Aventura vulgar



Como conteúdo para uma história de suspense emocionante, em que os envolvidos tiveram de superar repetidos obstáculos para chegar a um estádio de futebol, e ainda alcançaram uma vitória que desafiou todas as probabilidades, a epopeia do Atlético Tucumán é material para um documentário de sucesso indubitável. Como fotografia do futebol sul-americano de elite, com o principal torneio do continente como cenário, é uma representação fidedigna de uma realidade deprimente.

Não é posssível recortar o que se deu a partir do apito inicial da partida entre o time argentino e o El Nacional, na noite de terça-feira, em Quito, distanciando o futebol jogado do emaranhado de desorganização e desrespeito às normas que permitiu que o encontro acontecesse. Sem considerar os excessos cometidos e os riscos aos quais os jogadores do Tucumán foram submetidos, a simples realização do jogo afrontou duas regras da Copa Libertadores: os times devem estar na cidade com vinte e quatro horas, e presentes ao estádio com noventa minutos de antecedência.

Os relatos dos futebolistas argentinos sobre a viagem de ônibus do aeroporto ao estádio Atahualpa, em que o coletivo chegou a 130 quilômetros por hora e ninguém usava cinto de segurança, revelam a proximidade entre a aventura e a tragédia. O fato de terem atuado sem a preparação apropriada, vestindo os uniformes da seleção sub-20 do país e chuteiras de tamanhos inadequados, expõe a Libertadores ao ridículo que se conhece, uma faceta tradicional do torneio, entre outras razões, porque há quem se deixe seduzir pelo subdesenvolvimento e enxergue charme na vulgaridade.

O Atlético Tucumán empregou um plano irresponsável para chegar a Quito poucas horas antes do jogo, como forma de minimizar os efeitos da altitude em jogadores não adaptados. Pelo que se sabe, assuntos burocráticos atrasaram a programação e provocaram a sequência de absurdos, incluindo o uso de influência política para que o horário da partida fosse adiado, como foi. Mas a regra das vinte e quatro horas já tinha sido ignorada, motivo mais do que suficiente para que a Conmebol atuasse. O restante da história aumenta o folclore de um torneio atrasado e perigoso, felizmente, neste caso, sem o registro de feridos ou notícias ainda piores. Não é “cultural”, é grotesco.

A conversão da Copa Libertadores em uma competição séria, atualizada e respeitável não depende de nenhuma medida que descaracterize o futebol sul-americano. Depende, sim, da chegada do dia em que esses adjetivos poderão ser utilizados para descrever a Conmebol.

(publicada em 9/2/2017, no LANCE!)



  • Paulo Pinheiro

    LaMia rodoviária… Só que desta vez com mais sorte do que o juízo nenhum.

    André, também cabe comentar o atual calendário do futebol brasileiro, né? Nunca foi um primor mas este ano se superou.
    Dois times catarinenses que jogaram ontem… e vão jogar hoje.

    Tá triste.

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