com os primeiros passos do Audax de Diniz. A total reversão de sentido no histórico do confronto entre esses clubes oferece elementos valiosos para a compreensão correta (de novo, para os interessados) da complexidade da montagem de equipes, especialmente quando o plano é avançar em seu funcionamento coletivo.

Jogar com duas linhas de quatro bem próximas e recuadas, apenas um homem criativo e ver o que acontece na bola parada é mais simples. A questão é saber se é isso que se deseja. Se for, está errado.

(publicada em 11/2/2017, no LANCE!)



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